A investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra o Brasil segue de pé e mantém o Pix dentro do alvo oficial de Washington. Na página da Seção 301, a Representação Comercial dos Estados Unidos (USTR) lista expressamente “serviços de comércio digital e pagamento eletrônico”, e o relatório de política comercial divulgado em fevereiro deste ano registra, de forma literal, que o processo sobre o Brasil continua em andamento.
A Seção 301 é o instrumento usado pelo governo dos Estados Unidos para apurar se atos, políticas ou práticas de outro país seriam “injustificáveis, irracionais ou discriminatórios” e se restringiriam o comércio americano. Ao manter pagamentos eletrônicos no escopo do caso brasileiro, Washington eleva o Pix de inovação doméstica a tema de disputa comercial.
O tamanho do Pix ajuda a explicar a pressão do governo Donald Trump. O Banco Central informa mais de 170 milhões de pessoas físicas usuárias, mais de 7 bilhões de transações em janeiro de 2026 e participação de 54,7% nas transações de pagamento do segundo semestre de 2025. Quando um sistema com essa escala entra formalmente numa investigação comercial dos EUA, o centro da briga deixa de ser apenas técnica regulatória e passa a tocar soberania financeira, mercado e poder sobre a infraestrutura do dinheiro cotidiano.
O Brasil já reagiu nesse terreno. Em agosto de 2025, contestou a legitimidade da investigação e sustentou que o Pix não discrimina empresas estrangeiras. Na mesma linha, o Banco Central afirmou que o sistema não é uma ameaça às companhias privadas de pagamento, mas uma infraestrutura pública neutra voltada a eficiência, inclusão e competição.
No front político, a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR), que deixou a Secretaria de Relações Institucionais no início deste mês, afirmou nas redes sociais que “a história se repete” e acusou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de ficar “do lado das empresas de cartão de crédito dos Estados Unidos”. A fala é dela, não consta de documento oficial americano, mas mostra que o caso já saiu da esfera técnica e entrou na disputa política brasileira.
O problema para o Brasil é claro. Quando os Estados Unidos mantêm sob investigação um sistema público que reorganizou pagamentos, reduziu atrito nas transações e ganhou capilaridade nacional, a mensagem não é lateral. É pressão sobre um pedaço estratégico da autonomia econômica brasileira. O Pix virou mais que meio de pagamento. Virou ativo de soberania.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
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