Carlos Fidelis: O jovem militante e o mais do mesmo

O jovem militante e o mais do mesmo

O jovem militante estava certo? Em artigo, o historiador Carlos Fidelis questiona os limites de uma esquerda que governa sem romper

Por Carlos Fidelis*, no site do Cebes

No calor da vitória eleitoral de Lula em 2022, um jovem militante de esquerda me disse, logo após o anúncio do arcabouço fiscal, que aquele modelo seria uma armadilha — algo que acabaria limitando a capacidade do próprio governo de governar. Para ele a vitória deveria ser aproveitada para uma mudança real de rumos na direção do abandono do neoliberalismo.

A crítica fazia sentido e dialogava com um diagnóstico mais amplo sobre os limites impostos à ação estatal. Ainda assim, à época, ponderei que a conjuntura era extremamente adversa e que qualquer avaliação precisava levar em conta o contexto concreto em que o novo governo se instalava.

O país estava dividido e vivia um ambiente de forte instabilidade institucional, com sinais claros de ruptura democrática em curso. Havia acampamentos em frente a quartéis, mobilizações de caráter golpista, como as manifestações de 12 de dezembro de 2022 — data da diplomação de Luiz Inácio Lula da Silva —, além de episódios, como a tentativa de explosão de um caminhão de combustível no aeroporto de Brasília.

As forças derrotadas, fiz questão de lembrar, contavam, além de aproximadamente metade do eleitorado, com a aprovação das forças armadas, incluindo parte da Polícia Federal e as polícias militar e civil nos estados. Detinham também o apoio da grande mídia, o domínio das redes sociais e a adesão de grupos religiosos expressivos.

Esse processo, como sabemos, culminaria nos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, quando grupos mobilizados e manipulados pela extrema direita invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em uma tentativa explícita de ruptura institucional.

Para além da ponta do iceberg

Posteriormente, vieram à tona informações ainda mais alarmantes: planos que incluíam o assassinato de Luiz Inácio Lula da Silva, de Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes, além de propostas de encarceramento em massa de opositores, em estruturas que evocam práticas autoritárias extremas como campos de concentração.

Tratava-se, portanto, de uma tentativa organizada de radicalizar e consumar um projeto político que não surgiu de forma abrupta, mas que vinha sendo progressivamente construído ao longo do tempo: desde, pelo menos, as manifestações de 2013 e o processo de ruptura institucional que levou ao afastamento de Dilma Rousseff.

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Um caminho que passou pelo aprofundamento de uma agenda de austeridade e desregulamentação no governo de Michel Temer — com destaque para a emenda constitucional do teto de gastos e as reformas trabalhistas, incluindo o fim do imposto sindical —, até alcançar sua forma mais intensa, explícita e violenta durante o governo de Jair Bolsonaro.

Esse projeto — tendo Jair Bolsonaro como títere da vez — manifestou-se em múltiplas dimensões: no desmonte de direitos sociais; nas reformas que fragilizaram a proteção ao trabalho e a previdência; no retorno da fome; e na condução do combate à pandemia de Covid-19, marcado por negligência e por ações deliberadas de abandono, resultando em número inadmissível e evitável de mais de 700 mil mortos. Some-se a isso a grave crise humanitária que atingiu o povo Yanomami, vitimados pelo garimpo ilegal e pelo abandono do governo federal que se aliava aos garimpeiros.

As ações deliberadas de predação, então em marcha acelerada, eram complementadas por uma política ambiental orientada pela destruição e a entrega de ativos estratégicos.

O plano, qualificado como passar a boiada, incluía a incapacitação do Estado como elemento de indução do desenvolvimento, deixando o país à mercê de grandes conglomerados nacionais e internacionais e do crime organizado, que se infiltrou fortemente nas instituições da República e nos mais elevados segmentos da economia, notadamente no setor financeiro rentista.

Assistiu-se, nos últimos anos, à desestruturação de grandes empresas nacionais de engenharia e construção civil — atingidas em processos que, sob a justificativa do combate à corrupção, produziram efeitos econômicos e produtivos profundos —, bem como à alienação de ativos estratégicos, como refinarias e oleodutos da Petrobras.

