“quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira”, joão 8:44
Por Lelê Teles*
numa certa manhã de segunda-feira, eu vi jesus.
e ele não me apareceu trepando numa goiabeira e nem se equilibrando sobre uma nuvem branca no céu, jesus tava na tevê.
ah, como isso mexeu comigo, cara!
é que desde os nove anos de idade, eu andava encucado com a ideia de deus.
aquilo não me entrava direito na cabeça: o cara era bom e, ao mesmo tempo, era malvado.
ele era todo poderoso, mas o diabo andava por aí, livre, leve e solto, tentando os outros e fazendo diabruras.
enfim, era um sujeito muito paradoxal pro meu gosto infantil.
no entanto, mesmo não aceitando o deus do livro, ateu eu sabia que eu também não era.
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descobri isso lendo o livro olhai os lírios do campo, do érico veríssimo.
eugênio, coitado, foi aterrorizado com a ideia de que deus lançou um raio para matar o seu vizinho, o velho galvão.
a partir daí, eugênio passou a compreender que deus também era culpado por tê-lo feito nascer na miséria e tinha culpa pela morte e pela vida de todos os miseráveis da terra.
aprendi com eugênio a ter medo de deus, dos seus castigos sempre violentos e impiedosos.
com eugênio eu também aprendi a odiá-lo, por sua indiferença contra a pobreza.
mas mesmo assim, eu ainda gostava do filho.
jesus me parecia um cara legal.
ele dava conselhos, ajudava as pessoas, curava enfermos, retificava a visão de uns, fazia um entrevado correr, trazia mortos à vida, era amigo das mulheres, gostava das crianças…
aprendi a odiar o pai e a amar o filho.
mamãe, por sua vez, acreditava em tudo: ela andava metida em casas de cartomantes, conversava com feiticeiras, frequentava terreiros e incorporava santo, se consultava com um espírita, falava com mortos e foi membra ativa do vale do amanhecer, onde conheceu a tia neiva.
então, eu aprendi com minha mãe que deus não foi a única criatura criada para criar o mundo.
havia por aí outros deuses, outras deusas e outras formas de enxergar a vida.
porém, mesmo sabendo da minha cisma, papai teimou em me matricular no catecismo.
de lá fui expulso aos onze anos.
eu debatia e discutia tudo, mas lembro que a gota d’água, que me levou à expulsão, foi quando eu reclamei do professor de catequese que desenhou deus e lúcifer no quadro negro para explicar o episódio que levou à expulsão de querubim.
“quem é esse jovem com asas?”, e o professor me respondeu “segundo ezequiel, esse é lúcifer.”
ok, então fui ao outro personagem: “e esse velho?”, a turma riu, ruborizada, o professor me respondeu ainda mais sério: “esse aqui é deus”.
não me satisfiz: “oxi, é deus é assim como o vovô?”
a turma caiu na gargalhada e o professor ficou furioso, achando que eu gracejava de deus.
mas a minha dúvida era genuína, não fazia sentido deus ter envelhecido e o anjo continuado jovem.
além do mais, eu imaginava deus como meu pai, um cara forte, de voz grave e firme, e não um velhinho encurvado feito um papai noel de shopping.
tudo mudou quando eu assistia ao programa de maior audiência da tv brasília, o brasília urgente.
o jornalista raplh siqueira anunciou que a próxima atração seria ninguém menos que jesus cristo.
de repente, o filho do homem se fez presente, frente às câmeras, aos vivos e como manda o figurino: o filho de deus trajava um vestidão de algodão cru, com uma faixa atravessa no ombro.
arrepiei-me, como se estivesse vendo um fantasma.
o cara era a cara do cara: tinha o mesmo cabelão loiro, o mesmo rosto oblongo com mandíbulas suaves e simétricas, a mesma estrutura física esquálida e, para espantar qualquer outra dúvida, ele tinha um sotaque maravilhoso que denunciava que ele realmente não era desse mundo, aquele sujeito era das estranjas.
lembrei-me de uma música do padre zezinho – “um belo dia, à beira mar, apareceu um jovem galileu” -, e fui às lágrimas.
é que mamãe tinha um calendário pregado na porta da geladeira em que a folhinha correspondente a cada mês trazia um pensamento, um poema ou um aforismo atribuído a alziro zarur, o fundador do magnífico templo da boa vontade, em brasília.
e a folhinha daquele mês dizia: “alziro zarur confirma, jesus pode voltar a qualquer momento.”
ele voltou, eu pensei comigo. será que fará algum milagre? será que acabará com a pobreza com um simples gesto de mão?
e então, jesus começou a falar e disse, entre outras, que havia voltado para julgar os homens, salvar os probos e lançar os pecadores nas chamas ardentes do inferno.
parecia mesmo o filho de deus.
papai, apesar de ser católico e carola, não se comoveu e nem se convenceu, disse que aquilo era uma fraude, que jesus morrera com trinta e três anos e aquele sujeito aparentava uns quarenta a tantos.
“e jesus”, observou meu pai de forma sapiencial, “não teria sotaque algum, dominaria qualquer idioma como um nativo: no brasil, falaria como um brasileiro, e pronunciaria o português de portugal sem menores problemas uma vez estando em solo lusitano.”
aquilo fez sentido pra mim, tanto o envelhecimento do personagem quanto a trava linguística.
e o meu pai tinha razão.
constatou-se, mais tarde, que o desalmado era realmente um personagem que performava um jesus de roliúde.
hoje, aquele jesus da minha infância continua vivo e mora no gama, a minha cidade.
veja você.
e atende pela alcunha de inri cristo.
porém, como envelheceu, agora ele está mais parecido com o robert plant, do led zepellin.
acho que inri deveria cantar.
afinal, o rock salva.
palavra da salvação.
*Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
Publicação de: Viomundo
