Trump deixa Turquia em Air Force One antigo após alerta de segurança

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixou Ancara, na Turquia, nesta quarta-feira, 8 de julho, a bordo de um Air Force One antigo, e não do novo Boeing 747 doado pelo Catar. A troca ocorreu no retorno da cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em meio à retomada das hostilidades entre Estados Unidos e Irã, e reacendeu dúvidas sobre a segurança do avião adaptado às pressas para uso presidencial.

Segundo o New York Times e a ABC News, o Serviço Secreto recomendou a mudança por cautela. As fontes ouvidas pelas publicações afirmaram que a decisão não decorreu de uma ameaça específica, mas da diferença entre os recursos de segurança do avião antigo e do jato catariano recém-adaptado.

A versão oficial de Trump foi outra. O presidente disse que a aeronave nova seguiria para a base aérea de Mildenhall, no Reino Unido, para ser vista por militares americanos. Depois, ele embarcou no avião doado pelo Catar na base britânica e seguiu para Washington.

O problema político é maior que a troca de aeronave. O novo Air Force One, um Boeing 747-800 avaliado em US$ 400 milhões e doado pelo Catar, foi apresentado por Trump como símbolo de prestígio. A Associated Press registrou que o avião recebeu acabamento luxuoso e pintura escolhida pelo presidente, com azul-marinho, vermelho e dourado, mas também informou que imagens analisadas indicam ausência de pelo menos alguns sistemas de detecção de mísseis e contramedidas presentes nos jatos antigos.

A aeronave catariana entrou em uso como solução provisória porque a Boeing ainda não entregou os novos aviões presidenciais contratados pelos Estados Unidos. A Reuters informou que os dois 747-8 produzidos para substituir a frota atual estão anos atrasados e não devem ficar prontos antes de 2028, dentro de um contrato assinado em 2018.

A troca de avião expõe uma contradição central do trumpismo no poder: a busca por espetáculo político colidiu com a lógica fria da segurança de Estado. O avião doado por uma monarquia estrangeira servia à imagem de força, luxo e poder pessoal. O recuo em Ancara mostrou que, sob risco real ou potencial, o aparato de proteção presidencial preferiu a aeronave antiga, menos vistosa e mais testada.

A tensão com o Irã pesou no ambiente da decisão. A Reuters registrou que a viagem à Turquia ocorreu enquanto as hostilidades com Teerã se intensificavam. A ABC News informou que passageiros foram orientados a manter as janelas fechadas no voo de saída e que Trump, ao ser questionado sobre o motivo, respondeu que provavelmente se tratava de um voo perigoso.

Há, portanto, quatro questões distintas. O fato confirmado é que Trump saiu da Turquia no Air Force One antigo e depois trocou para o jato catariano no Reino Unido. A informação atribuída é que o Serviço Secreto recomendou a primeira etapa no avião antigo. A justificativa pública de Trump foi a exibição do novo avião a militares. A leitura política é que o episódio ampliou o escrutínio sobre um presente estrangeiro transformado em ativo presidencial.

A crítica democrata já vinha mirando esse ponto. Parlamentares dos Estados Unidos questionaram custo, segurança e velocidade da adaptação do jato doado pelo Catar. A ABC News informou que senadores democratas cobraram transparência da Força Aérea e da empresa L3Harris sobre o projeto.

Para o Brasil, a notícia importa menos pelo folclore do avião e mais pelo sinal geopolítico. Em plena crise no Oriente Médio, o presidente dos Estados Unidos precisou ajustar a própria logística de segurança enquanto ordenava nova pressão militar contra o Irã. Quando a aeronave presidencial vira notícia, o recado é simples: a guerra saiu do discurso e entrou no protocolo de sobrevivência do poder.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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