Tânia Mandarino: Guarimberos não sequestrarão a Santos Andrade, nossa Praça da Democracia
Por Tânia Mandarino*
Ao final da tarde deste Oito de Janeiro, em Curitiba, enquanto partidos, movimentos sociais, populares e sindicatos do campo democrático ocupavam as históricas escadarias da UFPR para reafirmar que a democracia brasileira não admite anistia aos golpistas de 2023, a geopolítica do imperialismo mostrava suas garras a poucos metros dali, no chão da Praça Santos Andrade.
O ato, que unia a memória da resistência nacional à solidariedade contra a invasão terrorista dos EUA que sequestrou Nicolás Maduro e Cilia Flores no último dia 3, foi alvo de uma estratégia de provocação.
Não eram manifestantes espontâneos. O que vimos foi a atuação de células coordenadas que estão reproduzindo aqui a estética e o modus operandi das famigeradas “guarimbas”, que são grupos de oposição que atuam na Venezuela em conluio com uribistas da Colômbia.
Os uribistas são seguidores do movimento político colombiano conhecido como uribismo, que se formou em torno da figura do ex-presidente Álvaro Uribe Vélez, que governou a Colômbia de 2002 a 2010. São as mesmas forças da extrema da direita que, em 2014, assassinaram o deputado Robert Serra, que tinha apenas 27 anos.
Pois esses grupos de oposição, valendo-se da presença em Curitiba de cerca de 9 mil imigrantes venzuelanos, agora tentam agora sequestrar o espaço público democrático da capital do Paraná para impor uma narrativa de celebração à intervenção estrangeira.
Tive a alegria de ser uma das falantes da Aula Pública que aconteceu na praça durante o Ato Democrático e ali salientei que ocupar as escadarias da UFPR na Praça Santos Andrade neste Oito de Janeiro não era apenas um ato político, mas também um ato de memória.
Aquele chão tem história, aquele chão tem voz!
Ali, em 1986, foi levantado o primeiro Circo da Democracia para garantir que a ditadura não seguisse escrevendo o nosso futuro.
E como esquecer agosto de 2016? Quando voltamos a erguer o Circo da Democracia naquelas mesmas pedras! Ali, juristas, artistas e o povo unido denunciaram o golpe contra a Presidenta Dilma e a farsa que tentava ferir a nossa soberania.
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Aquele é o chão do 10 de maio de 2017, quando o Brasil inteiro lotou a Praça Santos Andrade para receber o Presidente Lula no seu primeiro depoimento em Curitiba para um juiz a serviço do império estadunidense que mais tarde cumpriu a missão de o encarcerar injustamente para deixar livre o caminho do atual presidiário Jair Bolsonaro, que ocupou a presidência deste país por quatro longos anos de terror, dor, mortes e entreguismo neoliberal.
A Praça Santos Andrade é, também, o chão do 28 de março de 2018, onde encerramos a Caravana pelo Sul sob tiros e perseguição, mas com a certeza de que as nossas ideias eram maiores que as suas celas!
E durante a prisão injusta de Lula, aquele chão também foi palco de eventos e marchas organizados pela militância e movimentos sociais em defesa de sua liberdade, como no Dia do Trabalhador em 2018, momento histórico inesquecível para os que amam a liberdade e a democracia em todo o Brasil, pois tinha caravanas do país inteiro na praça naquele dia 1º de maio.
O grupo de guarimberos, que se infiltrou entre os manifestantes, parecia estar disposto a atos que vão além das provocações e só foram percebidos quando um deles, passada a chuva que caiu no início do ato, simplesmente se aproximou da bandeira gigante da Venezuela estendida sob as escadarias da Praça Santos Andrade, retirando as pedrinhas que a seguravam, amassando-a de forma embolada, como se fosse um papel qualquer e saindo dali com ela.
Há testemunho de que se tratava de um homem e uma mulher:
“Quando o casal chegou, começou a enrolar a bandeira e ninguém se manifestou, pensei que eles estavam tirando porque estava molhada e talvez algum venezuelano tinha ficado ofendido. Mas quando eles passaram por mim e um pouco adiante jogaram a bandeira no chão e “arrumaram” com o pé para ficar no meio deles, percebi que não era “amor ao símbolo pátrio”. A distância que eles estavam não conseguia escutar o que diziam, me virei para ir em direção a eles, mas uma moça da organização se antecipou e logo alguns outros participantes se juntaram a ela e conseguiram resgatar a bandeira”.
De fato, presenciei que, abordado pelo cordão de militantes que fazia a segurança e instado, através do firme diálogo, o homem magro, de estatura mediana, com cabelos crespos, curtos, vestido de camiseta e calça preta, depois de muito se insurgir, não teve alternativa senão devolver a bandeira, que foi recolocada em seu lugar.
O homem então começou a se filmar gravando palavras de indignação e encenando um gestual bastante agressivo, que certamente só não se materializou mais diante da nossa própria segurança defensiva, ativa durante o ato.
Entretanto, enquanto o homem fazia a encenação em meio a um tanto de pessoas que se agrupavam ao redor, inclusive alguns jornalistas da mídia corporativa, um outro grupo voltava a se aproximar da grande bandeira venezuelana, do qual se destacou uma mulher de aspecto frágil, trajando uma saia marrom na altura das canelas, com dois babados abaixo do quadril e uma blusa cropped bege, com cabelos compridos, escuros, usando óculos e uma sapatilha baixinha, ao estilo boneca.
