Tomás Amaral: O sequestro de Nicolás Maduro e suas implicações geopolíticas
Por Tomás Amaral*, especial para o Viomundo
Em seu primeiro mandato, Donald Trump comandou o assassinato do general iraniano, Qassem Soleimani, líder articulador do Eixo da Resistência, no dia 3 de janeiro de 2020.
Seis anos depois, em 3 de janeiro de 2026, Trump, em seu segundo mandato, comanda o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro.
Ambos as agressões se situam no contexto de declínio progressivo do império estadunidense. E, em um olhar mais profundo, em um contexto de declínio do imperialismo atlanticista ou, como nomeiam alguns analistas, especialmente os russos, o Ocidente coletivo.
É sabido historicamente que nenhum império cai sem provocar guerras, caos e sem usar todas as suas armas para tentar evitar o seu declínio.
Os impérios europeus, fortalecidos pela Primeira Revolução Industrial, entre os séculos 18 e 19, se confrontaram nas duas guerras mundiais em decorrência de sua disputa econômica e territorial.
O confronto resultou em uma nova arquitetura política mundial em que os Estados Unidos assumiram o controle sobre todos os projetos coloniais europeus fundidos em um só.
Podemos chamar esse projeto de imperialismo estadunidense – por ser o governo dos EUA o seu principal empreendedor; mas podemos chamar também de imperialismo atlanticista – pelo fato de os governos e as oligarquias europeias também terem suas cotas de interesses representadas neste projeto.
E podemos chamar também de capitalismo – pelo fato de que as oligarquias e dinastias financeiras que regem o sistema financeiro mundial serem os atores que realmente dão as cartas neste projeto, acima dos governos, que cumprem ordens.
As elites atlanticistas que são o núcleo duro e realmente regem o capitalismo mundial vêm enfrentando obstáculos na manutenção de sua ordem de maneira acelerada nos últimos anos.
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Nem a União Soviética ou o bloco socialista conformado pelo Pacto de Varsóvia, nem os governos não alinhados do terceiro mundo, as revoluções socialistas ou os movimentos de libertação nacional representaram, no século 20, um desafio tão agudo e existencial para as elites capitalistas ocidentais como a iminente supremacia econômica e tecnológica da China e a superioridade militar russa, combinada com estabilidade econômica, representam atualmente.
Já escrevemos artigos, aqui no Viomundo (veja links ao final), analisando como os ataques à Venezuela, desde o primeiro governo de Chávez, a guerra na Ucrânia, a troca de regime na Síria, as agressões ao Irã, e o genocídio na Palestina se conectam a esta Segunda Guerra Fria (para usarmos a terminologia do cientista político, Moniz Bandeira), entre o Ocidente coletivo e a construção de um mundo multipolar.
Somente em um intervalo de um ano, aproximadamente, os Estados Unidos financiaram e coordenaram, no último mês da administração Biden, junto a outros sócios, o golpe de estado na Síria que alçou terroristas jihadistas ao poder; coordenaram, junto a Israel, o ataque aéreo com bombas e mísseis ao Irã; e, agora, o sequestro de Nicolás Maduro.
Tudo isso, em um contexto em que continuam, junto à União Europeia, financiando a guerra contra a Rússia na Ucrânia; apoiando e financiando o genocídio palestino em Gaza e West Bank; e escalam as provocações à China, financiando movimentos separatistas em Taiwan, agora, envolvendo também o Japão na escalada de tensões com Beijing.
A intervenção na Síria, o ataque-surpresa não provocado ao Irã e o sequestro do presidente Nicolás Maduro ilustram graficamente a nova ordem mundial, imposta pelo imperialismo atlanticista, “baseada em regra nenhuma” (para parafrasearmos Pepe Escobar).
O imperialismo não se dá mais ao trabalho de convencer a comunidade internacional de que seus objetivos são justos ou necessários.
Como, por exemplo, quando a administração Bush-Cheney se engajou em uma longa campanha diplomática de mentiras e engano para obter a aprovação do Conselho de Segurança da ONU para bombardear o Iraque, em 2003.
Trump oferece um novo modus operandi às oligarquias atlanticistas que prescinde de justificativas legais.
