Criada associação para dar suporte às vítimas e comunidades contaminadas por agrotóxicos no Brasil
Associação é criada para dar suporte a vítimas de contaminação por agrotóxicos no Brasil
Por Leonardo Fernandes – Brasil de Fato
Durante o Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Salvador (BA), no mês de janeiro, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida realizou uma cartografia, junto aos assentados e assentadas da reforma agrária, das áreas com presença de agrotóxicos no Brasil, buscando identificar os métodos de contaminação, seja pela aplicação por drones, aeronaves, pulverização terrestre, ou mesmo pela chamada “guerra química” no campo, ou seja, a aplicação proposital de venenos como forma de expulsar famílias e comunidades de seus territórios.
“Minha colmeia reduziu 40% depois que começaram a aplicar veneno perto da minha área”, relata o senhor Antônio, apicultor do Rio Grande do Sul, enquanto marcava no mapa a região onde mora, na fronteira com o Uruguai.
Mais ao norte, na região do Vale do Mucuri, em Minas Gerais, agricultores têm sido impedidos de comercializar seus produtos em feiras de alimentos orgânicos devido à contaminação provocada irregularmente pelos fazendeiros da região.
Reportagem do Brasil de Fato, de abril de 2025, revelou uma série de áudios e vídeos com relatos de agricultores e coletores da região sobre a pulverização irregular de venenos em seus cultivos. Num deles, uma agricultora que não quis se identificar, fazia um chamado à ação coletiva das comunidades afetadas.
“Os fazendeiros nem moram na região: eles vêm, jogam veneno e vão embora. A gente precisa se juntar e ir na prefeitura porque isso é um absurdo”, dizia o áudio.
Foto: Wenderson Araujo/Trilux
“Olha o pé de amora como está, gente, morrendo tudo”, mostra outra agricultora em um dos vídeos. “O rapaz jogou com drone a 400 metros. E foi ontem, e já está tudo assim. Até o mato está morrendo. O que a gente vai fazer?”, questionava a trabalhadora.
Esses são apenas alguns dos casos de violações envolvendo o uso de agrotóxicos no Brasil. Segundo o relatório anual da Comissão Pastoral da Terra (CPT) sobre conflitos no campo, somente em 2024, mais de 17 mil famílias brasileiras foram vítimas desse crime. Os alvos são, majoritariamente, quilombolas, camponeses, assentados da reforma agrária e indígenas.
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Conforme o relatório, ao todo, foram 276 ocorrências deste tipo, envolvendo 17.027 famílias, em mais de 3,3 milhões de hectares.
Esses números representam um aumento de 763% no número de conflitos e 582% no de famílias atingidas pela guerra química em relação a 2023, quando foram registrados 32 conflitos, envolvendo 2.498 famílias vítimas de intoxicação por agrotóxicos.
Foi com o intuito de prestar orientação técnica e apoio jurídico a essas pessoas atingidas pelos agrotóxicos que nasceu a Associação Nacional das Vítimas dos Venenos (Anvive). A entidade foi criada em 2025, mas teve sua primeira assembleia nesta quarta-feira (4), Dia Mundial do Câncer.
Segundo Mirelle Gonçalves, presidente da entidade, o principal objetivo é oferecer suporte jurídico, pedagógico, político e técnico às pessoas e comunidades atingidas pela contaminação e risco de contaminação por agrotóxicos em todo o país.
“A formalização da associação é um passo importante para que as pessoas vítimas de contaminação por agrotóxicos tenham o acompanhamento técnico e o suporte jurídico necessários para enfrentar a situação, buscar seus direitos e conseguir uma reparação justa”, explica Gonçalves.
A associação pretende ainda organizar palestras, seminários e cursos, além de elaborar materiais informativos sobre os impactos dos agrotóxicos e as alternativas baseadas na agroecologia, contribuindo para a ampliação do debate público sobre o tema.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ONU), o Brasil é atualmente o maior consumidor de agrotóxicos do mundo.
Mais que uma reparação justa, Gonçalves afirma que “a Anvive é mais uma ferramenta de luta contra os agrotóxicos no Brasil”.
“A reparação financeira não devolve a saúde para essas pessoas, mas pode garantir o mínimo de qualidade de vida para essas pessoas que sofrem no corpo os efeitos do envenenamento por agrotóxicos. Além disso, à medida que os responsáveis por essa contaminação passem a ser onerados, a sociedade aumenta a pressão para haver um maior controle sobre o uso dessas substâncias no nosso país”, completa Mirelle Gonçalves.
O estatuto da entidade a define como um espaço coletivo e nacional, aberto à participação de pessoas físicas, movimentos sociais, profissionais, coletivos e instituições.
As formas de apoio incluem a associação formal à entidade, o trabalho voluntário, a construção de parcerias institucionais e o apoio financeiro às ações desenvolvidas.
Publicação de: Viomundo
