Antônio de Azevedo: O que estas notícias têm em comum?

Por Antonio Sérgio Neves de Azevedo*

O noticiário recente escancara um traço inquietante do nosso tempo, a naturalização do abuso de poder, seja ele financeiro, político ou institucional.

Do Rio de Janeiro a Minneapolis, passando por Brasília e Maceió, os fatos se acumulam e revelam uma crise que não é episódica, mas estrutural, uma crise de responsabilidade, de humanidade e de limites.

No Brasil, a investigação da Polícia Federal sobre a aplicação de recursos de aposentados no Banco Master, envolvendo o entorno do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, é um retrato duro de uma lógica que se repete há décadas, o dinheiro de quem trabalhou a vida inteira sendo tratado como ficha de cassino.

Fundos previdenciários não existem para apostas sofisticadas nem para aventuras financeiras cercadas de relações políticas opacas. Quando aposentadorias viram instrumento de risco elevado, não estamos diante apenas de um erro técnico, mas de desprezo social. A presença de figuras políticas orbitando decisões financeiras desse porte exige mais do que notas oficiais; exige responsabilização exemplar.

Esse mesmo Banco Master reaparece quando seu controlador, Daniel Vorcaro, admite ter tratado da venda da instituição em conversa com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha.

Ainda que se discuta o teor e a formalidade desses diálogos, o ponto central é outro: por que interesses privados de grande impacto sistêmico circulam com tamanha intimidade nos gabinetes do poder público?

A fronteira entre Estado e mercado segue perigosamente borrada, e quem paga a conta, quase sempre, não participa da conversa.

Mas o rastro deixado pelo governo Cláudio Castro não se limita às relações financeiras opacas.

Ele se projeta, de forma ainda mais grave, na política de segurança pública que transformou o Rio de Janeiro em cenário recorrente de chacinas e mortes evitáveis. Sob sua gestão, operações policiais passaram a ser apresentadas como rotina administrativa, mesmo quando resultam em execuções sumárias e na morte de moradores de favelas, sobretudo jovens negros.

Apoie o VIOMUNDO

Como analisou Paulo Sérgio Pinheiro, em artigo publicado na Folha de S. Paulo (03/11/2025), não se trata de desvios isolados, mas de uma lógica de Estado que naturaliza a violência letal como instrumento de governo.

Quando o poder público aceita a morte como método e trata territórios inteiros como zonas permanentes de exceção, o abuso deixa de ser apenas político ou institucional e assume sua face mais extrema, a negação do direito à vida. A ausência de responsabilização, nesse contexto, não é falha; é escolha.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, Minneapolis volta a ocupar o centro do mapa da indignação global.

A mega manifestação contra Donald Trump, após operação do ICE que resultou na detenção de uma criança de apenas cinco anos e, em outro episódio, na morte de um enfermeiro socorrista de UTI pelas forças do órgão, não configura fatos isolados, mas episódios simbólicos.

A política migratória, quando perde qualquer lastro humanitário, deixa de ser política pública e passa a ser violência de Estado. Crianças algemadas ou separadas de suas famílias não fortalecem fronteiras; apenas corroem valores civilizatórios.

O protesto nas ruas mostra que uma parte expressiva da sociedade americana já entendeu isso e se recusa a aceitar o autoritarismo travestido de ordem.

No Brasil, a Justiça também deu um recado importante ao manter a condenação do ex-BBB Felipe Prior por estupro.

Em um país historicamente marcado pela impunidade em crimes sexuais, especialmente quando o agressor é uma figura pública, a decisão reafirma um princípio básico, fama não é salvo-conduto moral. O sistema judicial não repara integralmente a dor da vítima, mas sinaliza que a sociedade não tolera mais o silêncio cúmplice nem a relativização da violência.

Em contraste com esses cenários de crise e degradação institucional, a entrega de Unidades Odontológicas Móveis pelo governo federal em Maceió pode parecer, à primeira vista, uma nota menor.

Não é. Trata-se de uma lembrança concreta de que políticas públicas também podem ser instrumentos de dignidade. Saúde bucal não é luxo; é qualidade de vida, autoestima e prevenção.

Em um país profundamente desigual, investir em serviços básicos é um gesto político tão relevante quanto enfrentar grandes escândalos, porque toca diretamente quem quase nunca aparece no centro do poder: os marginalizados.

Por fim, há o episódio aparentemente folclórico do trompetista que tocou um berrante no momento em que a caminhada do deputado Nikolas Ferreira passava por uma estrada, sob chuva. Pode soar como curiosidade de redes sociais, mas diz muito sobre o Brasil atual.

A política virou espetáculo permanente, em que símbolos, ironias e provocações ocupam o espaço que deveria ser do debate sério. O berrante, nesse contexto, ecoa mais do que uma nota musical; soa como um comentário ácido sobre a infantilização de parte de políticos em sua vida pública.

Todos esses fatos, quando observados em conjunto, apontam para o mesmo dilema, estamos vivendo uma era em que o poder testa seus próprios limites e, muitas vezes, os ultrapassa.

Nessa seara, cabe ao jornalismo, especialmente ao jornalismo crítico, recusar a anestesia do cotidiano, conectar os pontos e lembrar que democracia não é apenas votar, mas vigiar, cobrar e indignar-se.

Quando o dinheiro do aposentado vira aposta, quando crianças viram alvo, quando a violência é relativizada e quando o espetáculo substitui o objetivo principal, o silêncio deixa de ser neutralidade e passa a ser cumplicidade.

*Antonio Sérgio Neves de Azevedo, doutorando em Direito, Curitiba/PR

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

Publicação de: Viomundo

Lunes Senes

Colaborador Convidado

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *