José do Vale: Os séculos das Luzes, da Industrialização e da Modernidade explodiram em Hiroshima

Por José do Vale Pinheiro Feitosa*

Na sexta-feira passada, eu e minha companheira [Tereza Piccinini] assistimos a um dos filmes mais comentados dos últimos anos (aliás, o cinema tem apresentado tantas platitudes que não compensa sair por elas).

E uma nota do dia: ir ao cinema é, para minha geração, um fenômeno especial, é sair para um ritual cultural marcante, chegar aos modelos de espaço, luzes, cartazes, salas preparadas e a projeção.

É muito mais do que se sentar nos sofás solitários, embaixo de uma cachoeira de streamings, agora a moda das séries, receber tanto volume no crânio que se formam piodermites no couro cabeludo.

Mas voltando ao filme.

Os dois filmes mais badalados do semestre findo foram Oppenheimer e Barbie, tão badalados que o filósofo pós-moderno esloveno Slavoj Zizek se deu ao luxo de pequeno artigo sobre eles.

Como há tempos não nos animávamos a uma sessão de cinema fomos assistir a Oppenheimer (ainda veremos Barbie).

Oppie é o drama do prestígio da ciência e da tecnologia derivada dela.

Um drama porque todo o prestígio nasce (ou é consequência) da civilização europeia, colonialista, violenta, expropriadora de riqueza, destruidora de povos e que tem na alteridade o seu grande crime humano (o nazismo racista é fruto deste fenômeno).

Recordemos o Século das Luzes como um produtor de conhecimento afiliado à Invasão Comercial das Américas (com a destruição das culturas originárias) e da África (acentuando e se encontrando com a expansão do islamismo e das culturas locais).

O Século das Luzes, o Século da Industrialização e da Modernidade: máquina a vapor, motor a explosão, eletricidade, teoria atômica, física do espaço/tempo, biologia dos micróbios, controle de endemias e epidemias, fotografia e cinema, artes plásticas, dança, literatura, arquitetura etc.

Especialmente o Século 20 é aquele em que personagens se tornam fenômenos populares vindos das mais complexas e isoladas igrejas dos conhecimento tais como físicos, matemáticos, químicos, microbiologistas, farmacologistas, etc.

Os entusiasmos com os cálculos matemáticos das estruturas da matéria e da energia, dos estudos de astronomia, a teoria das partículas subatômicas e a física quântica, entre outros, se tornaram um sucesso editorial e tais personagens subiram ao patamar dos Deuses.

E que Deuses?

Da genialidade. Não porque desafiassem o Deus da Civilização Europeia Colonialista, Imperialista e Violenta.

Mas geniais porque elevaram o paroxismo destrutivo de uma civilização com estas características.

Einstein se tornou um mito. Heisenberg outro, Niels Bohr também, antes o casal Curie estudou os raios energéticos de ondas mínimas e desenvolveu a teoria da radiação.

O paroxismo máximo desta turma toda foi o cálculo matemático. Desenvolveram verdadeiras sinfonias de símbolos e fórmulas que redundaram em conclusões de controle intenso dos fenômenos.

E ousaram. Foram adiante no sentido teleológico do colonialismo e imperialismo europeu. A exploração, destruição, morte e vitória das luzes, ciência e tecnologia da vantagem relativa.

Para cientistas, muitos deles judeus descendentes de famílias do leste europeu em sua maioria, o cálculo matemático era a dor dos pogroms, representava a reação ao nazifascismo alemão com sua violência racista. Era a vingança da violência a serviço de uma violência maior.

Assim se reúnem Oppenheimer, Teller e outros como Fermi num deserto americano para darem ao Império, que substituiria a Inglaterra, a morte de todas as morte, a vitória sobre todas as vitórias, mesmo que numa terra arrasada.

A esta geração de cientistas não lhes é possível oferecer o perdão da dúvida. Eles estudaram, testaram em laboratório e no deserto do Novo México o estrago que a fissão e a fusão nuclear desencadeariam em poder de destruição material e efeitos tardios sobre a biologia global, inclusive humana.

Assistindo ao filme Oppenheimer não conseguimos perder o desconforto de que os americanos (Trumann e seus generais, empresários e o sistema econômico) usaram Hiroshima e Nagasaki como “experiência controlada” da bomba atômica em seres humanos (a população das duas cidades).

Os americanos envolvidos na bomba atômica e suas instituições de Estado e corporações econômicas puderam, por anos, acompanhar o raio de destruição, as mortes imediatas e mediatas, as morte de longo prazo, as mudanças genéticas, os efeitos tardios e a terapia mais adequada.

Imagem de Hiroshima destruída com autógrafo do piloto do bombardeiro “Enola Gay” Paul Tibbets. Foto: Wikimedia Commons

Isso caracteriza o que já era antigo em ciência experimental: faz-se o experimento comparando efeitos sobre a população sujeita a ele e outra não sujeita.

Os sistemas de saúde já sabiam como morriam e viviam as populações em condições normais para poder comparar com as vítimas da Bomba Atômica de Hiroshima e Nagasaki.

Amanhã será o aniversário de 78 anos daqueles que, às 8h45, receberam em Hiroshima a violência experimental americana.

A bomba chamava-se, ironicamente, de Little Boy e foi lançada de um bombardeiro que recebeu o nome de Enola Gay, o mesmo da mãe do piloto.

*José do Vale Pinheiro Feitosa é médico sanitarista.

Publicação de: Viomundo

Lunes Senes

Colaborador Convidado

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