Moro leva Fiep contra 6×1 para dentro da chapa

A PEC 221/2019 chegou ao Senado com 40 horas semanais, dois dias de descanso e salário preservado; Rosângela Moro votou contra na Câmara, a bancada do Paraná não registrou voto contrário e Sergio Moro leva para sua chapa Edson Vasconcelos, presidente licenciado da Fiep, entidade que reagiu ao avanço da proposta.

A escala 6×1 deixou de ser apenas uma pauta trabalhista e entrou no coração da pré-campanha de Sergio Moro (PL) ao governo do Paraná. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019 chegou ao Senado para reduzir a jornada a 40 horas semanais, garantir dois dias de descanso e preservar salários. Na Câmara, Rosângela Moro (PL-SP) votou contra. No Paraná, a bancada federal não registrou voto contrário no recorte nominal analisado pelo Blog do Esmael. E Moro escolheu para seu projeto estadual um nome ligado ao setor que mais reagiu à proposta: Edson Vasconcelos, presidente licenciado da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep).

O detalhe muda a temperatura da pauta. Vasconcelos foi apresentado como nome para vice na chapa de Moro ao Palácio Iguaçu após se licenciar da presidência da Fiep e se filiar ao PL. A federação, por sua vez, manifestou publicamente indignação com a aprovação da redução da jornada na Comissão Especial da Câmara dos Deputados e sustentou que a medida avançou sem diálogo adequado com o setor produtivo.

A Fiep também citou estudo feito em parceria com a Tendências Consultoria segundo o qual a redução da jornada poderia provocar queda de 1,9% no Produto Interno Bruto (PIB) em 2027 e perda de mais de 1,3 milhão de empregos. A entidade defendeu debate técnico, respeito às diferenças entre setores e prioridade à negociação coletiva.

Os defensores do fim da escala 6×1 apresentam outra conta. Nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que a jornada de 40 horas elevaria em 7,84% o custo médio do trabalho celetista, mas o impacto no custo operacional total ficaria abaixo de 1% em setores como comércio e indústria. O mesmo estudo aponta maior pressão em serviços intensivos em mão de obra, como vigilância, segurança e investigação, com impacto de 6,6%.

O Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas (Cesit/Unicamp) trabalha com outro ponto de partida. Em vez de tratar a redução da jornada como perda automática de produção, o levantamento calcula que a mudança de 44 para 36 horas poderia gerar até 4,5 milhões de novos empregos e elevar a produtividade em cerca de 4%.

O governo federal também usa números próprios para dimensionar a pauta. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e do Sebrae divulgados pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, 37,2 milhões de trabalhadores celetistas cumprem jornada de 44 horas semanais; 14,8 milhões estão na escala 6×1; e 1,4 milhão de trabalhadoras domésticas também vivem sob esse regime.

A divergência, portanto, não está apenas no número final. Está na premissa. A Fiep parte do risco de aumento de custo e perda de competitividade. Ipea e Unicamp olham para absorção setorial, produtividade, contratação e distribuição dos ganhos acumulados desde a Constituição de 1988. É nesse choque de premissas que Moro terá de se posicionar no Paraná.

Esse é o novo ponto de atrito. Moro tentará pedir voto no Paraná como candidato ao governo de um estado onde a bancada federal votou em peso pela redução da jornada. Ao mesmo tempo, leva para dentro da chapa um representante licenciado da federação industrial que se colocou contra o avanço da proposta no Congresso Nacional.

A Câmara aprovou a PEC 221/2019 em 27 de maio de 2026. O placar foi de 472 votos a favor e 22 contra no primeiro turno. No segundo turno, foram 461 votos favoráveis e 19 contrários. O texto estabelece jornada máxima de 40 horas semanais, cinco dias de trabalho, dois dias de descanso e manutenção do salário.

Rosângela Moro ficou na lista dos votos contrários. Ela exerce mandato por São Paulo, mas sua posição tem efeito político no Paraná porque atua no mesmo campo de Sergio Moro, acompanha a movimentação do marido e pertence ao mesmo partido. O voto dela virou uma fotografia útil para adversários: a família Moro apareceu contra uma proposta que teve apoio amplo na Câmara e não encontrou voto contrário no Paraná entre os presentes.

No Senado, Sergio Moro ainda não votou a matéria. A PEC chegou à Casa e segue em tramitação. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), afirmou que o texto passará pelas comissões e não será levado diretamente ao Plenário. A cobrança sobre Moro, portanto, não é sobre um voto já dado. É sobre o voto que ele poderá ter de dar.

A presença de Vasconcelos na chapa aumenta o custo político dessa escolha. Se Moro votar contra a PEC, ficará alinhado à posição de Rosângela Moro e ao discurso da Fiep. Se votar a favor, terá de explicar ao setor produtivo por que se afastou da tese defendida pela entidade que projetou efeitos negativos no PIB e no emprego. Se tentar empurrar o tema para frente, dará munição para quem diz que o Senado quer transformar transição em gaveta.

O ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, entrou no debate nesta sexta-feira (26) ao afirmar que o fim da escala 6×1 é compatível com a economia brasileira e que eventual apoio a empresas pode ser discutido entre governo e setores. A fala não retirou o eixo da proposta. Ela deslocou a discussão para a transição, o pequeno negócio e a calibragem dos impactos.

Esse ponto desmonta a falsa disputa sobre quem paga a conta. O trabalhador não pode ser condenado a mais uma década de seis dias de trabalho por semana em nome de projeções econômicas que precisam ser debatidas. O pequeno empresário também não pode ser tratado como se tivesse a mesma estrutura de uma grande rede nacional. A pergunta séria é como fazer a transição sem cortar salário, sem esmagar micro e pequenas empresas e sem esconder o ganho de produtividade acumulado desde 1988.

A Constituição de 1988 fixou a jornada máxima de 44 horas semanais. Desde então, empresas incorporaram automação, softwares de gestão, pagamento digital, logística integrada, controle eletrônico de produtividade, plataformas e inteligência artificial. A escala do trabalhador, em muitos setores, continuou presa ao desenho de seis dias de trabalho para um dia de descanso.

A Fiep tem direito de defender sua posição. O problema político para Moro é que essa posição entra na pré-campanha junto com seu nome de vice. O eleitor paranaense não verá apenas um debate abstrato sobre competitividade. Verá comerciários, vigilantes, trabalhadores de limpeza, funcionários de farmácia, mercado, shopping, bares, restaurantes, telemarketing e serviços contínuos perguntando quem está com a folga e quem está com a escala antiga.

No Paraná, essa cobrança tem base concreta. A bancada federal paranaense votou a favor do fim da escala 6×1 no painel analisado pelo Blog do Esmael. Entre os votos favoráveis aparecem deputados de partidos que disputarão 2026 em campos opostos. O apoio atravessou PL, PT, PSD, União, Podemos, PP, PSB, PSDB e PV. A ausência de voto contrário do Paraná reduziu o espaço para Moro tratar a pauta como bandeira exclusiva da esquerda.

O PL do Paraná votou a favor na Câmara. Filipe Barros (PL), Itamar Paim (PL), Sargento Fahur (PL) e Vermelho (PL) ficaram no campo favorável à redução da jornada. O PT também votou a favor, com Gleisi Hoffmann (PT), Carol Dartora (PT), Tadeu Veneri (PT), Welter (PT) e Zeca Dirceu (PT). No PSD, partido do governador Ratinho Junior, houve votos favoráveis de Beto Preto, Leandre, Luiz Nishimori e Sandro Alex.

Esse painel cria uma encruzilhada para Moro. Ele não pode dizer que a proposta é uma aventura isolada de um campo político. A Câmara aprovou o texto com maioria esmagadora. O Paraná não apareceu entre os estados com votos contrários. A mulher de Moro votou contra. O vice político escolhido por Moro vem da Fiep, entidade que criticou o avanço da redução da jornada.

A discussão também atinge os demais senadores do Paraná. Oriovisto Guimarães (PSDB) e Flávio Arns (PSB) terão de se posicionar se a PEC avançar. Mas a pressão sobre Moro é maior porque ele tenta disputar o governo estadual e porque a montagem de sua chapa aproxima seu palanque da posição empresarial contrária à redução da jornada.

A disputa real não está entre trabalhador e empresa. Está entre manter a escala 6×1 como regra de fato para milhões de pessoas ou construir uma transição que garanta descanso, salário e adaptação produtiva. Grande empresa não pode usar a dificuldade do pequeno negócio como biombo. Pequeno negócio precisa de regra, prazo, crédito e negociação coletiva. Trabalhador precisa de tempo fora do trabalho sem pagar com redução salarial.

O Senado decidirá se confirma a redução da jornada ou se transforma a tramitação em freio político. A fala de Moretti abriu uma saída institucional: discutir apoio e transição sem rasgar o núcleo da PEC. A posição da Fiep mostra o outro lado da pressão: o setor industrial quer que o impacto econômico pese mais na decisão.

No Paraná, Moro virou o ponto de convergência desse conflito. O voto de Rosângela Moro colocou a família política contra a PEC na Câmara. A escolha de Vasconcelos aproximou a chapa do discurso da Fiep. A bancada paranaense, porém, deu sinal oposto ao votar pela redução da jornada.

A escala 6×1 chegou ao Senado como tema trabalhista, mas já entrou na campanha do Paraná como teste de coerência. Moro terá de explicar se fala em nome do trabalhador que quer dois dias de descanso, da Fiep que lamentou o avanço da proposta ou de uma transição capaz de responder aos dois lados sem deixar a conta no corpo de quem trabalha seis dias por semana. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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