Francisco Chagas: A virada da esperança

Por Francisco Chagas*, no Manifesto Petista

A vitória de Lula, a mobilização popular e os desafios da democracia brasileira

Uma eleição não encerra a disputa política. O voto escolhe um governo, mas não resolve, por si só os conflitos da sociedade e nem garante a realização das expectativas que produziram a vitória. A questão decisiva não é apenas quem venceu, mas o que faremos com a oportunidade aberta pelas urnas.

A vitória de Lula em 2026 expressa o confronto entre dois projetos de país. De um lado, um projeto que reconhece o papel do Estado na redução das desigualdades, na garantia de direitos, no desenvolvimento nacional e na defesa da soberania, compreendendo a democracia como participação e ampliação da cidadania. De outro, um projeto que privilegia a lógica do mercado, restringe a ação pública e tende a tratar direitos sociais como custos e desigualdades como consequências inevitáveis da ordem econômica. Essa disputa atravessa a economia, o trabalho, a comunicação, as instituições e a própria ideia de liberdade.

O resultado eleitoral, entretanto, não pode ser explicado por um único fator. A liderança de Lula, a memória dos governos anteriores, as alianças, a militância, as mobilizações públicas, a comunicação digital e as escolhas individuais se combinaram em circunstâncias concretas. O primeiro turno revelou limites, o segundo demonstrou que forças políticas podem se reorganizar. Compreender essa dinâmica é mais importante do que atribuir a vitória a uma estratégia isolada ou transformá-la em prova de infalibilidade.

A tese deste ensaio é que uma vitória eleitoral só adquire dimensão histórica quando se converte em participação democrática, ampliação de direitos e transformação concreta da realidade. A esperança não é uma recompensa recebida depois da luta, é uma decisão que exige consciência crítica, organização e responsabilidade coletiva.

1. A virada exige mais do que comemoração

O primeiro turno deveria ser lido como diagnóstico de que a identificação com uma liderança e a memória das realizações passadas não bastam para responder às inquietações do presente.

Renda, trabalho, segurança, saúde, educação, moradia e perspectivas de futuro são dimensões decisivas da experiência política.

A campanha precisou disputar não apenas informações, mas interpretações da vida cotidiana. As pessoas votam a partir de interesses, lembranças, expectativas, medos e relações de confiança. Corrigir uma informação falsa é necessário, mas nem sempre modifica uma convicção.

Apresentar dados também pode ser insuficiente quando não existe confiança em quem os transmite.

Uma das lições mais exigentes da disputa é reconhecer que a nossa interpretação da realidade nem sempre coincide com a maneira como ela é percebida por outras pessoas. A política que fala apenas para quem já concorda pode produzir entusiasmo e, ainda assim, perder capacidade de ampliar sua base social. Convencer exige escuta, argumentos e disposição para compreender dúvidas sem desprezar quem as manifesta.

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A vitória no segundo turno não apaga as dificuldades reveladas anteriormente. Ela abre a possibilidade de enfrentá-las. A autocrítica, nesse sentido, não enfraquece um projeto político: permite identificar limites, rever escolhas e preparar novas formas de diálogo com a sociedade.

2. Rede e Rua: comunicação não é organização

As redes digitais se tornaram espaços decisivos da disputa política. Vídeos curtos, humor, música, transmissões ao vivo, criadores de conteúdo, comunidades de fãs se aproximam a política de públicos que os meios tradicionais nem sempre alcançam. A experiência do chamado Exército do Lula, associado à mobilização digital organizada em torno da candidatura, ajuda a compreender essa transformação. No entanto visualizações não são votos, interação não significa necessariamente convencimento e alcance não equivale a participação. Uma mensagem pode circular intensamente sem mudar uma escolha. A questão central não é apenas quantas pessoas foram alcançadas, mas o que compreenderam, que diálogo se estabeleceu e que capacidade de ação foi criada.

A rua continua indispensável. A conversa no bairro, no local de trabalho, na universidade, no sindicato, na associação ou na porta de casa permite ouvir dúvidas e experiências que os indicadores digitais não revelam. A presença coletiva torna visível que a política não é uma atividade solitária. Rede e Rua se fortalecem quando a comunicação convoca encontros e quando esses encontros produzem confiança, argumentos e vínculos capazes de continuar para além da campanha.