Como o lobo da fábula que não precisa de desculpas elaboradas e diz ao cordeiro: “vou te comer porque eu quero”.
A guerra cognitiva
Para sequestrar Maduro, Trump primeiro o classifica como narcoterrorista, sem qualquer esforço de tentar provar suas acusações.
Paralelamente, Trump começa a defender abertamente que os Estados Unidos não deveriam pagar pelo petróleo venezuelano, uma vez que poderiam tomá-lo à força.
Mesmo após o sequestro, Trump não esconde em seu discurso que o seu objetivo é o controle do petróleo.
Em nosso entendimento, dois elementos combinados explicam essa guinada retórica e tática do imperialismo.
Um é que o desespero das oligarquias atlanticistas, diante de seu declínio progressivo, levou as potências ocidentais a abandonarem totalmente a diplomacia e apoiarem sua política no uso ostensivo da força.
E o outro é que o advento da internet, das redes sociais e da manipulação dos algoritmos pelas Big Techs permite uma intensificação da manipulação da opinião pública.
Se tem uma guerra que o imperialismo está realmente ganhando é guerra da informação.
Infelizmente, a internet, com o seu potencial informativo e sua promessa de comunicação livre, no momento em que é apropriada pelas Big Techs, com seu imbricamento com o governo dos EUA, se torna o grande catalizador da construção de uma nova engenharia social, a nível global, ainda mais reacionária.
O projeto de manipulação da opinião pública de um país ou da comunidade internacional, usando os meio de comunicação de massa e a serviço do governo dos Estados Unidos, remonta à segunda administração de Woodrow Wilson, na década de 1910, quando intelectuais, como Walter Lippmann e Edward Bernays, conceberam um modelo midiático centralizado de propaganda, com técnicas baseadas na psicanálise, para transmitir os interesse da elite às massas, de forma que estas os assimilassem acriticamente, como se fossem opiniões próprias.
Desde então, oligopólios midiáticos, como AP, AFP e Reuters, atuam manipulando sistematicamente a opinião pública global, lançando mão de interpretações enviesadas, distorções factuais e invenções, para representar os interesses das oligarquias atlanticistas.
A internet, apesar de quebrar o monopólio da informação, permitindo narrativas dissidentes, foi capturada por corporações que representam os interesses das mesmas oligarquias. E, embora tenha conservado uma certa liberdade na circulação de informações, os seus reguladores desenvolveram mecanismos de manipular essa circulação, promovendo certo tipo de conteúdos em detrimento de outros.
A promoção de conteúdos na internet se dá de duas formas: pela vinculação comercial, também chamada monetização, e pelo viés ideológico que é programado, de forma invisível, no modo dos algoritmos operarem.
A monetização também é uma ferramenta para fazer com que o promotor de conteúdos se enquadre e seja moldado pelo status quo dominante nas redes.
Como resultado, a engenharia social engendrada pelas Big Techs tem produzido uma opinião pública, em todo o mundo, ao mesmo tempo, mais ignorante e mais reacionária.
O espectro de opiniões é moldado pelas redes sociais de modo a conformar bolhas ideológicas onde os grupos sociais se inserem. O debate científico, em busca da verdade, dá lugar à guerra de narrativas da pós-verdade.
As Big Techs se apropriaram da falsa ciência dos pós-estruturalistas franceses, como Deleuze, Lacan e outros, para engendrar esferas públicas fragmentadas (ou bolhas ideológicas) que vão constituir uma espécie de tecnofeudalismo, para usarmos a terminologia de alguns analistas.
Cada bolha é um feudo. E cada feudo possui o seu próprio dogma religioso.
Diferentemente da Igreja Católica medieval, o capitalismo fabrica uma pluralidade de teologias para cobrir todo o espectro ideológico. A única heresia é se contrapor aos interesses dos Estados Unidos, do sionismo e do grande capital.
Nesse ambiente, o imperialismo explora a guerra de narrativas e de cognição.
Após a notícia do sequestro de Maduro, uma massa conservadora (formada ideologicamente pelas próprias bolhas da internet), em diferentes países, aprova e comemora o feito sem que a legalidade ou a moralidade do mesmo seja sequer discutida.
