Flávio Bolsonaro acerta Faria Lima ao mirar Lula

Flávio Bolsonaro (PL) tentou transformar a decisão dos Estados Unidos contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) em munição contra Lula (PT), mas o tiro político atingiu também a Faria Lima, onde operações recentes já apontam o uso de fintechs, fundos e empresas do setor de combustíveis para lavar dinheiro do crime organizado.

O governo Donald Trump anunciou nesta quinta-feira (28) que classificará PCC e CV como organizações terroristas estrangeiras a partir de 5 de junho. Antes disso, as duas facções já entram na lista de terroristas globais especialmente designados, categoria que permite restrições financeiras e sanções nos Estados Unidos.

A medida foi comemorada por Flávio Bolsonaro, que havia levado a pauta a Washington em encontro com Trump e com o secretário de Estado Marco Rubio. O objetivo político era simples: encurralar Lula na segurança pública, disputar o eleitorado conservador e deslocar a conversa nacional do caso BolsoMaster.

O problema é que a classificação não mira apenas favela, fronteira e presídio. Ela também aponta para dinheiro, banco, fintech, fundo de investimento, combustível, importação, exportação e empresas com risco de contato direto ou indireto com recursos do crime.

A nova fase da Operação Carbono Oculto, batizada de Fluxo Oculto, colocou seis fintechs da Faria Lima sob suspeita de lavagem de dinheiro ligada ao PCC. A apuração citada pela imprensa aponta movimentação de R$ 26 bilhões em estruturas financeiras usadas como bancos paralelos.

É nesse ponto que o discurso da direita muda de chão. Quando a pauta era bater em Lula, a etiqueta de terrorismo parecia útil. Quando a consequência alcança a engrenagem financeira, os editoriais descobrem a soberania nacional, o risco jurídico e a ameaça de intervenção estrangeira.

A preocupação com soberania é legítima. O Brasil não pode terceirizar a Trump, Rubio ou ao Departamento do Tesouro dos Estados Unidos o poder de dizer como o Estado brasileiro combate facções criminosas em território nacional. Crime organizado deve ser enfrentado com polícia, inteligência financeira, Receita, Ministério Público, cooperação internacional e controle do sistema bancário.

Mas há uma ironia pesada na reação de parte da velha mídia e do mercado. Os mesmos setores que tratam a Faria Lima como sinônimo de modernidade agora precisam explicar por que fintechs, fundos e bancos paralelos aparecem em investigações sobre lavagem de dinheiro do PCC.

O governo Lula tenta caminhar por uma linha estreita. De um lado, não pode parecer leniente com PCC e CV. De outro, precisa evitar que a classificação americana abra brecha para sanções, constrangimentos diplomáticos ou pressão externa sobre empresas brasileiras sem controle do Estado brasileiro.

Celso Amorim, assessor especial da Presidência, já havia defendido cooperação contra lavagem de dinheiro, mas rejeitado qualquer pretexto de intervenção. Essa é a diferença central: combater o crime é obrigação do Brasil; aceitar tutela estrangeira é outra coisa.

Flávio Bolsonaro tentou repetir a lógica do tarifaço. Apostou que Trump poderia produzir um fato externo capaz de emparedar Lula dentro do Brasil. A manobra tem apelo eleitoral, mas também carrega efeito colateral: se o crime organizado lavou dinheiro por estruturas financeiras sofisticadas, a investigação não termina na periferia.

Tarcísio de Freitas (Republicanos) também embarcou nessa linha ao defender a classificação de PCC e CV como grupos terroristas. O governador de São Paulo tentou transformar a pauta em vitrine de segurança, mas a operação sobre fintechs no centro financeiro do país devolve a pergunta incômoda: quem abriu as portas do sistema financeiro para o dinheiro do crime?

O debate real não é defender PCC ou CV. As duas facções precisam ser combatidas com rigor. O debate é saber se o Brasil enfrentará o crime organizado por dentro das suas instituições ou se aceitará que Washington use a pauta criminal para ampliar poder sobre bancos, empresas, políticos e setores estratégicos da economia nacional.

A direita queria usar o terrorismo como palavra de ordem contra Lula. Acabou entregando uma pauta que pode atingir o capital que sempre se vendeu como limpo, técnico e eficiente. Quando a água bate na banda do dinheiro grande, o nacionalismo aparece rápido.

A pergunta que fica para o Congresso, o Banco Central, a Receita Federal, a Polícia Federal e o governo Lula é direta: quem vai auditar a Faria Lima quando o dinheiro do crime deixa de circular em malas e passa por plataformas financeiras com cara de inovação?

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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