Jessé de Souza: O dono do Brasil
O dono do Brasil
Esse pessoal em tudo se parece ao mercador de escravos que era o único a fazer fortuna no Brasil durante 350 anos
Por Jessé Souza*, no ICL Notícias
Semana passada circulou nas redes sociais um vídeo de André Esteves, dono do BTG Pactual, o maior banco de investimentos do Brasil, se vangloriando de ter ajudado a mudar o espírito do povo brasileiro em relação ao tema da privatização.
Orgulhoso, ele lembra que ninguém viu nenhum protesto nas privatizações, todas comandadas pelo BTG, da maior empresa de saneamento do país a Sabesp, um mimo pessoal de seu capacho no governo de São Paulo, da Copel, maior companhia de energia do país, e, joia da coroa, a privatização da Eletrobrás, a terceira maior estatal do Brasil.
O grande orgulho de Esteves é que conseguiu privatizar a Eletrobrás três meses antes das eleições sem que ninguém mais levantasse um dedo em protesto.
Ele compara, no mesmo vídeo, o problema que era há dez anos atrás – ou seja antes do golpe de 2016 – tentar privatizar alguma coisa. Segundo ele, era só confusão que “ninguém sabia por quê”.
É a impossibilidade de se por um momento que seja, no lugar dos perdedores e do povo, que faz com que ele só veja confusão despropositada em protesto para defesa de seu ganha pão. Nenhuma empatia pelo próprio povo explica todo o comportamento desses endinheirados oportunistas.
Essa declaração é uma pérola porque ela nos permite vislumbrar como funciona realmente, entre nós, os mecanismos de poder.
As “privatizações” são todas decorrentes da corrupção real dos reis do mercado sobre tudo e todos. Nenhuma privatização no Brasil jamais deu certo. A não ser para seus incautos donos, que no caso da Vale, por exemplo, causou catástrofes ecológicas irremediáveis e matou centenas impunemente.
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Os paulistanos sabem o que é ficar sem energia durante quase uma semana, por falta de investimento de empresas recém-privatizadas.
Todas as privatizações, sem exceção, são roubo e corrupção grossa, daquelas que deixam um povo pobre e uma meia dúzia de bilionários. Só que ninguém em nenhum jornal e nenhuma televisão chama essa prática de corrupção embora ela seja óbvia mesmo para um idiota.
Claro, toda a imprensa está direta e indiretamente vendida aos privatizadores da riqueza pública.
É isso que torna seu poder tão absoluto. Uma população imbecilizada não sabe quem são os seus inimigos. E Esteves pode ser um narcisista perverso, mas não é burro.
Sabe se movimentar no pântano da política e da imprensa brasileira e, assim que seu nome foi citado como causador do ataque ao ministro Alexandre de Moraes, Esteves organizou uma “Blitzkrieg” que envolveu literalmente toda a imprensa brasileira em sua defesa. Prova incontestável de seu poder mesmo na imprensa não corporativa.
Exemplo clássico da elite financeira brasileira, esse pessoal em tudo se parece ao mercador de escravos que era o único a fazer fortuna no Brasil durante 350 anos. O endividamento dos latifundiários nas compras de escravos levava à perda de suas propriedades inexoravelmente. Como dizia Joaquim Nabuco “pai rico, filho nobre e neto pobre”.
Essa fortuna era gasta na Europa sem dinamizar o país em consumo de luxo. Eça de Queiroz mostrou, com muito talento, em vários romances a mesma figura do mercador de escravos tão onipresente que era o protótipo do “brasileiro” para ele. Figuras todas elas ridículas – empavonados, iletrados, sem nenhuma cultura e embrutecidas na alma – aos olhos europeus que dissipavam fortunas tão facilmente quanto as tinha ganho.
Inexiste qualquer diferença relevante entre o mercador de escravos e o “financista” de hoje.
Primeiro, temos a empáfia e o total desprezo e desconhecimento acerca das necessidades mais elementares da população.
Esteves simplesmente não entende a razão que orientava os protestos em outros tempos. Claro, para ele o povo é formado pelos idiotas que pagam o preço real de toda privatização, tanto no investimento inicial quanto na precariedade dos serviços que passam a ser oferecidos, em benefício dos aventureiros das finanças.
O mesmo acontece com a “dívida pública” crescente e não auditada que produz a maior transferência de renda da população empobrecida para meia dúzia de especuladores nativos e americanos. Vargas, que fez a primeira e única auditoria da dívida pública brasileira, verificou que 60% eram títulos falsos ou não tinha contrato. Para os estudiosos de hoje seria muito mais.
Em segundo lugar, podemos perceber a real “função social” de nossa elite.
Os especuladores que enriquecem com os juros de uma dívida pública falsa e os assaltos ao patrimônio público que são as privatizações, no caso do Banco de Esteves, são, em 95% dos casos, investidores americanos.
É preciso desenhar para saber para onde vai o saque da população? É rigorosamente a mesma elite, há 500 anos, que organiza o saque da população nativa em nome dos interesses das elites metropolitanas.
Primeiro os portugueses, depois os ingleses, e agora os americanos.
Daí que até os jornalões conservadores tenham defendido a “soberania nacional” frente aos ataques de Trump. Ora, se os verdadeiros donos do Brasil passarem a agir diretamente aqui dentro, qual o papel da elite? Qual seria sua função social? Nenhuma.
O trabalho da elite nativa é comprar a imprensa – e com isso a esfera pública –, juízes do supremo tribunal e a maioria dos deputados e senadores que são pelo menos em 80% seus capachos obedientes.
Lira ligava para Esteves para saber quais deveriam ser os preços macroeconômicos. E, como de óbvio, mandar no Banco Central, agora independente da soberania popular para ser totalmente dependente dos bancos.
Esse país seria rico e próspero sem essa elite canalha que sempre viveu do sangue dos humilhados e ofendidos, seja antes traficando escravos, seja a de hoje traficando o futuro de uma população indefesa.
*Jessé Souza é escritor, pesquisador e professor universitário. Autor de mais de 30 livros dentre eles os bestsellers “A elite do Atraso”, “A classe média no espelho”, “A ralé brasileira” e “Como o racismo criou o Brasil”. Doutor em sociologia pela universidade Heidelberg, Alemanha, e pós doutor em filosofia e psicanálise pela New School for Social Research, Nova Iorque, EUA
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
Publicação de: Viomundo