A nova fase do imperialismo, baseada na força e que prescinde de legalidade e da diplomacia, encontra o respaldo em parte significativa da opinião pública mundial, que ele próprio fomenta através das redes sociais.
Não importa que uma parte, ou mesmo a metade, de um país reprove uma determinada ação do governo dos Estados Unidos. Se a outra metade respaldar os seus crimes, eles os imporão pelas armas.
A guerra cognitiva desempenha papel central na nova agenda do imperialismo.
No caso da Venezuela, além do conservadorismo promovido nas redes sociais desinformando o público a seu respeito, temos mais de 25 anos de desinformação sistemática e demonização de seus líderes promovidas pela mídia ocidental.
Encontramos, por exemplo, em órgãos da imprensa brasileira, como Veja e Folha de S. Paulo, desde 2013, o ano da primeira eleição de Nicolás Maduro, manchetes e matérias que se referem a ele como “ditador”.
A Folha de S. Paulo, nos últimos anos, se referiu ao presidente venezuelano como ditador praticamente na totalidade de suas matérias. Podemos imaginar que deveria ser proibido, dentro da redação da Folha, referir-se a Nicolás Maduro sem acrescentar a palavra “ditador”.
Como pode um jornalismo de grande circulação ser tão cínico e atuar de forma tão descolada da realidade? Qual é o conceito de “ditador” para a Folha, que ela não se dá nem ao trabalho de explicar?
Maduro venceu todas as eleições de que participou, dentro da constituição venezuelana.
Sua última eleição foi contestada sob acusações de fraude proferidas pela extrema direita venezuelana, pelo governo Trump e pela mídia ocidental. Mas, como dissemos, a alcunha de “ditador” é usada desde sua primeira eleição e sem precisar, nem mesmo, da acusação de fraude eleitoral para ampará-la.
A sabotagem na última eleição presidencial venezuelana
Manifestantes de uma guarimba — protesto violento nas ruas de Caracas, promovido por jovens delinquentes pagos em dólares, segundo as informações de testemunhas locais, pela extrema direita Venezuelana. Foto: Wiki Commons
Na última eleição, uma operação sofisticada de guerra híbrida foi conduzida para contestar a vitória de Maduro e criar um pretexto para um golpe de estado, a exemplo das manifestações golpistas do 8 de janeiro, promovida por bolsonaristas organizados no Brasil.
O governo bolivariano relatou um ataque cibernético no sistema do conselho eleitoral venezuelano que centraliza as contagens das urnas. A principal hipótese é a de que a CIA conduziu o ataque hacker ao sistema eleitoral.
Embora as urnas tenham sido apuradas, o sistema que produz as atas de votação de maneira centralizada sofreu um ataque cibernético, segundo o governo.
O ministério público venezuelano identificou invasões ao sistema vindas da Macedônia do Norte.
Como consequência, as urnas tiveram que ser auditadas presencialmente por equipes do CNE (Conselho Nacional Eleitoral), com a presença de representantes de todos os partidos, o que atrasou a contagem dos votos e a apuração do resultado da eleição.
Enquanto isso, a chapa do candidato de extrema direita, Edmundo Gozález, sua mentora ideológica, Maria Corina Machado, e figuras políticas estadunidenses acusavam o governo de fraude eleitoral.
Antes mesmo da votação, a extrema direita venezuelana já acusava o governo da intenção de fraudar as eleições que ainda viriam a acontecer. E essas acusações eram repercutidas em grandes jornais ocidentais, demonstrando a existência de uma campanha organizada.
As atas físicas das urnas foram entregues ao CNE que as contabilizou e declarou a vitória de Maduro, mas as atas eletrônicas não puderam, em função da invasão hacker, ser enviadas para o sistema central e publicadas no site.
Até aqui temos o confrontamento de duas versões: a acusação da extrema direita venezuelana, amparada pelo imperialismo estadunidense, de que o governo fraudou as eleições, baseada no atraso da apuração e na impossibilidade de apresentar as atas eleitorais de maneira eletrônica; e a acusação do governo de que o imperialismo promoveu um ataque hacker para sabotar a transmissão eletrônica, via internet, das urnas ao sistema central do CNE.
