Pesquisadora de entidade de direitos humanos alerta: Israel está mantendo cidadãos brasileiros em Gaza para fins políticos

Por Conceição Lemes

No sábado passado, 4 de novembro, o Ministério das Relações Exteriores da África do Sul, em declaração à mídia, denunciou:

“Israel está escolhendo países que considera ‘amigáveis’ para permitir que seus cidadãos saiam primeiro. Os países que Israel considera ‘hostis’ por terem assumido uma posição firme contra os ataques em curso (como África do Sul, Brasil e Irlanda) estão sendo empurrados para o final da lista”.

No dia anterior, 3 de novembro, a deputada federal Gleisi  Hoffmann, presidenta nacional do PT, já havia condenado a atitude discriminatória de Israel em mensagem no X (antigo twitter):

Pela terceira vez o governo israelense negou a saída de cidadãos e cidadãs brasileiros ameaçados pelo massacre contra população civil na Faixa de Gaza. E não apresentou qualquer explicação para essa atitude que discrimina um país, o Brasil, que tem históricas relações com o Estado de Israel. 

(…)

Infelizmente, o governo israelense sinaliza que estabeleceu uma hierarquia política para a liberação de civis, privilegiando alguns países em detrimento de outros.

Oito dias depois a situação mantém-se inalterada.

“A negação sistemática a cidadãos do Brasil, Irlanda e África do Sul do direito de deixarem o território de Gaza viola claramente o artigo 35 da Quarta Convenção de Genebra e, claro, não atende aos interesses nacionais do Estado”, alerta a pesquisadora e professora irlandesa Susan Power, chefe de investigação jurídica e advocacia da Al-Haq, a principal entidade palestina de direitos humanos.

“A negação do direito de saída por parte de Israel viola o direito à liberdade de movimento e a proibição da discriminação racial, podendo também constituir um ato de punição coletiva, perseguição e atos desumanos de apartheid”, detalha.

Susan Power vai mais longe: “Considerando que Brasil, África do Sul e Irlanda já pediram um cessar-fogo e condenaram firmemente os crimes de Israel contra o povo palestino, a negação do direito de sair é um ato coercitivo para pressionar esses países a não tomarem medidas adicionais para impedir o apartheid, os atos genocidas e os planos de colonização de Israel na Faixa de Gaza”.

Doutora em direito internacional, Susan Power lecionou durante vários anos nos programas de graduação e mestrado em Direito do Griffith College Dublin, a maior instituição de Educação da Irlanda.

Desde 2013, trabalha na Al-Haq, cuja sede fica em Ramallah.

Inicialmente, cumpria meio expediente e lecionava Direito no Griffith College Dublin.

Em 2017, decidiu viver na Palestina e trabalhar em tempo integral na Al-Haq.

Primeiro, como investigadora jurídica sênior. E, desde janeiro de 2018, como chefe de investigação jurídica e advocacia da entidade.

Para Susan Power, Israel comete crime não somente contra o povo palestino, mas também contra o Brasil

E cobra uma posição firme do governo brasileiro contra retenção de seus cidadãos por Israel.

“Se mais de dez mil palestinos mortos e 2,3 milhões forçados a passar fome em um caso exemplar de genocídio não foram suficientes para o Brasil agir, este é o momento de se posicionar”, argumenta.

“A única maneira de salvar efetivamente os cidadãos brasileiros e todas as pessoas em Gaza é pressionar efetivamente Israel a implementar um cessar-fogo imediato, inclusive por meio do corte de relações diplomáticas e laços militares com Israel”, defende.

”Qual a diferença, se é que existe alguma, entre tomar reféns e a detenção de cidadãos brasileiros por Israel na Faixa de Gaza sitiada, especialmente quando realizada para pressionar o Brasil a não tomar medidas concretas contra Israel para pôr fim a seus crimes?”, questiona Susan Power.

”Fica claro que Israel está perseguindo cidadãos brasileiros em Gaza para fins políticos”, adverte.

Atualmente, Susan Power está envolvida também num projeto de pesquisa de pós-doutorado sobre a Palestina no Centro Irlandês para os Direitos Humanos.

Publicação de: Viomundo

Lunes Senes

Colaborador Convidado

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *