Tarcísio pretere Kassab na vice, Lula vira alternativa do PSD

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tem dado sinais de que Gilberto Kassab (PSD) fica cada vez mais longe de virar vice na sua chapa, e o movimento empurra o PSD para uma encruzilhada que pode terminar com o partido orbitando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2026.

Nos bastidores do Palácio dos Bandeirantes, o nó é simples e cruel. Tarcísio prefere manter o atual vice-governador, Felício Ramuth (PSD), a quem aliados atribuem lealdade e bom desempenho no cargo. Kassab, por sua vez, tenta emplacar o próprio nome, de olho no ciclo seguinte, quando o governador paulista pode deixar o posto para disputar o Planalto e abrir a sucessão em 2030.

Uma reunião prevista para o fim deste mês entre Ramuth e Kassab é tratada como “decisiva” na disputa umbilical do PSD. A proposta ventilada por interlocutores do vice é que o partido coloque os dois nomes na mesa e deixe a palavra final para Tarcísio. Se Kassab insistir em ser o indicado, cresce a ameaça de saída de Ramuth da legenda, o que abriria uma crise no partido e na base do governo paulista.

O problema de Kassab não é só dentro do PSD. A resistência ao seu nome também aparece na coalizão que sustenta Tarcísio, com incômodo em siglas da base e leitura de que ele já concentra poder demais no governo paulista, onde comanda a Secretaria de Governo e Relações Institucionais.

A última rodada de tensão veio depois que Kassab falou em “submissão” na relação de Tarcísio com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), irritando o entorno do governador e piorando o clima para uma acomodação na vice. Na prática, a fala reforçou o recado que já circulava: Kassab não é plano consensual para a chapa.

Do outro lado da mesa, o clã Bolsonaro e o PL também trabalham contra Kassab. O presidente nacional do PL, Valdemar da Costa Neto, pressiona para que a vice seja ocupada por um nome do partido, e o mais citado é o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, André do Prado (PL). Tarcísio tenta esfriar a expectativa, elogia o vice atual e repete que a decisão será “em conjunto”, mas o recado ao PL foi calculado: o governador quer manter margem de escolha, e isso empurra Kassab para fora da foto.

Com Kassab encurralado em São Paulo, abre-se a segunda hipótese, a nacional. O PSD virou uma máquina de “palanques na manga”, com governadores e musculatura municipal para negociar na reta final, sem fechar porta nem à direita nem à esquerda. É o tipo de engenharia que o partido domina, e que costuma terminar com o PSD perto do poder, seja qual for o vencedor.

É aqui que entra Lula. A vaga de vice, segundo relatos de bastidores em Brasília, voltou ao centro das conversas com lideranças do centrão, justamente para ampliar a frente de apoio e reduzir a capacidade de articulação da oposição de direita. Se Kassab não conseguir a vice de Tarcísio, a tentação de negociar com o Planalto cresce, seja para buscar espaço direto na chapa presidencial, seja para oferecer um nome do PSD com lastro eleitoral.

Nesse desenho, o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), vira peça óbvia. Ratinho pode ser usado como “moeda de troca” em arranjos do PSD, e o mesmo raciocínio vale no sentido inverso: se Kassab perde São Paulo, a compensação pode ser nacional, com o partido reivindicando protagonismo na composição presidencial.

Os incrédulos costumam dizer que Ratinho na vice de Lula “não fecha”. A política brasileira já demoliu certezas maiores. Em 2022, o então tucano Geraldo Alckmin, adversário histórico do petismo, filiou-se no PSB e virou vice de Lula justamente como ponte para uma frente mais ampla, e funcionou. A pergunta real não é se parece improvável, é o preço de cada ator para aceitar o improvável.

No fim, o recado que chega de São Paulo é que Kassab, por ora, perde força na vice de Tarcísio por três vetos simultâneos: o do bolsonarismo, o do próprio governador e o da base que já se sente sufocada pela “ofensiva” do PSD no território paulista. Persistindo esse quadro, o PSD tende a fazer o que sempre faz quando é contrariado num estado-chave: abrir negociação por cima, no plano nacional, onde Lula também procura ampliar alianças.

Portanto, quando a direita tenta transformar a vice de São Paulo em pedágio do bolsonarismo, Kassab reage como operador profissional: procura outra mesa, com outra moeda e outro cheque. E Lula, que não dá ponto sem nó em eleição, sabe reconhecer quando um cacique está sendo empurrado para o colo do Planalto.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

Lunes Senes

Colaborador Convidado

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