Gleisi mira Alcolumbre como inimigo interno

A ex-ministra Gleisi Hoffmann (PT) elevou a crise com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), ao cobrar lealdade pública depois das derrotas do governo Lula na Casa e dizer que o Planalto não pode chegar à eleição com “inimigo dentro de casa”. A frase tirou a tensão do bastidor e colocou Alcolumbre no centro da ruptura entre governo e Congresso.

A fala foi dada à GloboNews nesta segunda-feira (4). Gleisi criticou Alcolumbre depois de duas derrotas pesadas: a rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) e a derrubada do veto ao Projeto de Lei da Dosimetria.

A dosimetria, em linguagem simples, é o cálculo da pena. O projeto interessa ao bolsonarismo porque pode aliviar punições de condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro.

Messias perdeu no Senado por 42 votos a 34 na quarta-feira (29). Eram necessários 41 votos para aprovar a indicação de presidente Lula (PT) ao STF. A escolha irritou Alcolumbre, que defendia outro nome para a vaga aberta com a saída de Luís Roberto Barroso.

Na quinta-feira (30), veio a segunda pancada. Na sessão do Congresso, Alcolumbre presidiu a votação do veto da dosimetria. O governo orientou voto “sim”, pela manutenção do veto, mas o Senado rejeitou por 49 votos a 24.

Gleisi leu o recado político com clareza. Segundo ela, o governo precisa marcar campo eleitoral e considerar aliados aqueles que estarão com Lula nas eleições. A frase sobre “inimigo dentro de casa” mira a contradição central da base: partidos com cargos, espaço e poder no governo operam derrotas decisivas quando o Planalto mais precisa de sustentação.

O problema não está apenas no voto. Está no comando da pauta.

Alcolumbre preside o Senado e também comanda o Congresso Nacional. Isso lhe dá poder sobre calendário, ritmo de votações e temperatura das crises. Quando a pauta anda contra o governo, a derrota não nasce só no painel eletrônico. Nasce antes, na mesa que decide o que entra em votação.

O Blog do Esmael já havia mostrado a outra ponta dessa equação. A AtlasIntel/Bloomberg apontou Alcolumbre com 81% de imagem negativa e 3% positiva. Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara, apareceu com 87% de negativa e 2% positiva. A pesquisa ouviu 5.008 pessoas entre 22 e 27 de abril de 2026, com margem de erro de 1 ponto percentual.

O dado pesa porque os dois chefes do Congresso acumulam rejeição alta nas ruas enquanto controlam pautas capazes de impor derrotas ao governo eleito. Alcolumbre, no Senado, virou o ponto mais sensível dessa engrenagem.

A pergunta feita por Gleisi chega tarde, mas chega com endereço político. Lula seguirá sustentando pontes com quem opera contra o governo em votações centrais? Ou o Planalto aceitará que a base formal virou base condicional, aquela que cobra espaço no governo e vota com a oposição quando o tema incomoda?

A crise também tem efeito eleitoral. A oposição tenta transformar Messias e dosimetria em demonstração de força contra Lula. O governo, por sua vez, precisa decidir se responde com negociação de gabinete ou com enfrentamento político aberto.

Alcolumbre saiu das duas votações maior no Congresso e menor perante a opinião pública medida pela AtlasIntel/Bloomberg. Gleisi tentou explorar exatamente essa fissura: um dirigente parlamentar com poder de travar o governo, mas sem lastro popular para vender suas manobras como vontade das ruas.

Lula ainda não rompeu com Alcolumbre. O que mudou nesta segunda-feira foi a licença pública para o PT tratar o presidente do Senado como problema político, não como parceiro obrigatório.

A crise deixou de ser ruído de bastidor. Virou disputa declarada sobre quem controla a agenda nacional: o Planalto, que precisa entregar o programa aprovado nas urnas em 2022, ou a cúpula parlamentar que usa maioria, calendário e cargos-chave para impor pedágio político em cada votação decisiva.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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