No entanto, a apuração interna de cada urna não depende da internet e não é passível de interferências externas. E a auditagem de cada sessão eleitoral foi realizada com a presença de representantes de todos os partidos, o que derruba a acusação de fraude.
Essa não é a primeira vez que os Estados Unidos conduzem um ataque hacker de grandes proporções para desestabilizar o governo e promover o caos na sociedade venezuelana.
Em 2002 e 2003, a entidade de representação da indústria venezuelana, Fedecámaras, dirigida por setores da burguesia, conduziu uma paralisação do setor petrolífero, para desestabilizar o governo de Hugo Chávez.
Chávez demitiu todos os dirigentes da PDVSA, a estatal petrolífera venezuelana, e os substituiu por quadros bolivarianos com a missão de colocar em funcionamentos a produção petrolífera.
No entanto, depois da greve geral, ataques hackers vindos do exterior, sabotaram o funcionamento de todo o sistema da empresa.
O governo Chávez teve que reestruturar não apenas a composição pessoal do setor, mas a infraestrutura tecnológica, incluindo o sistema eletrônico com sua capacidade de armazenar dados e transmitir informações.
Paralelamente à sabotagem hacker que atrasou e dificultou o processo eleitoral venezuelano em 2024, a extrema direita venezuelana organizou grupos de jovens, chamados localmente de guarimbas, para promover o caos nas ruas de Caracas, quebrando lojas e edifícios públicos, agredindo eleitores de Maduro e até mesmo cometendo assassinatos.
Mais de 200 mortes em decorrência da violência nas ruas foram informadas em canais de comunicação venezuelanos.
O dirigente do MST, João Pedro Stedile, que se encontrava em Caracas como observador internacional do processo eleitoral, relatou que a informação vinda dos bairros da capital era a de que esses jovens delinquentes eram aliciados pela extrema direita venezuelana, que pagava até 100 dólares para cada um, para promover as guarimbas.
Edmundo Gonzáles apresentou na internet atas de algumas zonas eleitorais, que segundo ele, divergiam da apuração oficial do CNE.
Maduro convocou todos os partidos para apresentarem suas atas ao CNE. Edmundo Gonzáles não apresentou as suas, não provando, portanto, sua denúncia de fraude.
Os detalhes que desmontam a acusação de fraude nunca foram noticiados pela imprensa burguesa ocidental. Pelo contrário, suas matérias endossavam as denúncias.
Os governos progressistas latino-americanos de Lula, Gustavo Petro e López Obrador adotaram uma posição diplomática de mediação entre o governo Maduro e o governo do EUA, a União Europeia e a extrema direita venezuelana, exigindo as atas eleitorais para reconhecer a vitória de Maduro.
Tal exigência já se constitui como uma espécie de ingerência diplomática sobre um assunto interno de outro país. Nenhum país na Europa ou na Ásia, por exemplo, exige atas eleitorais para reconhecer o governo de outro país.
Em um primeiro momento, Maduro concordou em apresentar as atas a seus homólogos, assim que a contagem dos votos, atrasada pelos ataques hackers, fosse concluída.
Mas, em seguida, se deparou com fato de que as atas eletrônicas não puderam ser disponibilizadas no sistema. Logo, para apresentar as atas a Lula, Petro e Obrador, o governo venezuelano teria que escanear mais de 30 mil atas físicas e disponibilizá-las em um site ou um serviço de armazenamento na internet.
Maduro mudou de estratégia, denunciou o ataque hacker, explicou na televisão e nas redes sociais detalhadamente ao povo venezuelano a evolução dos acontecimentos durante a eleição, e ordenou que o CNE disponibilizasse o resultado de cada urna (e não as atas) no site da instituição. Sendo que cada um dos resultados foi apurado com a presença de representantes de cada partido, que possuíam a cópia das atas de cada sessão eleitoral.
Gustavo Petro e López Obrador aceitaram a explicação de Maduro e reconheceram sua eleição. Lula, assessorado pelo diplomata Celso Amorim, não reconheceu a vitória de Maduro e questionou publicamente as eleições venezuelanas, provocando uma quase ruptura nas relações entre Brasil e Venezuela, agradando assim à direita brasileira e ao imperialismo estadunidense.
