Chico Alves: Luciano Huck tenta disfarçar, mas é só mais um rico com preconceito contra pobres

Episódios como esse servem momentaneamente para desmascarar impostores que se fazem de amigos do povo

Por Chico Alves*, no ICL Notícias

Desde que surgiu como apresentador de TV, em 1994, Luciano Huck faz o estilo garotão simpático, parceiro da galera. Segue nesse personagem até hoje, viajando ao interior do país para distribuir prêmios e conversando com os felizardos como se entendesse o que é ser um morador de periferia.

Infelizmente, nem todos os concorrentes das gincanas criadas por Huck conseguem cumprir as provas exigidas. Quando um dos participantes — sempre alguém muito pobre e com necessidade urgente de dinheiro — não acerta a pergunta ou não realiza a tarefa exigida, o apresentador tenta se mostrar muito comovido. Nem parece que está faturando audiência em cima da pobreza alheia, faz parecer que sua real preocupação é “social”.

Esse jeitão de garotão simpático, que é mantido mesmo hoje, quando o apresentador já é um senhor de 54 anos, foi forjado desde criança. Não exatamente nos bairros populares, segundo ele próprio conta.

“Eu gosto de comunicação, eu gosto, eu me interesso pelas pessoas. Acho que sempre fui curioso. Minha mãe falou que quando eu era pequeno era aquele garoto que saltava do avião e ia conversando com o avião inteiro”, relembrou certa vez, ao podcast PodPah.

No programa dominical é diferente, não fala para quem viaja de avião, está sempre conversando com o povão.

Não apenas para apresentar as atrações globais, mas para se beneficiar da grande audiência e vender algum produto lucrativo, como o tal “Familhão”, uma espécie de carnê do Baú da Felicidade dos tempos atuais, em que usa a simpatia para arrancar uma mensalidade de assalariados em troca do sonho de ganhar uma barra de ouro.

O garotão parceiro também jogou o papo sedutor para fisgar apostadores na bet dos patrões. Huck foi principal nome no lançamento da Bet MGM, em que a Globo tem sociedade.

O dono das tardes globais de domingo não passa de dublê de apresentador e garoto-propaganda, mas desde 2018, quando cogitou se candidatar à Presidência da República e coletou algumas informações econômicas sobre o Brasil a título de plataforma eleitoral, passou também a dar pitacos sobre política e a ser ouvido por empresários tão ricos quanto ele.

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Suas opiniões sobre esses temas sempre são fora de esquadro. Foi assim quando quis discutir segurança pública a partir da experiência de ter o relógio Rolex roubado em São Paulo, quando encontrou com o general golpista Villas Boas para dizer “eu me vejo muito em você” ou ainda em 2018, quando deixou claro seu antipetismo e sinalizou voto em Jair Bolsonaro: “Eu não voto no PT, eu nunca votei no PT e eu não vou votar no PT”, disse, então.

Agora, o garotão Luciano Huck, parceiro da galera, volta à carga para despejar desinformação sobre o programa Bolsa Família, uma das iniciativas sociais mais exitosas e elogiadas por especialistas de vários países.

No sábado (23), repetiu mentiras para um público de grandes empresários que devem compartilhar das mesmas falácias e divulgá-las por aí.

Pior: deu a entender que o povão, aquele com quem ele conversa tão amigavelmente todos os domingos, se mantém no benefício à custa do “jeitinho”, ou atalhos, como ele chamou (leia mais abaixo).

Em bom português, para ele os beneficiários seriam espertalhões manejando táticas para mamar nas tetas do Estado.

À vontade com seus pares endinheirados, Huck deu vazão ao preconceito contra as classes populares que tenta recalcar na telinha da Globo para faturar milhões.

Episódios como esse servem momentaneamente para desmascarar impostores que se fazem de amigos do povo.

Mas com o tempo, como aconteceu em outras vezes, o caso vai ser esquecido e Luciano Huck continuará a ser assistido na TV como o parceiro da galera, o cara que tem preocupações sociais.

Para usar o bordão do apresentador, isso sim é loucura, loucura, loucura.

*Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro ‘Paraíso Armado’, sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho. Atualmente é editor-chefe do site ICL Notícias.

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Crítico do Bolsa Família, Luciano Huck comprou jatinho com juros subsidiados pelo BNDES

Apresentador teve financiamento de R$ 17,7 milhões do BNDES para compra de aeronave particular em 2013

Por ICL Notícias

O apresentador Luciano Huck voltou a gerar polêmica após criticar o Bolsa Família durante participação no 5º Fórum Esfera, realizado no Guarujá (SP).

Huck afirmou que o programa social “não gera estímulo” para que famílias deixem a situação de vulnerabilidade e disse que beneficiários criam “atalhos” para permanecer no auxílio, dando a entender que optam estender a remuneração concedida pelo Estado.

As declarações provocaram forte reação nas redes sociais e fizeram ressurgir um episódio envolvendo o próprio apresentador, em que ele se beneficiou de condições especiais de um órgão governamental para comprar um jatinho.

Em 2013, Huck utilizou um financiamento de R$ 17,7 milhões do BNDES para adquirir um jatinho da Embraer com juros subsidiados de 3% ao ano.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o empréstimo foi realizado por meio do programa Finame, do BNDES, tendo como beneficiária a empresa Brisair Serviços Técnicos e Aeronáuticos Ltda., da qual Huck e Angélica são sócios. O contrato previa prazo de 114 meses para pagamento.

Na época, o apresentador afirmou que a operação foi legal e dentro das regras do programa, criado para incentivar a indústria nacional. Em 2019, Huck declarou que o financiamento foi “transparente” e “pago até o fim”.

A repercussão recente ocorreu justamente pela comparação feita por críticos entre o discurso de Huck contra programas de transferência de renda e o fato de ele próprio ter recorrido a crédito público subsidiado para aquisição de uma aeronave particular.

Nas redes sociais, usuários apontaram contradição entre a crítica ao auxílio destinado à população pobre e o uso de recursos estatais em benefício privado.

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