Flávio Bolsonaro invoca Bukele e esbarra no pai preso

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) defendeu nesta segunda-feira (8), em São Paulo, uma política de segurança inspirada em Nayib Bukele, presidente de El Salvador, com endurecimento penal e construção de novos presídios. A fala tenta deslocar a pré-campanha para o medo urbano, mas abre uma contradição incômoda: cadeia dura para o país, tratamento jurídico especial quando o preso é da família Bolsonaro.

A declaração foi dada no evento Brasil de Ideias Mulher, promovido pelo Grupo Voto. Flávio Bolsonaro afirmou que o Brasil precisa tratar criminosos violentos com “legislação mais dura” e disse ser necessário “construir, sim, mais presídios”.

A agenda conversa com uma dor real do eleitor. Roubo de celular, assalto no transporte público, facções, comércio acuado e periferia abandonada pelo Estado não são abstrações de campanha. O problema começa quando a solução vira bordão importado, sem número, orçamento, prazo, controle judicial e responsabilidade federativa.

O modelo Bukele reduziu homicídios em El Salvador, segundo dados oficiais citados por organismos internacionais, mas veio acompanhado de estado de exceção, prisões em massa, denúncias de detenções arbitrárias e mortes sob custódia. Human Rights Watch e Anistia Internacional apontam violações graves de direitos no país governado por Bukele.

Flávio Bolsonaro vende a parte eleitoralmente mais fácil do pacote, a imagem de força contra o crime. O que ainda não apareceu na fala publicada é a planilha pública: quantos presídios seriam construídos, em quais estados, com qual dinheiro, sob qual regra de fiscalização e com qual política para impedir que facções comandem cadeias por dentro.

A conta brasileira já existe como alerta. A Secretaria Nacional de Políticas Penais calculou em 2025 que zerar o déficit de 202 mil vagas no sistema prisional exigiria R$ 14 bilhões em obras. Esse valor cobre construção, não resolve sozinho custeio, agentes, saúde, inteligência, audiências, tornozeleiras, defensoria e reinserção.

No Paraná, a discussão atinge diretamente policiais penais, Polícia Civil, Polícia Militar, Ministério Público, Judiciário, prefeituras e famílias que vivem perto de presídios ou delegacias superlotadas. Uma política nacional de encarceramento sem custeio permanente empurra a conta para os estados e amplia a pressão sobre servidores.

O próprio Paraná já mostrou que vaga prisional custa dinheiro público pesado. Em 2022, o governo estadual anunciou plano para ampliar a capacidade carcerária em 7.435 detentos, com investimento previsto de R$ 261,2 milhões em recursos estaduais e federais. Segurança pública não cabe em slogan de palanque.

A contradição política fica maior porque Jair Bolsonaro (PL), pai de Flávio Bolsonaro, foi condenado pelo STF a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes ligados à trama golpista. A defesa do ex-presidente apresentou revisão criminal para tentar anular a condenação.

Flávio Bolsonaro também passou a integrar formalmente a defesa do pai. O mesmo pré-candidato que promete endurecer a lei para criminosos comuns atua no campo jurídico para aliviar a situação penal do chefe político da família. A diferença de régua é o ponto que seus aliados terão dificuldade de explicar na rua.

A pauta chega ao Paraná pela porta da aliança bolsonarista. O senador Sergio Moro (PL), o ex-deputado Deltan Dallagnol (Novo) e o deputado federal Filipe Barros (PL) terão de dizer se apoiam um programa de presídios em massa, quanto custaria ao estado e se aceitariam o mesmo rigor penal quando o condenado é Jair Bolsonaro.

O caso Banco Master também acompanha Flávio Bolsonaro nessa tentativa de reposicionar a campanha. O Intercept Brasil publicou mensagens e áudio sobre negociação de patrocínio milionário com Daniel Vorcaro para o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. Flávio admitiu ter buscado patrocínio privado e negou contrapartida.

O Blog do Esmael já mostrou que Vorcaro colocou o filme no pacote de sua proposta de delação, segundo registro, ainda sem aceite da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República. Até que investigadores validem ou rejeitem a colaboração, o fato político é que o tema mantém Flávio Bolsonaro no centro de uma crise que mistura banco, campanha e família.

O presidente Lula (PT) também elevou o custo político do senador ao associar o tarifaço dos Estados Unidos a articulações de Flávio Bolsonaro e chamá-lo de “traidor da pátria”. Flávio Bolsonaro nega a acusação e afirma ter pedido ao governo Donald Trump para não aplicar tarifas contra produtos brasileiros.

Segurança pública exige polícia equipada, investigação financeira contra facções, controle de armas, inteligência nas fronteiras, presídios fiscalizados e orçamento transparente. Flávio Bolsonaro escolheu Bukele como vitrine para 2026, mas ainda deve ao eleitor a parte que decide se uma promessa vira política pública ou apenas propaganda de medo.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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