Consequências do sequestro do presidente Nicolás Maduro
Em foto divulgada nas redes sociais de órgãos governamentais dos EUA, Nicolás Maduro mantém a serenidade e a cabeça erguida, acenando positivamente, sob a custódia de agentes da DEA (Departamento Antidrogas dos EUA), em sua prisão política
Como os Estados Unidos não conseguiram derrubar Hugo Chávez no golpe de estado em 2002, ou pela via eleitoral financiando candidatos de oposição e promovendo sabotagens políticas e econômicas, como não conseguiram invadir a Venezuela em 2019, na primeira administração Trump, quando porta-aviões com caças estacionaram no mar do caribe, ou como não conseguiram derrubar o governo de Maduro provocando uma guerra civil na última eleição presidencial, a partir das denúncias de fraude e dos grupos pagos para promover violência nas ruas, o governo de Donald Trump lança mão do sequestro do presidente venezuelano no início de 2026.
Ao lado de Israel, os Estados Unidos são a maior organização terrorista da história da humanidade.
Os formuladores de política dos Estados Unidos utilizam o seu aparato de inteligência e militar, como a CIA e o Pentágono, financiados pelo povo estadunidense, para sequestrar o presidente eleito de outro país, encarcerá-lo arbitrariamente e chantagear a estrutura governamental desse país a abrir mão de sua soberania e ceder seus recursos naturais.
Resumindo, assistimos o governo da maior potência econômica do planeta praticando um sequestro comum. Como um grupo de criminosos comuns que utiliza armas para sequestrar uma pessoa e pedir dinheiro em troca.
Salta aos olhos a facilidade com que as forças estadunidenses sequestraram Nicolás Maduro. O New York Times noticiou que espiões da CIA estavam instalados em Caracas há pelo menos seis meses, grampeando e monitorando os movimentos de Maduro, para esta operação de sequestro (chamada por eles de “captura”).
Uma hipótese provável é a de que tenha havido alguma traição dentro do próprio governo bolivariano e, mais precisamente, na guarda presidencial. Enquanto fecho o artigo, me deparo com rumores de que, inclusive, os traidores já tenham sido identificados e presos.
Qual destino espera Nicolás Maduro?
Maduro será julgado por um tribunal em Nova York em um julgamento encenado, do qual todos sabemos de antemão o resultado. As acusações incluem tráfico de drogas, organização criminosa, terrorismo e, até mesmo, posse de metralhadoras. Como se o governo de um país não pudesse ter armamentos.
A falácia dos argumentos é tão risível que nem carece de análise. O governo dos Estados Unidos não conseguiu nem mesmo fazer o seu dever de casa bem feito para sustentar minimamente essas acusações.
Olhando em retrospecto, provavelmente o roteiro da operação previa alguma grande apreensão de drogas em um barco venezuelano nos patrulhamentos navais dos EUA nos meses anteriores, forjando um falso positivo, para sustentar a acusação de narcotráfico.
Nem isso eles conseguiram fazer direito. E nem precisam mais, por apostarem no uso ostensivo da superioridade militar, combinado com a dissonância cognitiva e a manipulação narrativa promovidas pelas redes sociais.
Trump simplesmente decidiu atacar a Venezuela, assim como decidiu atacar o Irã em junho de 2025.
Os ataques ao Irã e à Venezuela abrem precedentes que inauguram uma nova ordem internacional e uma nova fase do imperialismo.
A humanidade passa a se ver em um mundo onde não há mais qualquer garantia legal nas relações entre os países, não há mais mecanismos de proteção, a não ser a capacidade bélica de cada país, e “democracia”, “justiça” e “paz” se tornam palavreados vazios.
A atual conjuntura deixa todos os países do sul global em situação extremamente frágil.
As elites locais, que vivem da exploração da desigualdade social interna de cada país, se oferecem como quintas colunas para servirem à agenda do imperialismo e derrubar qualquer tentativa de projeto de desenvolvimento nacional.
Além dos políticos, juízes e empresários que colaboram com o imperialismo, a mídia tradicional e as redes sociais, geridas pelas Big Techs, mobilizam grande parte da sociedade para defender a sua própria servidão e sabotar a possibilidade de desenvolvimento de seu próprio país.