Ela parecia estar ali para encenar a mocinha frágil agredida pela esquerda, chegando a se jogar no chão durante a discussão, mas foi instada a se retirar dali e seguiu em retirada, pela praça.
Eu os fotografei. Obviamente não publicarei as fotografias que seguirão guardadas em arquivo para eventual necessidade, o que espero e desejo profundamente que não aconteça.
Mas as imagens não mentem. Identificamos articuladores operando em rede: o rapaz de boné, colado ao celular e gesticulando ordens; a “vigia” estratégica de braços cruzados; e figuras como o homem com a tatuagem “Venezuela” no braço, marcando território diante da bandeira nacional.
Mais inquietante ainda foi a presença de mulheres vestidas taticamente de preto, carregando maletas rígidas e utilizando fones de ouvido — um aparato de monitoramento e apoio logístico que nada tem de amador.
Uma intrigante e suspeita coincidência surgiu no noticiário: o portal Banda B apressou-se em divulgar, em notícia publicada às 17h46, que naquela mesma tarde um homem teria sido brutalmente espancado e deixado em coma na praça.
Causa estranheza que um procedimento médico de extrema complexidade — como uma intubação de emergência — tenha ocorrido no perímetro da Santos Andrade sem que ninguém da massa presente visse sequer o lampejo de uma sirene.
Falei com companheiros, que chegaram ao local às 16h para a montagem do som.
O relato é unânime: ninguém viu absolutamente nada. A invisibilidade desse “fato” para quem estava no chão da praça desde o primeiro minuto, somada à ausência da notícia em qualquer outro veículo de comunicação de Curitiba, coloca sob suspeita a narrativa, como se houvesse uma tentativa de deslocamento de um crime ocorrido em outro contexto para dentro do nosso ato, tentando fabricar um inexistente nexo de violência que induza a ilações sobre a verdadeira luta pela soberania e encubra a agressividade real das células de guarimberos que nós vimos operar.
O que posso concluir é que a agressividade que presenciamos partiu de quem não aceita o direito à soberania. Se houve violência física nas imediações, ela é o resultado direto desse ambiente de hostilidade cultivado por provocadores que, sob o manto de ‘imigrantes’, atuam como agentes de desestabilização.
Na noite desta sexta-feira (9/1), enquanto escrevia este texto, fui procurada por um jovem estudante venezuelano de Curitiba que tem sido perigosamente perseguido por guarimberos que atuam nas redes sociais.
O jovem participa dos eventos pela soberania da Venezuela e vídeos com sua imagem circulam nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp de venezuelanos tentando identificá-lo. Alguns comentaristas ameaçam “quebrar a cara dele”, outros “atirar nele com uma 22”, dentre outras promessas criminosas. Estão tentando encontrá-lo em suas redes sociais para, a partir daí, buscar o rapaz fisicamente.
Amo o povo venezuelano e respeito todos os imigrantes que encontro, mesmo com a maioria pensando diferente de mim.
Certa vez, em um evento de formação, o jornalista Beto Almeida disse que a bomba social atirada sobre a Venezuela com bloqueios e sanções, reiteradamente, há anos, teve, mesmo, o condão de espalhar geograficamente os venezuelanos.
É o que acontece com qualquer população onde é atirada uma bomba. Assim, compreende-se que, em um período muito duro e de difíceis condições econômicas, já atravessado pelo país vizinho, milhares de nacionais tenham saído em busca de melhores condições de vida.
Este artigo não é sobre essas pessoas.
Mas é preciso estar atento e forte. Ingenuidade seria não acreditar que a extrema direita imperialista e fascista não se aproveitaria disso para insuflar-lhes o ódio e a doutrinação neopentecostal com guarimberos infiltrados nos países como se fossem simples imigrantes.
Não, não são simples imigrantes!
E é sobre esses que devemos conversar abertamente. Sobretudo, buscando informações precisas a respeito de quem tem patrocinado seus atos pró-imperialistas na Praça Santos Andrade, a nossa Praça da Democracia.
Contra a maré do imperialismo e das táticas de desestabilização, precisamos dar nome aos bois.
A Praça Santos Andrade é palco de luta, não de “guarimba”.
Defender a Venezuela hoje é defender a integridade de todas as nações do Sul Global contra o arbítrio de quem se acha dono do nosso quintal. Nossa atuação deve ser no sentido de proteger inclusive imigrantes como o estudante venezuelano que citei acima. E o faremos.
Em Curitiba, os migrantes e imigrantes venezuelanos estão seguros. Quanto aos guarimberos, não passarão. Serão mapeados e denunciados. Se crimes cometerem, por eles responderão como qualquer cidadão residente no país.
Em tempo: liberdade imediata para Nicolás Maduro e Cilia Flores! Tirem as mãos sujas imperialistas da Venezuela!
Venezuelano que se preza é muito unido em favor da paz, porque tem duas coisas que unem de verdade os cidadãos venezuelanos: a Constituição e a Paz.
Fora disso são apenas mais do mesmo: violentos fanáticos fundamentalistas cooptados pela extrema direita para causar desestabilização em qualquer país. Não muito diferentes dos terroristas brasileiros do Oito de Janeiro.
Em Curitiba, não nos tomarão a Praça da Democracia!
*Tânia Mandarino é advogada. Integra o Coletivo Advogadas e Advogados pela Democracia (CAAD)
Publicação de: Viomundo
