Marcelo Zero: Crescimento do partido de extrema direita AfD vincula-se, por vias transversas, ao apoio que o governo alemão dá a um regime com tintas nazistas na Ucrânia

Por Marcelo Zero*

A vitória do partido AfD (Alternativa para a Alemanha), um partido neonazista, de extrema direita, nas eleições regionais na Saxônia-Anhalt chocou o mundo.

Para se ter ideia do extremismo nazistóide desse partido, a francesa Marine Le Pen rompeu suas relações com tal agremiação política, depois que um dos seus membros declarou que nem todos os membros da SS podiam ser considerados criminosos.

Mas a vitória regional desse partido não deveria surpreender. Ela é fruto direto da crise econômica na Alemanha, ocasionada, em boa parte, pelo apoio à guerra na Ucrânia e ao consequente aumento dos custos de energia.

Embora a economia alemã venha enfrentando dificuldades há anos, o corte na importação do gás barato russo e a expansão dos gastos com defesa (somente a ajuda para a Ucrânia é de 11,6 bilhões de euros anuais) tornaram tudo mais difícil.

Saliente-se que o governo de Berlim projeta que a Alemanha alcance, até 2029, a meta da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de destinar 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) à defesa.

Apesar de a indústria de defesa da Alemanha estar em relativa expansão, o resto da indústria está em crise. Ademais, boa parte do esforço bélico alemão vai para importações dos EUA. Entre 2020 e 2024, a participação dos EUA nas importações de armas da Alemanha saltou de menos de 10% para cerca de 70%. Esse crescimento foi impulsionado pelo fundo especial de defesa de €100 bilhões, criado por causa do conflito na Ucrânia.

Recentemente, a Alemanha encomendou 35 caças F-35 dos EUA. Cada jato desses custa entre US$ 100 milhões e US$ 120 milhões. A Alemanha também está comprando muitos mísseis Patriot dos EUA.

A recuperação econômica inicialmente prevista para este ano provavelmente resultará apenas em um crescimento fraco (menos de 1% do PIB).

Isso está em linha com as notícias de empresas que estão cortando postos de trabalho.

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A Volkswagen afirma que até 100 mil empregos podem desaparecer nos próximos anos. A fornecedora automotiva ZF pretende eliminar 14 mil vagas até 2028. Já a Bosch deverá cortar mais de 20 mil postos somente na Alemanha até 2030.

Depois de mais de 100 mil empregos industriais perdidos no ano passado, outros 100 mil postos deverão ser eliminados na indústria em 2026, tanto entre montadoras quanto nos setores de engenharia mecânica e construção civil, segundo um estudo da consultoria Horváth.

Além disso, a pressão de Washington para que a Alemanha aumente seus gastos em defesa, tem contraído as despesas em outras áreas e impedido um maior equilíbrio fiscal.

De fato, o governo da Alemanha concentra seus principais cortes de gastos em áreas como o fundo climático, o sistema de pensões (previdência), a saúde e o financiamento internacional, áreas socialmente sensíveis que provocam forte insatisfação.

O ministro das Finanças, Lars Klingbeil, afirmou: “Não podemos defender a Alemanha contra Putin com déficit zero.”

Se a situação perdurar, partidos de extrema direita deverão continuar a crescer e poderão, eventualmente, ganhar as próximas eleições nacionais, liderados pelo AfD.

Observe-se que o “firewall” contra alianças com partidos de extrema direita para defender a democracia é apenas um acordo político, o qual poderá esboroar-se junto com a própria democracia alemã e mesmo com o próprio projeto da União Europeia.

O AfD, com razão, cresce muito entre os jovens desempregados e desiludidos quanto ao futuro.

Há cinco anos, a principal preocupação dos jovens eleitores alemães era o combate às mudanças climáticas. Em 2024, essa questão perdeu importância. De acordo com um estudo recente da Fundação Bertelsmann, a principal preocupação deles é a paz na Europa. A maioria dos jovens de 16 a 25 anos apontou “garantir a paz” como a questão mais importante.

Maximilian Krah, do AfD, acertou nessa grande preocupação em cheio em um vídeo do TikTok no qual disse que:

“A guerra na Ucrânia não é a sua guerra. Zelensky não é o seu presidente”, disse ele. “Mas isso está lhe custando dinheiro e você corre o risco de a Alemanha ser arrastada para essa guerra. Nesse caso, você terá que ir lutar na frente oriental, onde os irmãos e primos do seu avô perderam a vida…”

É uma mensagem emocionalmente poderosa.

E é uma ironia que o apoio governamental da Alemanha a um governo ucraniano que emergiu das brumas ideológicas de um passado nazista e que tem como herói Stepan Bandera, um criminoso nazista da pior espécie, esteja estimulando, por vias transversas e paradoxais, o crescimento do nazismo em seu próprio país.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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Publicação de: Viomundo

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