Esse é o cenário que o imperialismo, em sua fase atual, desenha para o mundo. E a América Latina torna-se um laboratório para uma nova Doutrina Monroe tecno-feudal, expressa no último documento de política externa do governo Trump.
No Brasil, por exemplo, as páginas e os perfis de extrema direita nas redes sociais reagiram ao sequestro de Nicolás Maduro comemorando e manifestando o desejo de que Lula seja o próximo.
Tecnofeudalismo, que é o título de um livro do economista grego, Yanis Varoufakis, é uma expressão feliz para retratar uma nova ordem mundial que apresenta uma arquitetura social estruturada numa degradação política, cultural e cognitiva, operada pelas ferramentas tecnológicas a serviço das elites financeiras que regem o mundo.
Se, hipoteticamente, o governo Trump derrubasse o governo Lula e instalasse um novo governo de extrema direita, o campo bolsonarista encontraria uma conjuntura internacional para por em prática uma espécie de ditadura tecno-feudal e evangélica a serviço do imperialismo.
O próximo passo lógico seria derrubar ministros do STF que se interpusessem à submissão do governo brasileiro ao governo americano e às Big Techs e criminalizar a esquerda.
Os únicos países latino-americanos, além da Venezuela que está no centro dos ataques imperialistas, que resistem atualmente à implementação da nova Doutrina Monroe são Brasil, Colômbia, México e Cuba.
Se a Venezuela cair, os Estados Unidos concentrarão esforços para desestabilizar ou derrubar os governos de cada um desses países.
A situação de Cuba, nessa nova ordem que prescinde de justificativas legais para os Estados Unidos atacarem um país, é extremamente vulnerável.
Além do objetivo de tomar o petróleo, o ataque a Venezuela é também um ataque à Cuba. É uma tentativa de cortar o abastecimento de petróleo que dá sobrevida à fragilizada economia cubana, numa tentativa de estrangular a revolução.
O secretário de estado, Marco Rubio, é o representante direto da máfia cubana da Flórida na administração Trump. Ataques a Cuba, Venezuela e Nicarágua constituem uma agenda de política externa que Rubio traz para o governo.
E a situação de Brasil, Colômbia e México não são menos instáveis do que a cubana.
O conservadorismo e o anti-esquerdismo promovido pelas redes sociais radicalizam uma parte significativa da opinião pública nesses países e em toda a América Latina, que dá suporte a políticos de extrema direita que trabalham para destruir os seus países por dentro.
A revolução bolivariana, apesar de ter seu presidente sequestrado, segue no comando das instituições do país.
Para resistir aos ataques dos Estados Unidos que não cessarão e, provavelmente, até se intensificarão depois do sequestro de Maduro, a revolução bolivariana vai depender de sua própria reorganização.
Será crucial saber se houve traições e de onde elas vieram. É fundamental para a resistência bolivariana saber se as forças armadas estão unidas e se os altos cargos políticos e militares permanecem leais.
Se houver unidade e lealdade, o governo bolivariano pode resistir aos ataques dos Estados Unidos e pode, por exemplo, pedir ajuda militar à Rússia, com quem tem acordos de defesa, inclusive o de efetivos militares e caças, para reforçar sua capacidade de defesa.
Aventamos essa possibilidade porque foi exatamente o que ocorreu em 2019. Foram as tropas e os caças russos que Putin enviou à Venezuela que dissuadiram o Trump em sua tentativa de invasão naquele ano.
No entanto, em 2019, a Rússia não enfrentava a guerra na Ucrânia. Em suma, o tabuleiro geopolítico está bem mais complexo para a própria Rússia nos dias atuais. Nem mesmo a Rússia pode se dar ao luxo de cometer movimentos políticos imprecisos que comprometam a sua situação geopolítica.
Todas as possibilidades estão postas no tabuleiro. A conjuntura é extremamente delicada e o futuro, incerto.
Quanto a Maduro, a esquerda mundial deve denunciar sua prisão ilegal e pedir sua liberdade, como a campanha que foi feita para libertar Julian Assange, fundador do site Wikileaks.
*Tomás Amaral é formado em Cinema pela Universidade Estácio de Sá (RJ). Atua como documentarista e analista geopolítico.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
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Publicação de: Viomundo