A mobilização precisa dialogar com as condições concretas de vida, pois além daqueles que se motivaram pela defesa da democracia, da soberania, pela redução das desigualdades, respeito a diversidade, também participaram dessa disputa pessoas cujas trajetórias foram alcançadas por políticas como o Pé-de-Meia, o Bolsa Família, o Farmácia Popular, o ProUni entre outros. Para muitas famílias, essas iniciativas significam renda, acesso a medicamentos, permanência na escola ou oportunidade de ingressar na universidade. Não se deve reduzir a decisão eleitoral a um programa específico, mas tampouco ignorar a importância que direitos e oportunidades assumem na experiência das pessoas.

Esses públicos não formam um bloco homogêneo, nem votam de maneira automática. Suas escolhas dependem de histórias, necessidades, expectativas e avaliações distintas. A tarefa política consiste em compreender essa diversidade e demonstrar como as políticas públicas podem ampliar a autonomia, a dignidade e as possibilidades de futuro.

A comunicação democrática não se limita a repetir mensagens ou disputar atenção. Precisa conectar a experiência cotidiana a alternativas possíveis, sem abandonar os fatos nem substituir a reflexão pela propaganda. Seu valor político cresce quando ajuda as pessoas a compreender, discutir e transformar a realidade.

3. A autocrítica como força política

Uma vitória não absolve os erros de quem venceu. O primeiro turno indicou que havia públicos pouco alcançados, preocupações insuficientemente compreendidas e uma confiança excessiva na força da memória política. As conquistas do passado precisam responder às necessidades do presente, não podem substituir o enfrentamento dos problemas que permanecem.

A autocrítica não deve se transformar em caça aos culpados nem em disputa interna por prestígio. Seu objetivo é aprender. Isso exige confrontar impressões com evidências, distinguir alcance de convencimento e ouvir quem não foi convencido. Uma organização que trata toda crítica como ameaça perde a capacidade de corrigir seus rumos; outra que converte cada dificuldade em acusação se paralisa.

Essa reflexão vale para os partidos, inclusive o PT. A história sindical e popular do partido é um patrimônio político, mas não uma garantia perpétua. Só permanece vivo aquilo que se renova. A militância não pode ser convocada apenas para executar tarefas eleitorais: precisa participar da elaboração de propostas, da avaliação, das decisões e da renovação das lideranças.

A liderança é importante para dar direção e articular forças. A participação, por sua vez, amplia a inteligência coletiva e aproxima a política dos problemas reais. Sem liderança, a ação pode se dispersar; sem participação a liderança corre o risco de confundir apoio com obediência.

A democracia interna não é uma formalidade. É a condição para que uma base política pense, proponha, critique e contribua para as decisões. A vitória deve servir também para renovar a relação entre direção, militância e sociedade.

4. Da vitória à participação democrática

O voto confere legitimidade para governar, mas não é um cheque em branco. A sociedade permanece plural, e a democracia exige prestação de contas, diálogo e possibilidade de crítica. A participação popular precisa existir entre as eleições, nos territórios, nos conselhos, nos sindicatos, nos movimentos sociais e nos espaços em que as políticas públicas afetam a vida cotidiana.

Ouvir a sociedade só tem sentido quando a escuta pode influenciar decisões ou quando os limites de uma escolha são explicados com transparência. Nem toda demanda poderá ser atendida imediatamente, mas as legítimas merecem consideração e resposta. Participação não pode ser um ritual destinado a legitimar decisões já tomadas.

Os movimentos sociais também não são extensões automáticas do governo. Sua autonomia é parte da democracia. Podem defender conquistas, pressionar por avanços e denunciar contradições. Um governo comprometido com o povo não se fortalece exigindo silêncio de quem o apoia, mas criando condições para que a crítica responsável contribua para melhorar as políticas e ampliar direitos.

É no cotidiano que a democracia revela seu conteúdo. A qualidade do SUS, da escola pública, do transporte, da moradia e da segurança, assim como o acesso à renda, à cultura e ao trabalho digno, influencia a maneira como as pessoas experimentam o Estado. As instituições ganham credibilidade quando os direitos deixam de ser promessas abstratas e se tornam realidade.

Transformar a energia eleitoral em participação permanente é, portanto, um desafio para o governo, os partidos e a sociedade. O povo não deve ser chamado apenas para escolher representantes ou defender decisões prontas. Precisa ter condições reais de participar da definição dos rumos coletivos.

5. Juventude, mulheres e diversidade social: uma maioria que precisa se reconhecer

Nenhuma maioria eleitoral é socialmente uniforme. A mobilização envolve pessoas com experiências, necessidades e expectativas diferentes. Juventude, mulheres, trabalhadores, beneficiários de políticas públicas, moradores das periferias e populações de diferentes regiões participam da vida política a partir de condições concretas, que não podem ser reduzidas a estereótipos.

