Marcelo Zero: Decifrando a esfinge Trump via Mcklinley

Trump, McKinley e a desastrada volta ao Imperialismo do século XIX

(Decifrando a Esfinge Trump)

Por Marcelo Zero*

Em seu primeiro dia do seu segundo mandato, Trump tomou uma decisão, que embora apenas simbólica, é reveladora do seu modo de pensar os EUA e seu papel no mundo.

Ele mandou mudar o nome do ponto culminante da América do Norte de “Denali” (o nome que o povo nativo do Alaska lhe havia atribuído) de novo para Mount McKinley, o nome que os brancos anglo-saxônicos haviam usado durante décadas. Ademais, Trump mencionou, com ênfase muito elogiosa, McKinley em seu discurso de posse.

Mas, afinal, quem foi McKinley?

Willian McKinley, nome pouco conhecido internacionalmente, foi o vigésimo-quinto presidente dos EUA.

Governou aquele país de 4 de março de 1897 até o seu assassinato, em 14 de setembro de 1901, já no início do seu segundo mandato. Foi sucedido por Teddy Roosevelt, também republicano, que deu continuidade às suas políticas.

Trump admira McKinley por vários motivos.

Em primeiro lugar, porque McKinley foi, do ponto de vista econômico e comercial, bastante protecionista e advogava que a industrialização dos EUA demandava uma política tarifária dura e drástica.

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Em 1890, ainda na condição de Representative, McKinley conseguiu aprovar a famigerada “Tarifa McKinley”, a qual elevou a gravação tarifária média dos EUA para produtos importados a espantosos 50% (lembra alguma coisa, não?).

Mas tal “tarifaço” acabou tornando-se polêmico. Houve considerável elevação dos preços para consumidores e, ademais, vários países (como o Reino Unido, por exemplo) responderam com retaliações semelhantes, o que veio a agravar a situação econômica.

Os Republicanos acabaram perdendo as eleições seguintes e a “Tarifa McKinley” foi substituída pela Lei Tarifária Wilson-Gorman de 1894, que intentou reduzir o tarifaço de McKinley e, além disso, procurou implantar o primeiro imposto de renda em tempos de paz (tinha havido um imposto de renda nos tempos da Guerra Civil).

 O Senado, contudo, apresentou mais de 600 emendas ao projeto, as quais mantiveram muitas tarifas bastantes elevadas; e o imposto de renda foi declarado inconstitucional pela Suprema Corte, em 1895. O imposto de renda nos EUA, lembre-se, só foi efetivamente criado em 1913, via a aprovação da 16ª emenda à Constituição.

O fato é que McKinley, cujo apelido entre os Republicanos era “Tariff Man”, assim que se tornou presidente, em 1897, assinou o Dingley Act, lei que restabeleceu, na essência, o tarifaço anterior.

Em segundo lugar, Trump admira McKinley porque ele foi um presidente, no campo internacional, francamente expansionista e imperialista.

Sob sua gestão, os EUA derrotaram a Espanha na Guerra de 1898 (Guerra Hispano-Americana) e conseguiram se apropriar das antigas colônias espanholas de Guam, Filipinas e Porto Rico.

Também na sua gestão, os EUA estabeleceram um protetorado sobre Cuba, anexaram o Havaí, começaram a explorar a possibilidade de construir um canal através da Nicarágua (posteriormente, Panamá) e compraram territórios da Dinamarca no Caribe (as atuais Ilhas Virgens Americanas), em troca do reconhecimento da soberania desse país sobre a Groenlândia, uma ironia da História.

É óbvio que os EUA, quando McKinley chegou ao poder, já possuíam, por assim dizer, vasta experiência em expansionismo, exploração e colonialismo.

Mas o ano de 1898 marcou forte inflexão imperial na política externa dos EUA.

Como destacou Harshit Prajapati em recente artigo, “em questão de meses, os Estados Unidos derrubaram um império europeu, adquiriram mais de 7.000 ilhas a mais de 11.000 quilômetros da costa da Califórnia e se tornaram instantaneamente uma potência do Pacífico”.

Ademais, salientamos nós, os EUA, sob McKinley se tornaram praticamente “os donos” efetivos, territoriais, do Caribe e da América Central.

Depois de McKinley, o número de militares americanos jamais voltaria a ser inferior a 100.000.

