Pesquisas erraram ou não captaram o movimento das ruas

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proclamou às 21h08 de 25 de outubro a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT): 51,79% dos votos válidos, 64.256.232 votos, contra 48,21% e 59.826.041 votos de Flávio Bolsonaro (PL). A diferença de 3,58 pontos desmentiu o placar que a maioria das pesquisas desenhava na véspera. Das 12 rodadas divulgadas em 23 e 24 de outubro, dez davam Flávio Bolsonaro numericamente à frente.

Quem havia formulado a pergunta decisiva, antes de as urnas fecharem, foi Ogarito Linhares, diretor da Rádio Ilha do Mel FM, de Paranaguá, convidado da Superlive do Blog do Esmael. “Na prática mesmo, é na abstenção que a coisa vai se definir”, disse ele, depois de passar a madrugada cruzando os números dos institutos.

Ogarito não tratava o empate técnico como sentença. “Todas elas, essas que nós estamos falando, dos últimos quatro dias, estão muito, muito próximas do empate na margem de erro”, afirmou, sobre as rodadas finais. “Quem aparece seguidamente com vantagem numérica é um indicativo probabilístico de que essa vantagem seja real. Agora, a margem de erro cria espaços.” Em seguida, fez a ressalva que a apuração confirmaria: “Você tem um favoritismo do Flávio, mas tem dados que normalmente indicariam a possibilidade de um crescimento no último dia do oponente.”

Os números do desvio estão no levantamento das pesquisas da véspera publicado pelo Blog do Esmael. O Datafolha, com 4.050 entrevistas e margem de dois pontos, marcou 51% a 49% para Flávio Bolsonaro, no registro BR-09540/2026. A Quaest, com 3.702 entrevistas e a mesma margem, repetiu 51% a 49%, no BR-09158/2026. O resultado final ficou 2,79 pontos distante do previsto para cada candidato, acima da margem que os dois institutos declararam.

O erro se repete nas demais rodadas. A AtlasIntel trabalhou com a menor margem, de um ponto, e apontou 50,8% a 49,2% para Flávio Bolsonaro. A Gerp e a Real Time Big Data registraram o maior afastamento: 52% a 48%. Nenhuma delas antecipava uma vitória de Lula por 3,58 pontos. Apenas duas rodadas, Colectta e Vox Brasil, davam Lula à frente, por 0,6 e 1,2 ponto, respectivamente.

Pesquisas erraram ou não captaram o movimento das ruas
Foto: reprodução/Blog do Esmael

Convém separar o erro de aritmética do erro de leitura. Dentro da margem, empate técnico não significa previsão de empate nem promessa de vitória do líder numérico. Significa que a diferença medida é menor do que o ruído da amostra. Os títulos que falaram em empate estavam tecnicamente corretos. O que faliu foi a interpretação que converteu incerteza em sentença.

E faliu no ponto em que a estatística encontra a política. Em 24 de outubro, o Datafolha separou os entrevistados por propensão a comparecer. Entre os eleitores de alta propensão, Flávio Bolsonaro vencia por 52% a 48%. Entre os de propensão média ou baixa, Lula vencia pelo mesmo 52% a 48%, conforme a tabulação discutida na Superlive. O instituto mediu o fenômeno. A campanha e a imprensa leram apenas a primeira metade da tabela.

Os números oficiais mostram o que houve com a segunda metade. A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,21% no segundo, a maior queda entre turnos desde a redemocratização, segundo a apuração. Foram 30.463.758 ausentes, contra 33.469.244 na primeira rodada. Cerca de 3 milhões de eleitores a mais compareceram, e brancos e nulos recuaram de 4,77% para 3,24%, o menor patamar desde a redemocratização. O Blog do Esmael já havia apontado a abstenção como alvo central do segundo turno em 15 de outubro e mostrado, em 23 de outubro, que 33,4 milhões de eleitores haviam faltado ao primeiro turno.

Esse contingente não era abstração estatística. Era o eleitor que as pesquisas classificavam como pouco provável de sair de casa e que saiu. Mauro Paulino, ex-diretor do Datafolha, descreveu a virada em entrevista. Entre os eleitores de 16 a 24 anos, o instituto registrava 50% a 43% para Flávio Bolsonaro no início de outubro e, na pesquisa final, 47% a 42% para Lula. Na faixa de 25 a 34 anos, Flávio Bolsonaro caiu de 50% para 47% enquanto Lula subiu de 42% para 46%. No eleitorado de renda média sem fidelidade partidária, o senador recuou de 45% para 40%.

