Morre Luis Fernando Verissimo, escritor e mestre das palavras
O cronista, escritor, publicitário e saxofonista Luis Fernando Verissimo morreu neste sábado (30) às 00:40min depois de um internamento desde o dia 11 de agosto na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Moinhos de Vento. Ele tinha 88 anos, iria fazer 89 em setembro. A morte foi em decorrência de uma pneumonia.
A família disse que ele morreu tranquilo “como sempre viveu”. Nos últimos anos, Verissimo enfrentou uma série de doenças, como câncer na mandíbula, acidente vascular cerebral (AVC), problemas cardíacos, herpes e Parkinson.
Em razão disso, o cronista teve os movimentos e a fala debilitados. Porém, continuava em casa, cercado pela família, lendo, assistindo à televisão, acompanhando notícias sobre futebol e música e jogando paciência. O funeral será na Assembleia Legislativa ate às 18h deste sábado.

Nascido em Porto Alegre em 1936, Luis Fernando Verissimo foi escritor e tradutor, além de ter uma faceta musical como saxofonista. Filho do também escritor Erico Verissimo, publicou crônicas em jornais nacionais e gaúchos, entre eles Folha da Manhã, o alternativo Pato Macho, Zero Hora, O Globo e O Estado de S. Paulo, Veja.
Autor de livros de contos, romances, peças de teatro e roteiros para televisão, criou personagens como Ed Mort e Fagundes, que apareceram em coletâneas de humor e adaptações audiovisuais. Algumas de suas obras foram traduzidas para outros idiomas e circularam no exterior. Publicou seu primeiro livro na década de 1970 e veio mantendo produção constante ao longo das seguintes. Suas crônicas abordam temas ligados ao cotidiano urbano, à política, à cultura e às relações interpessoais.
Verissimo teve mais de 70 livros publicados e 5,3 milhões de cópias vendidas. Além das obras próprias, escrevia colunas para os jornais e para quem mais solicitasse a sua colaboração intelectual, pelo seu estilo e modo de escrever.
Últimos tempos
Luis Fernando Verissimo viveu os últimos tempos em casa, no bairro Petrópolis, sem sair. A casa foi herdada do pai, Erico Verissimo. Sempre estava acompanhado pelos olhos vigilantes, carinhosos e sorridentes da sua mulher, a carioca Lúcia Helena Massa, com quem ficou casado desde 1963. LFV foi de tudo na vida das comunicações, mas ironicamente com suas maiores características – o silêncio, a timidez e as poucas palavras que ousava proferir. Era lacônico.
“Nunca fui muito íntimo de mim mesmo, nunca examinei o que eu fiz, o que eu deixo de fazer”, disse quando completou 80 anos. Lúcia, a sua voz, estava por perto. Fazia as coisas da vida para ele. Resolvia os problemas, ia aos bancos, entregava a coluna no jornal (nos tempos pré-Internet), a sua razão de fazer a sua vida andar com calma e amor e, com saúde, com as dificuldades habituais e naturais das sequelas que enfrenta da doença de Parkinson e do AVC, que sofreu em 2021, e que o obrigou a ficar vários dias internado em hospital da Capital, além do marcapasso colocado em 2012 e da lombalgia que o impedia de ser ágil. Mas ele sempre foi calmo e tranquilo até para caminhar, desde que o conheço há mais de 60 anos, disse Lúcia. Nos últimos meses teve até câncer de pele e herpes, mas os problemas foram superados ou minimizados.
Lúcia sempre foi sua interlocutora. Recebi ao longo do tempo várias ligações dela fazendo um pedido simples. “Oi, podes mandar alguém buscar a coluna aqui em casa”, pedia com toda gentileza possível. E emendava um papo ou outro sobre alguma coisa do momento. Era editor na Zero Hora e controlava o fluxo dos carros para deslocamento dos repórteres da Editoria Geral. Aqueles anos eram na base da máquina de escrever. A Internet ainda estava um pouco distante.
Numa das últimas mensagens Lúcia mandou o seguinte texto: “LFV vinha lidando bem com a doença de Parkinson até que no início de 2021 teve um AVC que atingiu a parte cognitiva. Ironicamente quem sempre lidou com as palavras começou a apanhar delas. As palavras escapam. Não consegue mais escrever, mas ainda lê lentamente”, me disse ela.
Dias depois mandou outro textinho sobre câncer de pele e herpes: “O Herpes já passou e o problema do couro cabeludo já está sendo combatido com tratamento moderno e parece que eficaz. Deixa ver o resultado e, aí então, pode de boa noticiar e até ajudar.” Passou, mas logo depois veio a pneumonia, que acabou sendo a causa de sua morte.

Tempo
Para quem passou a vida escrevendo, fazendo humor através das palavras, sendo escritor, cartunista, tradutor, roteirista, dramaturgo e romancista, os últimos tempos de LFV foram difíceis, complicados e de sofrimento, embora ele nunca se queixasse. Mas Lúcia e a família enxergavam diferente. Achavam que o tempo e os tratamentos melhorariam a qualidade de vida do escritor. “Uma vez me perguntaram o que eu achava da passagem do tempo, e eu disse: sou contra”, contou quando ele festejava os seus 80 anos e estava bem, lúcido. “Mas, no fim, é o tempo que nos controla.”
Foi também publicitário e revisor de jornal. Foi ainda músico, tendo tocado saxofone em um conjunto de amigos. “O sax, que aprendeu aos 16 anos quando morava com os pais nos Estados Unidos, ficou um pouco de lado nos últimos anos e não tocou mais”, conta Lúcia. “Ele ouve música, jazz principalmente, e joga paciência (cartas) no computador.”
Teve um período em que desenhou bastante, mas parou, afirmou Lúcia. Quem não lembra das Cobras do Verissimo em várias publicações brasileiras?
