O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) carimbou politicamente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como símbolo da submissão bolsonarista aos Estados Unidos poucas horas antes de o filho zero um subir ao palanque de Sergio Moro (PL-PR), em Curitiba, nesta sexta-feira (29).
O ato da direita começou por volta das 19h, com clima de revanche lavajatista. No palco, foram chamados o vice-prefeito de Curitiba, Paulo Martins (Novo), Sergio Moro, Flávio Bolsonaro, Filipe Martins, Deltan Dallagnol (Novo) e Rogério Marinho (PL-RN).
Paulo Martins bateu continência para Moro. O apresentador, em tom inflamado de comício, apresentou o ex-juiz como “o homem que prendeu Lula”. Flávio Bolsonaro apareceu com uma camiseta preta com os dizeres: “Curitiba prendeu, Brasília soltou”.
A cena condensou o roteiro político da noite. A direita voltou a fazer da prisão de Lula em Curitiba o centro simbólico de sua identidade, enquanto Lula, em Sergipe, havia transformado a ida de bolsonaristas aos Estados Unidos em acusação de traição nacional.
Lula não citou Flávio Bolsonaro pelo nome no trecho mais duro do discurso. Mas o alvo político ficou evidente. O senador esteve em Washington, reuniu-se com Donald Trump e Marco Rubio, e defendeu a classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos.
Em Laranjeiras (SE), Lula disse estar “muito triste” com a notícia atribuída a Rubio e afirmou que o Brasil não aceita intervenção americana para enfrentar criminosos brasileiros. O presidente reconheceu que PCC e Comando Vermelho praticam terror contra comunidades, famílias e trabalhadores das periferias, mas sustentou que o combate deve ser feito pelo Estado brasileiro.
“Não brinquem com a soberania desse país, não brinquem com a nossa democracia”, afirmou Lula, ao cobrar a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública e defender inteligência, estrutura federal e cooperação sem submissão externa.
O ponto de confronto foi direto. Lula disse que um “filho de bolsonarista” estaria ajudando a pedir intervenção americana no Brasil. Em seguida, comparou esse tipo de gesto à figura de Joaquim Silvério dos Reis, delator da Inconfidência Mineira e símbolo histórico da traição no imaginário político brasileiro.
Curitiba virou, portanto, o primeiro teste público para Flávio Bolsonaro depois da fala presidencial. A camiseta com ataque a Brasília buscou reativar a narrativa da Lava Jato contra Lula. Mas, no mesmo dia, Lula havia reposicionado o debate: a pergunta deixou de ser apenas quem combate o crime e passou a ser quem entrega a política brasileira a Washington.
Moro também entrou no centro do problema. O lançamento de sua pré-candidatura ao Governo do Paraná nasceu colado ao nome de Flávio Bolsonaro, à memória da Lava Jato e à tentativa de nacionalizar a eleição estadual. O ex-juiz precisa provar que é candidato ao Palácio Iguaçu, não apenas fiador local do projeto presidencial bolsonarista.
A presença de Deltan Dallagnol, Rogério Marinho e Filipe Martins reforçou o tom nacional do palanque. O evento de Moro não foi apenas um lançamento estadual. Foi um ato de rearrumação da direita em torno da Lava Jato, do bolsonarismo e da pauta de segurança pública.
O risco para esse campo é carregar, junto com a bandeira contra o crime, a acusação de dependência política dos Estados Unidos. Lula tenta explorar exatamente esse flanco: separar combate a facções de intervenção estrangeira e empurrar Flávio Bolsonaro para a posição de aliado de Trump contra a soberania brasileira.
A direita aposta que o eleitor ouvirá “combate ao crime”. Lula tenta fazer o eleitor ouvir “intervenção”. Essa disputa de sentido vai atravessar a eleição de 2026, inclusive no Paraná, onde Moro tenta vestir a roupa de governador sem abandonar o figurino de juiz da Lava Jato.
A noite de Curitiba mostrou que a direita escolheu a nostalgia da prisão de Lula como combustível político. O discurso de Sergipe mostrou que Lula escolheu a soberania nacional como linha de ataque. Flávio Bolsonaro ficou no centro das duas cenas.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