A juventude trouxe linguagens, repertórios culturais e formas de circulação digital que alteraram a dinâmica da campanha. Mas não existe uma juventude única, assim como não há uma opinião uniforme entre mulheres, trabalhadores ou beneficiários de programas sociais. As condições de trabalho, estudo, renda, segurança e acesso à cultura interferem de maneiras distintas nas escolhas políticas.

A participação das mulheres, por exemplo, está ligada não apenas à representação, mas também à autonomia econômica, ao cuidado, à segurança, aos serviços públicos e à divisão do trabalho. Para os jovens, educação, emprego, mobilidade e perspectivas de futuro podem definir a distância ou a aproximação em relação à política. Para as famílias de baixa renda, a estabilidade material e a possibilidade de ascensão social são questões imediatas.

O Nordeste tem importância histórica na formação das maiorias eleitorais de Lula, mas a região não deve ser tratada como uma realidade homogênea. A relação entre memória política, políticas públicas, identidade e expectativas precisa ser compreendida sem simplificações. Isso vale para outras regiões e segmentos sociais.

A presença de diferentes grupos numa campanha é um começo, não uma garantia de participação efetiva. O desafio é transformar diversidade em capacidade de decisão, incorporando experiências distintas à elaboração das políticas e à construção de um projeto comum. Uma maioria se torna mais consistente quando as pessoas reconhecem suas diferenças, identificam interesses compartilhados e encontram espaço para agir.

6. A disputa de hegemonia: construir uma maioria social

A disputa política não acontece apenas nas eleições. Ela atravessa o trabalho, a escola, a família, os meios de comunicação, as redes digitais e as ideias que a sociedade passa a considerar naturais. O poder também se sustenta na capacidade de definir o que parece possível, justo ou inevitável.

Por isso, uma maioria eleitoral não se transforma automaticamente em maioria social organizada. Essa passagem exige construir interpretações da realidade que relacionem experiências individuais a problemas coletivos e apontem alternativas capazes de mobilizar interesses diversos.

Não basta repetir palavras de ordem ou desqualificar quem pensa diferente. É necessário compreender por que determinadas ideias conquistam adesão, como as pessoas interpretam suas dificuldades e quais experiências podem ampliar a confiança na ação coletiva. O diálogo não significa renunciar a convicções, mas colocá-las à prova da realidade e construir argumentos que possam ser compartilhados.

A hegemonia democrática nasce da combinação entre ideias, organização, cultura e experiência concreta. Uma política que promete igualdade, mas não enfrenta desigualdades; que defende participação, mas não escuta; ou que fala em soberania sem ampliar a capacidade nacional de decidir seus rumos compromete a própria credibilidade.

Construir uma maioria social duradoura significa ligar o discurso às práticas, as políticas públicas às necessidades populares e a liderança à participação. Não se trata de eliminar diferenças, mas de construir um horizonte comum no qual a maioria possa reconhecer sua capacidade de transformar o país.

7. Um projeto de país: soberania, desenvolvimento e justiça social

A esperança precisa de conteúdo. A soberania significa a capacidade de o Brasil definir suas prioridades, proteger seus recursos estratégicos, desenvolver ciência e tecnologia e decidir seus próprios rumos. Mas não pode permanecer como abstração diplomática: seu sentido está em ampliar direitos, oportunidades e bem-estar para a população.

Isso exige enfrentar a dependência tecnológica, fortalecer a capacidade produtiva e preparar o país para as transformações do trabalho. Reindustrializar não é reconstruir mecanicamente o passado, mas articular inovação, formação profissional, sustentabilidade e empregos de qualidade. A inteligência artificial e as plataformas digitais tornam ainda mais urgente desenvolver conhecimento, regular tecnologias e proteger dados, direitos e condições de trabalho.

O desenvolvimento só tem sentido democrático quando reduz desigualdades e distribui seus benefícios. Isso implica fortalecer os serviços públicos, ampliar oportunidades, enfrentar as desigualdades de classe, raça, gênero e território e garantir que o lugar de nascimento ou a renda familiar não determinem o acesso a direitos fundamentais.

A transição ecológica também deve fazer parte desse projeto. Proteger os biomas, desenvolver fontes limpas de energia e preparar cidades e comunidades para os efeitos das mudanças climáticas são tarefas inseparáveis da justiça social. Os custos e benefícios dessa transformação não podem recair sempre sobre os mesmos grupos.

