Trump afirma sem prova que eleição no Brasil pareceu fraudada

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira, 26 de outubro, que a eleição brasileira lhe pareceu “manipulada” e “muito corrupta”, sem apresentar provas, e chamou de “muito estranha” a prorrogação do horário de votação autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin. A declaração foi rebatida pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), que falou em interferência e defendeu a soberania brasileira.

Em conversa com repórteres antes de deixar Washington, Trump disse que não tomou partido, mas que o pleito “pareceu mais uma eleição manipulada” e “algo tão corrupto, tão terrível”. Questionado se pretendia agir sobre o Brasil, respondeu: “Eu não estou concorrendo no Brasil. Eu estou concorrendo nos EUA.” Em seguida, elogiou Lula: “Gosto do Lula. Me dou muito bem com ele, mas a prorrogação concedida foi muito estranha.”

Alckmin respondeu em entrevista à Rede Vanguarda. “Totalmente equivocada. Primeiro, não se interfere na política de outro país. Essa é uma regra basilar. Segundo, não tem nenhum referencial pra dizer isso. Aliás, o Brasil é um exemplo pro mundo. De urna eletrônica, de segurança jurídica. Democracia é assim. Você ganha eleição, você perde a eleição, é o povo que decide”, afirmou.

O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, disse à GloboNews que Trump “está mal informado” e que a declaração é “contraditória”. “Depois diz que gosta do Lula”, afirmou o diplomata.

A prorrogação criticada por Trump foi decidida por Zanin no domingo, 25, e estendeu a votação até as 19h em cidades com falhas no transporte público. A medida foi pedida pelas campanhas de Lula e de Flávio Bolsonaro ao STF e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), segundo a GZH. Não houve alteração no resultado: o TSE confirmou a vitória de Lula com 51,79% dos votos válidos, o equivalente a 64.256.232 votos, contra 48,21% e 59.826.041 votos de Flávio Bolsonaro.

A decisão de Zanin foi motivada por relatos de eleitores que não conseguiram chegar às seções. O prazo final foi fixado em 19h, sem mudança no horário de abertura. Mesmo com a prorrogação, a apuração terminou na noite de 25 e confirmou a vitória de Lula.

A fala de Trump veio depois de líderes europeus e latino-americanos parabenizarem Lula. O presidente da França, Emmanuel Macron, o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reconheceram o resultado. Trump e o presidente da Argentina, Javier Milei, ficaram em silêncio nas primeiras horas.

A fala de Trump repete o roteiro de questionamento às urnas que marcou a campanha do senador derrotado. Flávio Bolsonaro não reconheceu o resultado e anunciou que pedirá a cassação da chapa de Lula, alegando “abuso do poder político e econômico”. A ofensiva ocorre depois de o TSE ter proclamado o resultado e de o presidente eleito ter obtido mais de 4,4 milhões de votos de vantagem.

O episódio expõe o paradoxo da relação entre os dois países. Trump diz gostar de Lula e manter boa convivência com o presidente brasileiro, mas endossa o discurso de fraude que alimenta a contestação da oposição. A fala também contrasta com o silêncio do republicano nas horas seguintes à vitória, quando líderes de todo o mundo parabenizaram o brasileiro.

Para o governo brasileiro, a declaração é uma intromissão em assunto interno. A relação entre Estados Unidos e Brasil tem mais de 200 anos, e o caminho defendido pelo governo é a negociação, não o questionamento do resultado. “O Brasil é um exemplo pro mundo”, disse Alckmin.

A resposta brasileira veio de Alckmin e Amorim, mas também das urnas. Lula foi reeleito para o quarto mandato com 64,2 milhões de votos, e o TSE proclamou o resultado. O recado é claro: quem decide a eleição brasileira é o eleitor brasileiro.

O Blog do Esmael acompanha os desdobramentos da posse, a relação com os Estados Unidos e as tentativas da oposição de contestar o resultado.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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