Woodrow Wilson refletiu, uma década antes de sua própria presidência nos EUA, que: “Nenhuma guerra jamais nos transformou tanto quanto a guerra com a Espanha. […] Testemunhamos uma nova revolução”.

Com McKinley, cuja política foi continuada por Teddy Roosevelt, os EUA consolidaram a Doutrina Monroe como instrumento de colonialismo hemisférico e a usaram como trampolim geopolítico para se tornarem um império mundial, dedicado à pilhagem, à apropriação de recursos naturais e estratégicos e ao domínio territorial puro e simples.

Assim, McKinley combinou intenso e duro protecionismo econômico-comercial, no plano interno, com forte expansionismo territorial e pilhagem de recursos naturais, no plano externo.

Desse ponto de vista, a Nova Estratégica Nacional de Segurança dos EUA intenta, em grande parte, uma retomada retrógada do glorioso ano de 1898 de McKinley. O Annus Mirabilis do Império dos EUA.

Os paralelos são muitos. O entusiasmo quase infantil de Donald Trump por tarifas e protecionismo, o seu interesse em reaver o Canal do Panamá, a sua tensão com o Canadá, o seu renovado foco francamente imperial na América Latina e até a sua busca por território dinamarquês remontam à virada do século XIX para o Século XX.

Ressalte-se que Theodore Roosevelt, que continuou e expandiu as políticas protecionistas e imperiais de McKinley, também é muito admirado por Trump. Foi ele, aliás, o primeiro Presidente dos EUA a ganhar o Prêmio Nobel da Paz, outra obsessão de Trump.

Em conjunto, McKinley e Roosevelt conduziram os Estados Unidos ao “Século Americano”, um período de crescente domínio global dos EUA.

Domínio obtido essencialmente pelo uso desavergonhado da força.

Ressalte-se que, quando foi criada a Liga das Nações, antecessora da ONU, ao final da Primeira Grande Guerra Mundial, os EUA, pressionado pelo Senado, se recusaram a aderir a essa primeira grande instituição global porque, alegavam os senadores, a Liga poderia impor limites jurídicos ao uso da força, por parte dos EUA, para exercerem controle sobre o “seu Hemisfério”.

Trump, hoje, trata a ONU e todas as outras instituições multilaterais ou plurilaterais (tal como a OMC e a própria Otan) como os EUA tratavam a Liga das Nações. Limites inaceitáveis ao seu direito divino de usar a força, de forma unilateral. É a História repetida como farsa.

Para entender Trump, é necessário, portanto, entender McKinley e Teddy Roosevelt. Trump está ressuscitando a mesma visão do mundo e dos EUA que esses presidentes tinham, há mais de 120 anos.

Ele está ressuscitando uma visão do mundo que enfatiza o protecionismo, a apropriação direta de recursos físicos e estratégicos, o domínio territorial e a homogeneidade cultural e civilizacional interna (leia-se racismo) como instrumentos fundamentais da criação de uma verdadeira e sólida hegemonia internacional e da prosperidade interna.

O domínio territorial, em especial, era o componente essencial dessa equação geopolítica do poder.

Disse McKinley: “O aumento do nosso território aumentou enormemente a nossa força e prosperidade”, comparando as suas aquisições no Pacífico à Compra da Louisiana de 1803.

Com efeito, a anexação das Filipinas acrescentou um país do tamanho do Arizona às possessões dos EUA. Na opinião de McKinley, isto garantiu aos Estados Unidos prestígio e respeito.

“Uma das melhores coisas que alguma vez fizemos foi insistir em ficar com as Filipinas”, disse ele certa vez a um conselheiro. “Em poucos meses, nos tornamos uma potência mundial.”

Hoje, tudo isso soa a insanidade, diria Jeffrey Sachs. Um gangsterismo imperial obsoleto, totalmente deslocado de uma ordem mundial crescente e inexoravelmente multipolar.

O trumpismo é, de fato, uma insanidade geopolítica, combinada com gangsterismo imperial.

Uma espécie de doença importada do final do século XIX.

Trump, o McKinley do Século XXI, não tem futuro viável. E jamais ganhará o Nobel.

Entretanto, está causando grandes estragos. E poderá causar mais. Muito mais.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

Publicação de: Viomundo

Lunes Senes

Colaborador Convidado

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