O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu nesta terça-feira (24) prisão domiciliar temporária de 90 dias ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), após parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR). A medida passará a valer após a alta hospitalar e virá acompanhada de tornozeleira eletrônica, proibição de uso de celular, de acesso a redes sociais e de gravação de vídeos, além de visitas restritas a filhos, médicos e advogados.
A decisão mexe no coração da pré-campanha da direita. Ao tirar Bolsonaro da cela e levá-lo de volta para casa, ainda que sob controle apertado do STF, Moraes altera o centro de gravidade do bolsonarismo. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixa de ser o único intérprete disponível do pai preso, e o campo conservador volta a discutir quem tem mais fôlego para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2026. Essa mudança de ambiente é precisamente o que ressuscita o plano Tarcísio.
Entre os oligarcas do sistema financeiro e os barões da velha mídia corporativa, essa preferência nunca morreu. Quando Jair Bolsonaro apontou Flávio como seu nome para o Planalto, em dezembro, a reação foi imediata: câmbio e bolsa sentiram o golpe, e a leitura dominante foi a de que os investidores esperavam um nome mais rodado, com experiência executiva, como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Muitos especuladores apostavam num candidato mais experiente, como Tarcísio, enquanto os jornalões mostravam que a Faria Lima o via como mais capaz de unir direita e centro, com menor rejeição que o clã Bolsonaro.
É por isso que a saidinha de 90 dias não é só um gesto humanitário nem apenas uma decisão médica. Politicamente, ela reabre a hipótese de substituição de Flávio por um nome mais competitivo para os ricaços, para o centro conservador e para setores empresariais que seguem desconfiando da capacidade de filho “Zero Um” romper o teto de rejeição do bolsonarismo puro. A crônica política vinha apostando nisso desde o início do ano.
Nesse emaranhado, Michelle Bolsonaro (PL) ganha peso. Em janeiro, nós repercutimos a articulação dela no STF, em torno do pedido de prisão domiciliar para o marido, que aprofundou o distanciamento com os filhos de Bolsonaro e reacendeu a disputa no entorno do ex-presidente. Na mesma linha, a velha mídia registrou que, embora Michelle reforçasse em público apoio a Flávio, essa não seria sua preferência, e que um gesto dela com vídeo de Tarcísio foi lido por aliados como aceno ao governador paulista.
A decisão desta semana reforçou essa leitura. O Blog do Esmael noticiou que aliados de Michelle comemoraram a domiciliar como uma “vitória” da ex-primeira-dama sobre Flávio, porque Moraes autorizou a medida um dia depois de recebê-la e uma semana após encontro com o senador. Michelle nunca engoliu por completo a escolha de Flávio como cabeça de chapa do clã e sonhava com outra composição para 2026.
Mais do que isso, bastidores publicados nesta quarta-feira (25) informaram que aliados de Tarcísio e de Michelle nutrem a esperança de que a prisão domiciliar leve Bolsonaro, já em casa, a rever a aposta no filho e considerar lançar a própria Michelle ou o governador de São Paulo. A mesma apuração registra que líderes do PL e do Centrão ainda veem essa virada como remota, porque a pré-candidatura de Flávio já estaria consolidada. Mesmo assim, o simples fato de essa conversa voltar com força mostra que a sucessão bolsonarista voltou a ferver.
Flávio, é claro, não está morto politicamente. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada nesta quarta-feira (25) mostrou empate técnico entre ele e Lula num eventual segundo turno, com 47,6% para o senador e 46,6% para o presidente, dentro da margem de erro de 1 ponto percentual. O dado mantém o filho zero um no jogo e ajuda a explicar por que ele ainda resiste como candidato viável no núcleo duro bolsonarista.
Só que existe um detalhe decisivo: Tarcísio continua sendo o nome em que a Faria Lima mais confia, e Michelle parece olhar na mesma direção. Esse cruzamento entre mercado e família é o dado novo que a domiciliar fortalece. A operação não sepulta Flávio, mas encurta sua blindagem. Com Bolsonaro em casa, o comando da sucessão tende a ficar mais concentrado na sala e menos no palanque. E, dentro dessa sala, Michelle pode falar mais alto do que o senador do Rio gostaria.
Há um freio importante nessa história. Tarcísio segue afirmando que disputará a reeleição em São Paulo, que não se desincompatibilizará e que apoiará Flávio para a Presidência. Em público, portanto, o governador continua fora do páreo nacional. O problema para o grupo de Flávio é que a política brasileira não se decide apenas no microfone. Ela também se move no bastidor, no mercado e nas disputas familiares. E a decisão de Moraes devolveu oxigênio exatamente a esse subterrâneo.
A domiciliar de Bolsonaro não fecha a corrida da direita, ela a reabre. E reabre num terreno desconfortável para Flávio, onde Michelle articula, a Faria Lima compara e Tarcísio continua sendo tratado como solução de emergência para virar solução principal.
Até dia 4 de abril, portanto, o fantasma Tarcísio ainda seguirá assombrando o entorno de Flávio.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
