O senador Sergio Moro (PL), candidato ao governo do Paraná, encontrou um jeito peculiar de acompanhar o comício do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em Curitiba: ficou atrás do “toco”, no tradicional Bar Stuart, na Praça Osório, a cerca de 50 metros do palanque instalado na Boca Maldita, onde mais de 20 mil pessoas participaram do ato na manhã deste sábado (12).
Enquanto Lula discursava para a multidão, Moro permaneceu no flanco direito da Boca Maldita, protegido pelo balcão do Stuart. Curioso que é, o ex-juiz da Lava Jato, que construiu sua trajetória política em oposição frontal ao petista, não precisou entrar no meio da multidão para ouvir o adversário.
No Stuart, Moro encontrou Messias Obama e o marqueteiro Helisson Schiavinato para um animado chope. A cena acrescentou uma pitada de ironia ao roteiro eleitoral: enquanto Lula falava a poucos metros sobre a disputa pelo Paraná, o candidato adversário acompanhava a movimentação de um ponto privilegiado para quem prefere assistir sem necessariamente aparecer.
A distância era pequena. O contraste político, enorme.
Lula não pronunciou o nome de Moro em seu discurso, mas fez uma referência direta ao adversário paranaense ao dizer que, no estado, havia “um candidato que não vale o que come”. Em outro trecho, chamou seu adversário de “muito frouxo” e “muito mentiroso” e afirmou: “Eu sou vítima da mentira dele”.
A fala veio acompanhada de outra acusação política: segundo Lula, o adversário teria sido “acobertado pela imprensa nacional que quase fez ele virar Deus”. O presidente também retomou a narrativa de que ficou 580 dias preso em razão de uma condenação que posteriormente foi anulada, perguntando novamente onde estavam a chácara e o apartamento do Guarujá atribuídos a ele no processo da Lava Jato.
A deputada Gleisi Hoffmann, candidata ao Senado pelo PT, foi ainda mais direta na descrição. Sem citar Moro pelo nome, chamou-o de “aquele algoz desqualificado” e disse que se tratava de “um juiz que roubou para lhe colocar injustamente na cadeia”, numa referência ao papel exercido pelo então juiz Sergio Moro nos processos que levaram Lula à prisão.
A candidata também atacou a candidatura do ex-juiz ao Palácio Iguaçu. Segundo Gleisi, Moro “não quis nem ser candidata ao Senado pelo Paraná primeiro, foi buscar São Paulo”, além de afirmar que ele “não conhece o estado” e faz “um discurso fácil”.
A primeira-dama Janja Lula da Silva preferiu não pronunciar o nome do ex-juiz. Ao recordar a vigília Lula Livre em Curitiba durante os 580 dias de prisão do presidente, disse: “Eu não vou citar aqui o nome do algoz dele, é tudo o que ele quer, não vou citar”. Na mesma fala, afirmou que o movimento deveria mostrar resistência e levar Requião Filho ao segundo turno.
Requião Filho também entrou no assunto por alusão. Ao falar dos adversários, mencionou “caçadores de marajá” e “juízes justiceiros como Witzel”, numa crítica à tradição política de candidatos que, segundo ele, têm discurso sem coerência ou história.
Assim, o curioso episódio do Bar Stuart ganhou um roteiro próprio. Moro estava a poucos passos do palanque que atacava sua candidatura e sua trajetória na Lava Jato, mas escolheu o “toco” como posto de observação. Lula falava para uma multidão; o candidato do PL, para quem estava à mesa.
O detalhe talvez seja ainda mais saboroso porque o discurso presidencial não poupou a referência ao adversário. Moro não precisou atravessar a rua para ouvir Lula dizer que ele era mentiroso, frouxo e que não “valia o que come”. Bastou ficar atrás do toco.
Na campanha eleitoral, há quem suba no palanque, há quem fique na plateia e há quem prefira o Bar Stuart. Neste sábado, Moro escolheu a terceira opção.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
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