Requião Filho (PDT) afirmou nesta terça-feira, 11 de agosto, na sabatina Folha/UOL, que pretende retomar o controle da Copel, rever o modelo das escolas cívico-militares e endurecer a fiscalização dos contratos de pedágio no Paraná. O deputado estadual também defendeu uma aliança programática com Lula (PT), criticou Sergio Moro e disse que não abrirá mão das críticas que já fez ao presidente.
Durante cerca de 50 minutos de entrevista, Requião Filho foi questionado por Fabíola Cidral, Bruno Ribeiro e Leonardo Sakamoto sobre conservadorismo, alianças partidárias, privatizações, educação, segurança pública, pedágio, agro e a influência política de seu pai, Roberto Requião.
Ao responder sobre a resistência ao seu campo político no Paraná, o deputado afirmou que pretende disputar o eleitorado conservador com propostas para diferentes setores. Ele classificou o atual Paraná apresentado pelo governo de Ratinho Junior (PSD) como um “Paraná de conto de fadas” e atribuiu ao setor de comunicação do governador parte da avaliação positiva da administração.
Requião Filho também criticou a privatização da Companhia Paranaense de Energia (Copel). Segundo ele, o Estado recebeu perto de R$ 3 bilhões com a operação, enquanto a empresa teria distribuído mais de R$ 6 bilhões aos acionistas desde a privatização.
O pedetista apresentou três possibilidades para recuperar o controle da companhia: recompra de ações, revisão judicial da operação e eventual anulação da venda caso investigações encontrem irregularidades.
Requião Filho afirmou ainda que denúncias sobre a venda da Copel foram encaminhadas ao Ministério Público Federal (MPF). Ele citou relações envolvendo BTG, ativos da companhia e pessoas que participaram da operação. As referências a possíveis irregularidades foram apresentadas pelo deputado como objeto de investigação, sem conclusão judicial apresentada na sabatina.
O candidato rejeitou a possibilidade de aumentar impostos para financiar eventual recompra da empresa. Em vez disso, defendeu uma revisão dos incentivos fiscais concedidos pelo Paraná e disse que seriam preservados aqueles que apresentem retorno em emprego, produção ou benefício social.
Na área de educação, Requião Filho afirmou que pretende encerrar o programa Parceiro da Escola e revisar contratos de gestão privada das escolas públicas. Também criticou o modelo cívico-militar adotado pelo governo estadual e disse que pretende retirar policiais das funções pedagógicas.
O deputado afirmou que escolas cívico-militares representam, na sua avaliação, uma política ideológica e não uma mudança pedagógica. Ele defendeu a manutenção de modelos efetivamente militares, como os colégios da Polícia Militar e do Exército, desde que estruturados com programa pedagógico próprio.
Na segurança pública, Requião Filho prometeu ampliar concursos, investir em inteligência e fortalecer a atuação conjunta das polícias Civil e Militar, Guardas Municipais, Polícia Rodoviária Federal (PRF), Polícia Federal (PF) e Exército nas fronteiras.
O pedetista também afirmou que pretende recuperar a remuneração dos policiais paranaenses e criticou a jornada de trabalho que, segundo ele, chega a 60 horas semanais para parte do efetivo.
Sobre o pedágio, Requião Filho classificou o novo modelo de concessões como prejudicial à economia paranaense. Ele afirmou que, se eleito, cobrará do governo federal e da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) a execução dos contratos e defenderá a suspensão dos lotes que ainda não tiverem sido leiloados ou colocados em execução.
O deputado disse que não pretende simplesmente romper contratos assinados. Segundo ele, acordos considerados legais deverão ser mantidos, mas serão fiscalizados para garantir a execução das obras e a proteção do interesse público.
A sabatina também colocou Requião Filho diante de sua relação com o Partido dos Trabalhadores (PT) e com Lula. O deputado deixou a legenda e ingressou no PDT, mas manteve o apoio ao presidente para a disputa nacional no Paraná.
Ele afirmou que as críticas feitas anteriormente a Lula continuam válidas, principalmente em relação à privatização da Copel e ao modelo de pedágio. Segundo Requião Filho, não existe contradição em apoiar Lula e manter críticas públicas ao governo federal.
“Eu me sentiria constrangido se eu não tivesse feito as críticas”, afirmou, ao responder se teria dificuldade de dividir palanque com o presidente.
O deputado também atacou Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e disse considerar a candidatura do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro uma fonte de instabilidade política. Requião Filho afirmou que prefere uma aliança baseada em programa de governo, e não em distribuição de cargos ou negociação de espaços administrativos.
Questionado sobre o escândalo envolvendo descontos indevidos em aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Requião Filho afirmou que não pretende proteger integrantes do PDT caso sejam comprovadas irregularidades. Ele também relacionou o início das mudanças que permitiram os descontos ao governo Jair Bolsonaro e citou Sergio Moro, que foi ministro da Justiça naquele período.
Na sabatina, o pedetista ainda foi questionado sobre seu tio, Maurício Requião, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR). Requião Filho disse não defender a saída do parente do cargo por causa do vínculo familiar e afirmou que o conselheiro deve ser avaliado pela atuação técnica.
No chamado “pinga-fogo”, Requião Filho se declarou favorável às câmeras nos uniformes policiais, ao voto impresso e à posse de armas. Foi contrário à redução da maioridade penal, à descriminalização do porte de maconha, às privatizações de empresas estratégicas e à ampliação da gestão privada das escolas públicas.
Sobre o aborto, respondeu que a legislação atual deve ser respeitada. Em relação à anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro, defendeu uma distinção entre participantes e organizadores. Também se posicionou contra a reeleição no formato atual.
A entrevista terminou com uma tentativa de Requião Filho de enquadrar a eleição estadual em uma disputa sobre o papel do Estado. O deputado afirmou que sua campanha pretende discutir se serviços públicos devem priorizar atendimento à população ou geração de lucro privado.
Ao falar sobre o peso do sobrenome Requião, ele reconheceu a influência do pai, Roberto Requião, e afirmou que pretende atualizar as políticas associadas aos governos anteriores. “Eu sou Requião 2.0”, resumiu, ao dizer que tem diferenças geracionais, mais paciência e um estilo mais aberto de diálogo.
A campanha, porém, parte de um cenário eleitoral adverso. Pesquisas colocam Requião Filho em segundo lugar, atrás de Sergio Moro no primeiro turno e rejeição superior à do principal adversário. A estratégia apresentada pelo pedetista na Folha/UOL passa por transformar essa posição em uma disputa programática sobre privatizações, serviços públicos, segurança, educação e custo Paraná.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
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