Paulino também disse o que os críticos dos institutos preferiram ignorar. Para ter certeza estatística confortável, afirmou, Lula precisaria cruzar a pesquisa de véspera com cerca de dois pontos de vantagem. Não cruzou. A vitória existia como tendência, não como certeza. A frase seguinte explica o restante: a disposição de comparecer não é característica imóvel do eleitor e muda com medo, esperança e percepção de risco.

A transmissão do Blog do Esmael registrou esse movimento antes de qualquer urna fechar. Elder Boff, do Fonte Extra, relatou que, ao votar ao meio-dia em Santa Helena, no oeste do Paraná, sua seção já registrava quase 60% de comparecimento, sem fila. Convidados relataram idosos com bengala e cadeira de rodas nas seções, eleitores que o modelo tratava como ausentes prováveis. Em Curitiba, a caminhada de 18 de outubro havia reunido, segundo a organização, mais de 50 mil pessoas.

Nas redes, o canal Exército do Lula, administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), terminou a campanha com mais de 10 milhões de participantes, segundo apuração do Blog. Lula chamou Janones de “nosso general” no discurso da vitória. A combinação entre rua e rede apareceu na fala de todos os analistas da Superlive como explicação do que as pesquisas não captaram.

A crítica mais dura veio de dentro da própria transmissão, quando o resultado ainda era parcial. O professor e jornalista Valdir Cruz foi direto: “Acho que os institutos de pesquisa vão errar feio por causa da grande polarização.” O advogado e professor Daniel Godoy Júnior chamou de salomônica a postura de Quaest e Datafolha e disse que a equidistância servia para “preservar interesses, preservar contratos futuros e relações”. O editor do Blog do Esmael, Esmael Morais, resumiu o placar que se desenhava: “Vai ser uma desmoralização fragorosa de todos os institutos de pesquisa.”

Essa tese é opinião, não evidência. Nada no que foi apurado mostra coordenação entre institutos para produzir empate. O que existe é método padronizado, com margens declaradas, e um erro de leitura coletivo que transformou “não dá para saber” em “Flávio Bolsonaro deve vencer”. A diferença importa porque a primeira explicação pede revisão de metodologia e a segunda pede tribunal.

Do outro lado do balcão, a crítica vem na direção oposta. Parte dos institutos de pesquisa classificou como fraude a ponderação por comparecimento. Segundo ele, fazer ponderação em pesquisas sobre quem vai votar ou não é fraude. “Abstenção é imprevisível, portanto, não se pode considerar”, entendiam. O raciocínio tem lógica interna: se o pesquisador ajusta o peso dos entrevistados pela chance de comparecer, pode empurrar o resultado para onde quiser.

O problema é que ignorar o comparecimento também é uma escolha, e ela custou caro nesta eleição. Quem não modela quem vai votar acaba tratando intenção declarada como voto depositado. Foi essa a distância que separou 51% a 49% de 48,21% a 51,79%.

A conta política já está sendo feita. Flávio Bolsonaro anunciou que não reconhece o resultado e que pretende pedir a anulação do pleito, questionando a prorrogação da votação decidida pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF). O erro das pesquisas virou munição de um discurso que dispensa método: basta a suspeita.

Para o leitor, sobra um aprendizado prático. Pesquisa eleitoral é fotografia do presente, não prognóstico. Quando a margem de erro supera a diferença, o dado honesto é a incerteza. Quando a abstenção varia quase dois pontos entre turnos, essa variação vale mais que qualquer curva de intenção de voto. E quando um instituto publica recorte por propensão a comparecer, é ali que está a informação decisiva, não no placar de capa.

Os institutos precisarão explicar por que a variável mais decisiva de 2026 apareceu em nota de rodapé. A imprensa que os reproduziu precisará explicar por que trocou “empate técnico” por favoritismo. O eleitor, que compareceu 3 milhões de vezes a mais que no primeiro turno, já respondeu nas urnas.

Acompanhe a cobertura pós-eleitoral, os bastidores da apuração e as análises sobre o novo governo no Blog do Esmael.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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