Educação, ciência e cultura são condições para que o país produza conhecimento, amplie a autonomia de seu povo e participe das mudanças mundiais sem se subordinar passivamente a interesses externos. A soberania nacional ganha força quando a população tem acesso às ferramentas materiais e intelectuais necessárias para participar das decisões.

Existem limites fiscais, institucionais e produtivos, além de conflitos entre interesses legítimos e interesses concentrados. Reconhecê-los não elimina a necessidade de escolhas políticas; torna ainda mais importante explicitar prioridades, custos e beneficiários. A pergunta decisiva é a quem serve o desenvolvimento e quem participa da definição de seus rumos.

Um projeto de país democrático precisa unir soberania e justiça social. Não basta que o Brasil seja capaz de produzir mais: é preciso que essa capacidade se converta em liberdade, dignidade, oportunidades e melhores condições de vida para seu povo.

8. Esperança organizada: a responsabilidade de construir o futuro

A história não está inteiramente sob nosso controle, mas tampouco é um destino fechado. Agimos em circunstâncias herdadas, enfrentamos relações de força e convivemos com contradições que não desaparecem por vontade. Ainda assim, as instituições podem mudar, os interesses podem se reorganizar e as pessoas podem construir alternativas.

É nesse espaço entre os limites do presente e as possibilidades do futuro que situo a esperança. Ela não é otimismo ingênuo, promessa de vitória garantida ou espera por uma solução que venha de cima. É a disposição de reconhecer as dificuldades sem aceitá-las como destino e de transformar a reflexão em ação.

A condição humana é histórica, relacional e contraditória. Criamos instituições que podem proteger direitos e reproduzir dominação; produzimos conhecimento que amplia a liberdade e pode ser usado para controlar; construímos solidariedade enquanto convivemos com exclusões. Enfrentar essas contradições exige pensamento crítico, organização e capacidade de aprender com a experiência.

A esperança organizada não deposita todo o futuro numa liderança, num governo ou num partido. Depende de pessoas capazes de avaliar resultados, construir alianças, formular propostas e intervir nas decisões. O povo não deve ser chamado apenas para defender um projeto pronto, mas para participar de sua elaboração e acompanhar sua realização.

É assim que a vitória eleitoral pode se transformar em responsabilidade histórica: quando a mobilização não termina com a apuração dos votos, quando a crítica contribui para corrigir os rumos e quando a democracia amplia a capacidade coletiva de decidir.

A esperança como compromisso com o Brasil

A vitória de Lula abre uma possibilidade, mas não determina o que faremos com ela. A liderança pode dar direção, a comunicação pode ampliar o alcance e a mobilização pode produzir presença. Nenhuma dessas forças, isoladamente, substitui a organização democrática. O desafio é converter a energia eleitoral em participação duradoura, ampliação de direitos e transformação concreta da vida.

Isso exige partidos abertos ao debate, governos dispostos a prestar contas, movimentos sociais autônomos e cidadãos com condições reais de influenciar decisões. Exige também um projeto de país que articule soberania, desenvolvimento, liberdade e justiça social.

Escrevo este ensaio porque a política precisa preservar a coragem de pensar, inclusive contra as próprias certezas. Sem pensamento crítico, a esperança vira propaganda; sem organização, vira espera; sem ação, perde sua força transformadora.

A esperança com a qual estou comprometido é aquela que imagina e pavimenta um futuro de Brasil democrático, justo, livre e soberano. Não se trata de esperar que esse futuro apareça pronto, mas de trabalhar para construí-lo. Imaginar é recusar que as desigualdades e as limitações do presente sejam eternas. Pavimentar é transformar essa possibilidade em ação política, organização popular, participação cidadã e políticas públicas capazes de mudar a realidade.

É nesse sentido que compreendo a vitória eleitoral: não como ponto de chegada, mas como oportunidade e responsabilidade histórica. O futuro não pertence exclusivamente aos governantes, aos partidos ou às lideranças. Sua construção depende também das pessoas comuns, de sua capacidade de se reconhecerem como sujeitos da história e de agir coletivamente.

Não ignoro os obstáculos nem considero a vitória antecipadamente garantida. Mas recuso a resignação. A esperança em que acredito não elimina as contradições: mobiliza forças para enfrentá-las e abrir caminhos para uma vida coletiva mais digna.

O futuro não está pronto à nossa espera. Está em disputa.

E meu compromisso é contribuir para pavimentar o caminho de um Brasil democrático, justo, livre e soberano.

*Francisco Chagas é cientista político, vice-presidente do PT São Paulo, foi deputado federal e vereador em Sâo Paulo pelo PT

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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Publicação de: Viomundo

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