Ratinho escanteia cabeças-brancas e perde memória política no Paraná

Ratinho Junior nesta segunda-feira (22) com a sucessão do Paraná atravessada por ruídos internos, disputa por espaços e perda de escuta política; a leitura no entorno do Palácio Iguaçu é que o governador trocou operadores experientes por vozes mais novas, e a conta aparece na feira palaciana.

O governador Ratinho Junior (PSD) começou o segundo mandato com um núcleo de operadores que conhecia prefeitura, Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), partidos, secretariado, interior e caixa do Estado. Agora, na reta da sucessão de 2026, o problema não é apenas quem fala mais perto do governador. É quem deixou de ser ouvido quando a eleição passou a exigir costura fina.

A tese que circula no meio político é direta: Ratinho Junior escanteou os chamados “cabeças-brancas” e passou a operar com neófitos no Paraná. A consequência aparece na fragmentação do grupo palaciano, na dificuldade de pacificar aliados e na multiplicação de movimentos que mais dividem do que organizam a base governista.

João Ortega continua como chefe da Casa Civil, cargo que ocupa desde a recondução no início do segundo mandato. Norberto Ortigara, idem, segue como secretário de Estado da Fazenda. Portanto, a defenestração apontada no bastidor não é necessariamente de Diário Oficial. É de centralidade política.

Essa diferença importa porque Ortega e Ortigara não são figuras decorativas. Ortega carrega a chave da Casa Civil, que deveria ser o filtro político e administrativo do governo. Ortigara controla a leitura fiscal, que mede o que cabe no orçamento, o que vira promessa e o que pode estourar na mão de prefeitos, deputados e candidatos.

No mesmo campo da memória política, Renato Adur e Orlando Pessuti representam o MDB que conhece a máquina pública e a geografia eleitoral do Paraná. Adur é vice-presidente estadual do MDB, enquanto Pessuti foi governador do Paraná, vice-governador e deputado estadual por cinco mandatos. Não se trata de saudosismo. Trata-se de saber quem ainda reconhece o mapa antes de o carro entrar na curva.

O ruído cresceu porque a sucessão deixou de ser uma operação linear. Ratinho Junior escolheu Sandro Alex (PSD) para disputar sua sucessão, segundo o Blog do Esmael, e o próprio PSD passou a vender o vínculo entre governador e pré-candidato como principal ativo eleitoral. Em maio as inserções do partido reforçam esse elo.

A escolha de Sandro Alex organizou uma parte da arena, mas abriu outra frente de atrito. O grupo palaciano precisa acomodar governo, Senado, Assembleia, MDB, Republicanos, prefeitos, base municipal e aliados que esperavam contrapartida por oito anos de adesão. Sem os operadores que conhecem cada ferida antiga, a promessa de unidade vira slogan antes de virar acordo.

Publicitário Jorge Gerez, marqueteiro de Ratinho, nega dedo do governador, mas não nega campanha bolsonarista. Foto: Reprodução
Publicitário Jorge Gerez, marqueteiro de Ratinho, causou a queda do secretário Cleber Matta. Foto: Reprodução

Não é de somenos que o Palácio Iguaçu também sofreu, hoje, uma importante baixa a quatro meses das eleições. Caiu o secretário da Comunicação, Cleber Matta, considerado um general da mídia, que, segundo ele disse ao Blog do Esmael, ocupará a diretoria de relações institucionais da EPTV, afiliada Globo, em São Paulo.

Para o Centro Cívico, a defenestração de Matta entra na conta do marqueteiro argentino Jorge Gerez, que cuida da campanha de Sandro Alex. O publicitário, dono da Lua Propaganda, defende o estilo “unidos e em paz” a despeito de o cenário político paranaense lembrar a terceira guerra mundial.

A disputa pelo Senado é o ponto mais sensível. Quando nomes surgem sem pactuação prévia, a mensagem enviada a aliados é de improviso. Quando a base recebe pesquisas, balões de ensaio e conversas paralelas antes de receber uma mesa política, o resultado é desconfiança. O Palácio Iguaçu deixa de coordenar e passa a administrar ressentimentos.

O caso do MDB é exemplar. Rafael Greca (MDB) lançou sua pré-candidatura ao governo do Paraná no último sábado (20), na Sociedade Thalia, em Curitiba. O ato deu ao partido palanque próprio e reduziu a margem de manobra de Ratinho Junior sobre uma legenda que esteve no arco de sustentação do governo, mas que agora também calcula espaço próprio em 2026.

A leitura editorial é que Ratinho Junior enfrenta a contradição típica de governos muito personalistas. Enquanto a popularidade do governador organiza a propaganda, a ausência de mediação experiente desorganiza a política olho no olho, que é justamente onde se decide apoio de prefeito, tempo de campanha, chapa proporcional e voto de Senado.

O Palácio Iguaçu ainda tem força, máquina e vitrine administrativa. Mas força sem escuta vira imposição. Máquina sem memória vira fila. Vitrine sem acordo vira disputa por reflexo.

O risco para Ratinho Junior não é perder todos os aliados de uma vez. O risco é chegar às convenções com aliados formalmente juntos, mas politicamente contrariados. Em eleição majoritária, esse tipo de rachadura raramente aparece no primeiro discurso. Costuma aparecer na urna, no segundo voto e no silêncio dos cabos eleitorais.

A sucessão de 2026 no Paraná, portanto, não será decidida apenas entre Sandro Alex, Sergio Moro, Requião Filho e Rafael Greca. Ela também será decidida dentro do próprio grupo de Ratinho Junior, entre a memória técnica que foi deixada na lateral e a nova mesa que tenta comandar a feira palaciana sem conhecer todos os preços.

Acompanhe a cobertura da sucessão no Paraná no Blog do Esmael e envie informações, documentos e registros públicos sobre os bastidores do Palácio Iguaçu.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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