Como consequência, observou-se a ampliação do desemprego, o crescimento da informalidade, o congelamento de salários em um contexto de inflação persistente e a fragilização do mercado interno.

Paralelamente, o Brasil perdeu posições no ranking das maiores economias globais, ao mesmo tempo em que passaram a se tornar recorrentes cenas de profunda degradação social — como filas por ossos em açougues e pessoas vasculhando lixo em busca de alimento —, evidenciando o agravamento das condições de vida de amplos segmentos da população.

Coroando esse quadro, a gestão da pandemia de Covid-19 expôs de forma dramática os limites e as consequências desse modelo, com a abertura massiva de covas em cemitérios e episódios críticos de desabastecimento de oxigênio e de medicamentos de sedação essenciais para a intubação de pacientes, revelando falhas graves na proteção da vida em um momento de emergência sanitária.

Pedágio para transição ou barreira permanente ao avanço?

Diante do quadro descrito, a adoção de mecanismos como o arcabouço fiscal pode ser compreendida — ainda que de forma crítica — como parte de uma estratégia de estabilização institucional e de reconstrução das condições mínimas de governabilidade. Uma opção que não convenceu, e ainda não convence, o jovem militante a que me referi.

De fato, ponderei por muito tempo, que tal opção, apesar de não dar conta dos seus próprios limites — nem resolve a tensão estrutural entre restrição fiscal e capacidade de ação do Estado —, permitiu situar o debate no terreno concreto em que se deu: o de um governo que, ao assumir, precisava, simultaneamente, reconstruir o país e evitar o colapso da própria democracia, a destruição completa das conquistas sociais acumuladas e o esfacelamento da capacidade do Estado de alavancar uma dinâmica econômica distributiva, sustentável e soberana em um país que, historicamente, busca afirmar-se como potência no cenário internacional. Um futuro sabotado a cada vez que mais perto se chega dele.

Um equilíbrio frágil e fadado ao fracasso

Análises como as de Marina Basso Lacerda, recentemente publicadas no Le Monde Diplomatique Brasil [Viomundo reproduziu], buscam lançar luz nesse emaranhado. Lacerda afirma, com acerto, que o modelo neoliberal prometeu melhorar a vida das pessoas, mas acabou produzindo desigualdade, insegurança e frustração.

Mais do que isso, e aqui vem o argumento que reforça a visão do meu jovem interlocutor: parte da própria esquerda, diante de limites políticos e institucionais e sem se sentir segura para promover uma inflexão mais profunda, acabou por se adaptar a esse modelo, passando a administrá-lo em vez de transformá-lo.

Nesse cenário, prossegue a analista, a extrema direita soube ocupar o espaço aberto por essa frustração, apropriando-se do discurso de ruptura e apresentando-se como força “antissistema” — justamente porque uma parcela crescente da população passou a perceber a esquerda como parte integrante do próprio sistema que prometera superar.

Evidentemente, não se pode negar que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva desempenhou um papel decisivo na preservação da democracia, ao interromper — ainda que de forma parcial — a dinâmica de desestruturação institucional associada ao avanço do neoliberalismo internacional e de seus aliados internos.

Tal movimento pode ser compreendido, como uma reconstituição mínima da capacidade estatal em um cenário de forte constrangimento externo e interno. Também é fato que os governos Lula produziram mudanças materiais substantivas na vida da população, enfrentando problemas historicamente estruturais e de enorme gravidade, como a fome, a miséria absoluta e a ausência de acesso a direitos mínimos de cidadania — saúde, educação, moradia e renda, entre outros.

Entretanto, para muitos analistas, esse conjunto de políticas estruturou-se como um arranjo de inclusão social mediado pelo mercado, associado à elevação da renda dos segmentos mais pobres, à expansão do consumo de massas e à ampliação do acesso a políticas públicas.

Houve, de fato, redução significativa da pobreza, melhora nos indicadores de emprego e renda e maior acesso a bens e serviços essenciais. Para milhões de brasileiros, esse processo representou a primeira experiência concreta de integração a um patamar mínimo de cidadania social.

