Lelê Teles: Quem é de verdade sabe quem é de mentira!
Por Lelê Teles*
“o mito é o nada que é tudo”, fernando pessoa
o mito é uma construção simbólica.
sua função, entre outras, é representar os valores morais de um povo.
forjado na oralidade, tem como matéria-prima a saliva.
os que falam dele, fabulam uma narrativa fabulosa em torno de um criatura que transcende o humano: pode ser um deus, um semideus, um herói ou um híbrido de humano e animal.
mas precisa ser indestrutível.
orfeu desceu ao mundo dos mortos e de lá voltou vivo, com a sua amada no colo.
sísifo e prometeu enfrentaram os deuses olímpicos e, por sua insolência, sofreram as mais diversas agruras, mas mantiveram-se firmes.
jesus, chamado o cristo, foi preso, torturado e assassinado, mas venceu a morte e reviveu como uma fênix, voando leve e lépido para o infinito.
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o nosso minion-tauro – metade homem, metade gado -, entrou para a mitologia brazuca ao tomar uma facada no bucho sem nem chegar a sangrar.
o sacana enganara a morte, como o fez sísifo.
nossos mitólogos de araque enxergaram aí um mítico sinal de valentia e uma mística demonstração de imortalidade.
forjou-se, a partir daí, a imagem do herói imbroxável, incomível e imorrível.
essa criatura falofílica, homofóbica e imortal, representaria os valores imorais da burguesada.
poucos dias depois de sua quase morte, como um legítimo titã, minion-tauro já estava nas ruas, chifres em riste, trepado em motocicletas, dando cavalo-de-pau em jet ski, gritando com jornalistas, trocando tiro em estandes, importunando baleias, fazendo flexão de pescoço, zombando das frágeis criaturas que morriam sufocadas durante a pandemia…
“mito, mito, mito.”
assim, a saliva materializou-se e o mito ganhou forma humana: lançou perfume com cheiro de esterco, botou no mercado capacetes com chifres retráteis, tentou vender nas estranjas joias que nem eram suas.
fez o diabo!
porém, era sabido que o mito mitaria apenas enquanto presidisse.
e aí vieram as eleições, e o nosso minion-tauro mostrou seus pés de barro.
com medo da derrota, tentou trapacear, impedindo milhares de eleitores de chegarem às zonas eleitorais.
deu com os burros n’água.
derrotado, tentou um golpe.
desmascarado, foi julgado, condenado e preso.
porém, não o aprisionaram em um penhasco rochoso, tendo o fígado sendo bicado por abutres terríveis.
nem foi encarcerado numa masmorra romana ou pregado no madeiro frio de uma cruz.
o trancafiaram numa mansão, com jardim florido e piscina aquecida, tudo pago com dinheiro público.
e a tal prisão, veja você, era a própria casa em que o golpista já residia.
mesmo assim, o sujeito esperneou como um gato diante de uma bacia d’água e passou a alegar as mais estranhas enfermidades.
um dia, o flagraram passando um ferro quente na canela fina, no intuito de se livrar da tornozeleira eletrônica.
foi mandado a uma solitária e, lá, a família fez dele um molambo velho.
desmitificaram a besta-fera.
andam a dizer que o imorrível tá morrendo, que o imbroxável virou um velho frágil e enfermo, que seu intestino tá podre, que tem depressão, apneia, hemorroidas e furúnculos…
chora, soluça, tem dificuldade de peidar, cai da cama, tem azia e diz que está sendo torturado pelo barulho de um ar-condicionado.
é isso o que acontece quando a mitomania tenta se passar por mitologia.
na virada do ano, o minion-tauro simulou um traumatismo craniano e passou o reveillon numa cama de hospital.
enquanto isso, lula da silva, forte como um touro, caminhava pela restinga da marambaia, qual um moisés redivivo.
ondas à sua direita e à sua esquerda, o cajado guardado na sunga, as coxas grossas, as costas largas, o corpo saudável e atlético.
ficou preso 580 dias, depois de ficar viúvo e se livrar de um câncer: não chorou, não caiu da cama, não se fez de coitadinho, nem tentou roer as grades da cela.
saiu da cadeia apaixonado e casado.
será reeleito para um quarto mandato e entrará para o panteão da pátria.
porque, como dizia o poeta, quem é de verdade sabe quem é de mentira!
palavra da salvação.
*Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
Publicação de: Viomundo
