José do Vale: O Guaíba não é o culpado pelas enchentes, ele é apenas a enxurrada da distopia capitalista

Por José do Vale Pinheiro Feitosa* 

O Guaíba, na prática, é um lago cuja bacia hidrográfica abrange 251 municípios do Rio Grande do Sul e 1/3 da área do estado.

Um mar de água doce.

Nos últimos dias, porém, desalojou mais de 1 milhão de pessoas no Estado, destruiu infraestrutura essencial e gerou desabastecimento amplo e desequilíbrio social e econômico.

Um grande desastre. Pela sua magnitude, além de alertar o Brasil, radicaliza a visão mundial de que a civilização ocidental técnico-científica está em grande crise terminal.

É muito simbólico ler no noticiário o senador-general Hamilton Mourão perdido no novelo de impotência política frente ao desastre do Estado que ele representa.

Mourão, vale relembrar, representa uma visão política que desconsiderou o desmatamento da Amazônia, adotou o terraplanismo e negou a covid-19 tão logo o governo do qual era vice-presidente se deparou com a pandemia.

Aliás, na mesma semana em que o Guaíba encheu, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que estava no Amazonas, teve que ser transportado num CTI aéreo por causa de uma erisipela.

Não se trata de algo fantasmagórico nem de vingança ontológica. Mas não deixa de ser curioso o fato de isso acontecer no mesmo estado em que o governo Bolsonaro deixou faltar oxigênio na pandemia e debochou publicamente da falta de ar dos doentes com covid-19.

O volume do desastre no RS é da ordem que tais figuras não são capazes de formulá-lo.

Assim como são incapazes de formular os grandes dramas da humanidade, como o o ataque de Israel a Rafah ou as demonstrações de armas atômicas da Rússia em fase de guerra crescente com a OTAN.

A enxurrada vinda das serras gaúchas, que tão bem o jornalista Moisés Mendes traçou como a idiotia vazia das mansões dos super ricos, resulta das intervenções no relevo, afetando a homeostasia dos sistemas de florestas e terra.

Só que não podemos cair no outro lado da fantasia bolsonarista, empunhando bandeiras dos desastres ecológicos, porque “a queda da biodiversidade é verdade e certamente, a pior das nossas preocupações. Mas, eu me recuso a ver isso como causa, porque a queda da vida não é uma das origens do problema, é o problema como tal’’, expõe o filósofo e astrofísico francês Aurélien Barrau.

A bandeira necessária passa pela revolução do próprio sistema civilizacional ou capitalista, ampliando as contradições com as corporações financeiras, os tink tank, as big-techs, a big-farm, o complexo industrial e militar e diversas instituições obsoletas a serviço do lucro.

Na visão do próprio Aurélien Barrau, a filosofia, as ciências e as soluções tecnológicas são parte do problema e não da solução.

O problema em ampla medida é a chamada reificação (coisificação) da vida atual, em especial a partir dos grandes instrumentos controlados totalitariamente pelas novas tecnologias e sistemas financeiros.

Retornando aos bombardeios de Rafah, tema degenerado em si, mas acompanhado de várias práticas do capitalismo mundial.

Uma delas é o tráfico de seres humanos para transplante de órgãos, entre outras finalidades.

Em valas comuns de mortos pelo ataque israelense no território palestino, os corpos estavam violados para a retirada de órgãos.

Segundo a Câmara dos Deputados do Brasil , o tráfico de humanos para transplante é um dos negócios mais lucrativos do mundo, gerando um volume de negócios da ordem 13 bilhões de dólares ao ano.

Das crianças traficadas para os países centrais, estima-se que 40% destinam-se a usos sexuais e os 60% restantes, para transplantes e experimentos.

É a coisificação do ser humano transformado em mercadoria de um negócio lucrativo, pois ampliará o número de transplantes realizados, já que os notificados representariam apenas 10% das necessidades globais.

Segundo o relatório do Global Observatory on Donation e Transplantion – GODT, em 2021 foram transplantados 144.302 órgãos sólidos (rins, fígado, coração, pulmão, pâncreas, intestino).

Importante: 2/3 desses transplantes foram de órgãos de pessoas vivas. E o principal tipo dos transplantes em vivos é o chamado III (91%), quando se planeja a suspensão da terapia de manutenção da vida com uma parada cardíaca esperada para, em seguida, realizar o transplante do órgão.

É a ampla mercantilização da medicina, sendo a ética apenas uma fachada atrás da qual as transações (inclusive de procedimentos desnecessários) podem ocorrer.

São conhecidas as manobras lucrativas das grandes empresas farmacêuticas, simulando inovações ou inovando e explorando inúmeras vezes o produto além dos custos de fabricação. Tudo para remuneração em bolsa.

Até mesmo a morte programada, a chamada eutanásia anda em vertigem lucrativa, com nomes famosos como o do ator Alain Delon e o do cineasta Jean-Luc Godard servindo de “marketing” para o procedimento.

Há evidências de que o preço da droga secobarbital, usada na eutanásia, subiu de 200 dólares, em 2019, para três mil dólares, atualmente. Ou seja, 15 vezes.

As águas do Guaíba baixarão, os gaúchos com a solidariedade de todo o país vão recuperar suas condições de vida e, possivelmente, não mudarão as causas do desastre que os inundou.

Porém,  já há um grau na consciência na população de que a empulhação da extrema direita não é a solução e que os fatores da crise da civilização precisam ser combatidos.

*José do Vale Pinheiro Feitosa é médico sanitarista.

*Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

Publicação de: Viomundo

Lunes Senes

Colaborador Convidado

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