“O que ele não deixou de fazer foi acompanhar o Inter, seu time e seu velho amor”, diz. “Ficamos quase todos estes últimos tempos em casa, vemos filmes na tv. Sempre tinha algum programa que ele gostava.”
Sobre questões políticas, não se preocupava mais nos seus últimos tempos. Durante sua trajetória, sempre usou da perspicácia e da clareza do ambiente que vivia para manifestar suas posições firmes, progressistas e claras. “Nos últimos tempos se desinteressou. Um sábio”, me disse Lúcia, certamente olhando o quadro caótico que vivemos nesta área.
LFV e Lúcia tiveram três filhos. “Fernanda, a mais velha, mora perto de nós e no momento está muito empenhada na memória do avô Erico que esse ano comemora 120 anos de nascimento e 50 de morte. Tem ido a Cruz Alta, terra natal de Erico, onde serão realizadas muitas comemorações. Nos deu a neta Lucinda, agora com 17 anos. Mariana mora em São Paulo e nos presenteou com o neto Davi, de 12 anos. E Pedro, que era publicitário, hoje canta e compõe.”
Publicações
Com 70 títulos publicados, LFV é um dos mais populares escritores brasileiros contemporâneos. Vendeu 5,3 milhões de livros, um verdadeiro fenômeno editorial. Alguns dos seus maiores sucessos foram O Popular: crônicas ou coisa parecida, A Grande Mulher Nua e Ed Mort e Outras Histórias. A sua obra mais vendida foi As Mentiras Que os Homens Contam. Esta antologia de crônicas foi um sucesso de vendas e alcançou a marca de mais de 350 mil exemplares, segundo diz o Google.
Já entre as milhares de crônicas que escreveu para jornais está A Mulher do Vizinho. Ali ele destacou o tom crítico e satírico, característicos do autor. A crônica se concentra em um diálogo aparentemente comum entre um casal, que revela a complexidade das relações humanas e a forma como as fofocas e o preconceito podem moldar a realidade percebida. A crônica é famosa por sua linguagem simples e inteligente, além do humor que permeia a narrativa, tornando-a acessível e envolvente.
Também ficaram famosas Beijinho, beijinho, que aborda temas como adultério e desconfiança em casamentos, e A Bola, que utiliza o futebol como metáfora para refletir sobre a vida e a busca por identidade.
História
LFV nasceu em Porto Alegre, dia 26 de setembro de 1936 – estava perto dos 89 anos – e morou nos Estados Unidos e no Rio de Janeiro, onde conheceu Lúcia. “Ele me deu cinco minutos para que eu decidisse se queria ou não casar”, relembrou Lúcia em vários momentos da vida. Tinha uma só irmã, Clarissa – nome de um dos romances mais famosos do seu pai Erico –, casada com um físico americano e mora desde 1956 nos EUA.
Entre 1980 e 1981, Verissimo viveu com a família por cinco meses em Nova Iorque, o que mais tarde renderia o livro Traçando Nova Iorque, primeiro de uma série de seis livros de viagem escritos em parceria com o ilustrador Joaquim da Fonseca e publicados pela Editora Artes e Ofícios.
A popularidade veio em 1981, com o livro O Analista de Bagé, lançado na Feira do Livro de Porto Alegre. Esgotou em dois dias e o tornou nacionalmente conhecido. O personagem, criado para um programa humorístico de televisão com Jô Soares, é um psicanalista de formação freudiana ortodoxa, mas com o sotaque, o linguajar e os costumes típicos da fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai e a Argentina.
A contradição entre a sofisticação da psicanálise e a “grossura” caricatural do gaúcho da fronteira gerou situações engraçadíssimas, que Verissimo soube explorar com talento em dois livros de contos, um de quadrinhos (com desenhos de Edgar Vasques) e uma antologia.
Em 1982 passou a publicar uma página semanal de humor na revista Veja, que manteria até 1989. Em 1983, em seu décimo volume de crônicas inéditas, lançou um novo personagem que também faria grande sucesso, A Velhinha de Taubaté, definida como “a única pessoa que ainda acredita no governo”.
Em 1995, intelectuais brasileiros convidados pelo caderno “Ideias” do Jornal do Brasil elegeram Luis Fernando Verissimo o Homem de Ideias do ano. A esta seguiram-se outras homenagens: em 1996, “Medalha de Resistência Chico Mendes” da ONG Tortura Nunca Mais, “Medalha do Mérito Pedro Ernesto” da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro e “Prêmio Formador de Opinião” da Associação Brasileira de Empresas de Relações Públicas; culminando, em 1997, com o “Prêmio Juca Pato”, da União Brasileira de Escritores como o Intelectual do ano. Em 1999, recebeu ainda o “Prêmio Multicultural Estadão”.
Em 2004, na França, recebeu o Prix Deux Océans do Festival de Culturas Latinas de Biarritz. Em 2014 foi homenageado pela escola de samba de Porto Alegre Imperadores do Samba com o enredo A Imperadores do Samba faz a justa homenagem aos personagens de Luis Fernando Verissimo. Participou em 2015 em uma faixa do último CD da dupla gaúcha Kleiton & Kledir como compositor e saxofonista.
Verissimo tem monumento em Bagé, graças ao seu trabalho Analista de Bagé, famoso pela sua teoria do joelhaço. Há pelo Brasil afora também circulando agora um belo documentário, lançado com enorme sucesso contando todo o seu caminho literário e de vida.
Em dezembro de 2019, o Brasil de Fato RS lançou seu jornal impresso de humor, em parceria com a Grafar, a associação de cartunistas do RS, com uma bela entrevista com Luis Fernando Verissimo.
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Publicação de: Brasil de Fato – Blog