O problema é que esse caminho pode conduzir a um beco sem saída se não vier acompanhado de transformações estruturais. Entre elas, destacam-se a reindustrialização da economia; a superação da armadilha dos juros elevados, que inibe o investimento produtivo e redireciona recursos públicos e privados para a lógica rentista; a revisão da estrutura tributária, ainda marcada por forte regressividade; e a realização de uma reforma política capaz de ampliar a representatividade e a capacidade de decisão do Estado.

Transformações combatidas por aqueles que se mostram contrários a uma alteração dos rumos até aqui trilhados. Esses segmentos naturalizam a perspectiva neoliberal e mobilizam cotidianamente a opinião pública em favor de suas teses e, em consequência, contra o governo Lula que se vê sob forte cerco, sem orçamento para fazer frente às exigências de investimentos capazes de direcionar a dinâmica econômica para o setor produtivo e a geração de empregos de qualidade.

Estamos diante de um paradoxo: a insatisfação atual não se mostra apesar dos avanços, mas, em parte, em função dos limites do próprio modelo que os viabilizou. Avanços percebidos como insuficientes diante das expectativas geradas tendem a produzir frustração, alimentando um sentimento difuso de estagnação e de ausência de perspectivas mais amplas de progresso social.

Vejamos, por exemplo, o aumento do endividamento das famílias, decorrente de políticas que ampliaram o acesso ao crédito, mas também introduziram novas formas de vulnerabilidade. Como indicam diversas análises, entre elas a de Lacerda aqui mencionada, estamos diante de múltiplas camadas de frustração que se sobrepõem e se reforçam mutuamente.

Em consonância com esse enfoque o Estado é percebido como obstáculo — distante, violento, corrupto, seletivo ou desigual em sua atuação. Soma-se a isso a tendência de atribuir ao governo federal, e em particular ao presidente da República, a responsabilidade por falhas que decorrem de dinâmicas mais complexas, envolvendo diferentes entes federados e esferas de poder.

A questão da segurança pública, sobretudo nas periferias, reforça a sensação de abandono e de ausência estatal, agravada pela crescente penetração do crime organizado nas dinâmicas territoriais e por sua permeabilidade a segmentos das próprias instituições.

Esse fenômeno, particularmente agudo no Rio de Janeiro, já assume caráter nacional. Forma-se, então, um caldo de cultura marcado por frustração, ressentimento e perda de referências coletivas, capaz de alimentar processos de regressão democrática e de produzir um preocupante retrocesso civilizatório.

Ao mesmo tempo em que a prática política passa a ser ocupada por performances de baixa qualidade, frequentemente orientadas a desviar a atenção da sociedade do debate fundamental: que país queremos construir?

Nesse ambiente, pautas como costumes, corrupção e segurança ganham centralidade, frequentemente operando como manobras diversionistas.

Em meio à lógica da “lacração” e à circulação fragmentada de conteúdos nas redes — cortes de vídeos, simplificações e distorções —, o debate público é rebaixado, e a própria noção de verdade se enfraquece, gerando desorientação e favorecendo a adesão emocional a propostas que funcionam como válvulas de escape da insatisfação, mas carecem de efetiva capacidade de resolução.

Como elemento decisivo nesse processo, destaca-se o uso indevido e deliberado de ferramentas de inteligência artificial e de algoritmos de recomendação, mobilizados para amplificar a desinformação, segmentar audiências e induzir comportamentos coletivos.

Integrados ao funcionamento das plataformas digitais e operados com elevada sofisticação técnica, esses mecanismos assumem papel central na condução das massas, potencializando a manipulação da opinião pública, aprofundando a fragmentação do espaço público e favorecendo a formação de consensos frágeis.

Nesse contexto, estratégias de mobilização baseadas na exploração do medo, do ressentimento e da indignação difusa tendem a ganhar tração, sendo frequentemente canalizadas para projetos de natureza autoritária — como o neofascismo — ou para arranjos políticos que se alimentam da instabilidade social e da erosão das referências coletivas.

Esse quadro interno articula-se a um mal-estar global profundo, marcado pela ausência de perspectivas de futuro, pela normalização do uso da força nas relações internacionais, pelo agravamento das crises climáticas, pela intensificação de conflitos armados, pela intensificação de movimento migratórios em massa e pela recorrência de emergências sanitárias. Não se trata de uma sucessão de crises isoladas, mas da expressão de uma ordem internacional em desagregação, incapaz de oferecer estabilidade, segurança ou um horizonte civilizatório consistente.

Nesse cenário, desigualdade, degradação ambiental, precarização da vida e fragilidade institucional se reforçam mutuamente, expondo os limites de um modelo incapaz de sustentar a vida em bases justas e estáveis.

A possibilidade de novas pandemias torna-se concreta e cresce o risco de “tempestades perfeitas” sob a forma de sindemias, nas quais crises sanitárias, sociais, econômicas e ambientais se combinam de maneira explosiva, ampliando desigualdades e tensionando ao limite a capacidade de resposta dos Estados e das sociedades.

Enfrentar esse quadro exige mais do que a denúncia de seus mecanismos: requer a reconstrução ativa de referências coletivas ancoradas na solidariedade, no bem comum e na valorização da esfera pública, capazes de reorientar o debate, fortalecer vínculos sociais e sustentar um projeto democrático que devolva sentido à política e perspectiva ao futuro.

À luz de experiências recentes associadas a Javier Milei e Donald Trump, uma eventual vitória da extrema direita tende a aprofundar instabilidades econômicas e institucionais. Em tais cenários, a desestruturação das capacidades estatais abre espaço para a expansão de segmentos já poderosos — como o setor rentista e o crime organizado —, intensificando a exploração e agravando desigualdades historicamente enraizadas. Uma situação que condena amplos setores da sociedade à miséria por gerações

Nesse contexto, chama atenção a necessidade de galvanizar a classe média, os setores produtivos e os segmentos mais pobres em torno de um projeto comum, capaz de sustentar uma economia redistributiva, dinamizar o mercado interno e responder às expectativas de mobilidade e segurança social por meio da melhoria concreta das condições de vida.

Cabe alertar que as conquistas até aqui alcançadas, além de não estarem plenamente asseguradas, podem, em determinadas circunstâncias, ser mobilizadas contra a própria democracia e contra o papel do Estado como indutor do processo civilizatório e defensor da soberania. Parte relevante dos empregos gerados é de baixa remuneração, e uma parcela significativa dos jovens, mesmo com maior acesso à educação, encontra-se inserida em ocupações precárias.

Esse quadro produz uma frustração específica: já não se trata apenas de garantir a sobrevivência, mas de não conseguir alcançar um lugar social percebido como digno e estável.

As expectativas foram elevadas a um patamar que o modelo atual não consegue atender, dadas as suas limitações estruturais. A economia brasileira segue marcada por uma inserção dependente, com perda de peso da indústria e crescente centralidade do agronegócio, sem que tenha ocorrido uma transformação produtiva capaz de sustentar um ciclo mais vigoroso de desenvolvimento.

O resultado é a consolidação de uma percepção difusa de que houve melhora, mas não mudança de fundo — uma sensação que alimenta frustração, insegurança e abre espaço para disputas políticas regressivas.

É possível virar esse jogo?

Evidentemente, há limites concretos à ação do governo. O mercado financeiro impõe restrições, o Congresso condiciona iniciativas mais ousadas e a própria coalizão política exige moderação.

Como observa Marina Basso Lacerda, Lula pode, em um momento, formular um diagnóstico crítico do modelo econômico e, no seguinte, defender setores que integram esse mesmo arranjo. Não se trata, necessariamente, de incoerência pessoal, mas da expressão dos limites reais de governabilidade.

Isso, no entanto, não implica que o conjunto de instrumentos disponíveis aos setores progressistas esteja esgotado.

Ao contrário, indica a necessidade de explorar, de forma mais estratégica e consistente, as margens de ação existentes, bem como de construir novas condições políticas e institucionais capazes de ampliá-las.

Entre estas, destacam-se a capacidade de pautar o debate público por meio de pronunciamentos mais frequentes à nação por parte do Presidente, assim como a necessidade de revitalizar as formas de mobilização social, superando formatos reiterativos e pouco mobilizadores que, muitas vezes, limitam o alcance e a eficácia das manifestações dos setores à esquerda.

O papel da saúde

Muitos já afirmaram que a saúde, longe de constituir mero gasto, deve ser compreendida como investimento — uma perspectiva que a posiciona como potencial alavanca para a reindustrialização e o fortalecimento do mercado interno, especialmente quando se considera o papel do Complexo Econômico e Industrial da saúde na dinamização produtiva e na geração de emprego e renda.

Ainda assim, esse enquadramento é insuficiente se não estiver articulado a um conjunto mais amplo de iniciativas de maior envergadura, capazes de enfrentar os constrangimentos estruturais ao desenvolvimento e sustentar, de forma duradoura, um projeto orientado pela redução das desigualdades, pela soberania e pela centralidade da vida.

Não obstante a sua importante contribuição para a retomada de uma economia industrializada e a serviço das relevantes demandas do país, contribuição da saúde deve incidir tanto na resposta a demandas inadiáveis quanto na construção de um referencial simbólico capaz de orientar o projeto de sociedade que se pretende afirmar.

A pandemia de Covid-19 evidenciou a fragilidade de economias excludentes e desencadeou reflexões mais profundas sobre o sentido da vida e as prioridades coletivas, inclusive com sinais de inflexão cultural no pós-isolamento, quando o consumo deixou de ocupar, de forma exclusiva, o lugar de horizonte de felicidade e de expectativa de futuro.

Nesse sentido, a saúde — entendida como bem-estar, segurança frente ao risco de abandono e possibilidade de uma vida digna — deve ser colocada no centro de qualquer projeto de país minimamente civilizado.

Mais do que um importante vetor econômico, constitui um imperativo ético e um parâmetro fundamental para aferir o grau de civilização que uma sociedade é capaz de alcançar e sustentar ao longo do tempo.

Na área da saúde, iniciativas como a da Frente Pela Vida — que congrega diversas entidades e movimentos sociais, como o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), a Rede Unida, a Sociedade Brasileira de Bioética (SBB) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entre outros — constituem um exemplo relevante de engajamento e de disposição para aprofundar o debate sobre que país queremos e merecemos.

Revisitando a ideia de construção de um pacto intergeracional positivo e sustentável, as ponderações do jovem militante de esquerda revelam-se não apenas pertinentes, mas particularmente atuais: trata-se de decidir entre a continuidade de um modelo — ainda que aperfeiçoado — e a promoção de uma inflexão mais substantiva de rumos, capaz de reorientar, de forma estrutural, o horizonte de desenvolvimento e as bases do projeto de sociedade.

O futuro, nesse sentido, não pode ser concebido como simples prolongamento inercial do presente, mas como uma arena de disputa, na qual projetos distintos buscam definir as regras do jogo e o modelo de sociedade a ser construído. Ao contrário de estratégias falaciosas que procuram obscurecer o debate público por meio da desinformação e da manipulação, é essa disputa substantiva que está efetivamente em jogo.

As transformações necessárias, portanto, não se esgotam na eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, ainda que esta se apresente como condição incontornável para sua viabilização. Trata-se de um processo mais amplo, que envolve a redefinição de prioridades, formação de consensos coletivos, a reconstrução de capacidades estatais e a afirmação de um projeto de país orientado pela justiça social, pela democracia e pela centralidade da vida.

É fundamental evitar que o Brasil reproduza, em escala nacional, processos de degradação institucional, fragmentação territorial e captura de funções públicas por interesses ilegais, como aqueles observados há décadas no Rio de Janeiro. Mais do que isso, é preciso criar condições para que as novas gerações voltem a projetar o futuro com esperança, valorizando a coletividade e o bem comum como fundamentos de uma sociedade solidária, democrática, sustentável e soberana.

É nesse ponto que a inquietação do jovem militante de esquerda, apresentada no início deste texto, adquire pleno sentido: sua crítica não se limitava ao desenho de uma política econômica específica, mas expressava a recusa em aceitar que o horizonte do possível seja permanentemente rebaixado pelas condições herdadas.

Ao tensionar os limites do presente, ele nos lembra que a política, quando orientada por um projeto transformador, não pode se contentar em administrar restrições — deve, antes, buscar superá-las, recolocando em disputa o próprio futuro.

* Carlos Fidelis é historiador, pesquisador da Fiocruz, militante da Reforma Sanitária e presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes)

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