Ruben Bauer Naveira: Uma guerra diferente, misteriosa, e a cada dia mais perigosa

Por Ruben Bauer Naveira*

Essa guerra está ficando mais interessante, e mais misteriosa. E também MUITO mais perigosa (para todo o planeta).

O Irã se preparou para “aguentar o tranco”. Ou seja, para uma guerra longa.

Mas não é bem assim – porque não tem como ser.

Uma guerra longa faz exponenciais os riscos para a população civil. A destruição da base produtiva no Irã e, especialmente, da sua infraestrutura, empobrecerá o país e atrasará o seu desenvolvimento por décadas. E, ainda que a guerra esteja fortalecendo o governo internamente, esse apoio interno acabará por sofrer fadiga, e aos poucos a insatisfação crescerá.

Pode o Irã ter escondido parte das suas defesas antiaéreas? Pode.

Pode acontecer de os americanos esgotarem as suas munições de longo alcance, passando a necessitar adentrar o espaço aéreo iraniano para despejar bombas gravitacionais? Pode.

Pode o Irã estar “empurrando” para mais longe de si as pistas de onde as aeronaves americanas e israelenses decolam? Pode.

Tudo isso favorece o Irã, mas nada disso vai impedir os Estados Unidos de prevalecer, com base na vastidão do seu poderio militar.

Os bombardeiros estratégicos dos EUA, por exemplo, foram projetados para atingir a União Soviética, que fica do outro lado do mundo, decolando a partir de solo americano e a ele retornando. Mais cedo ou mais tarde os EUA acabarão por conquistar a supremacia aérea sobre o Irã, e poderão então passar a destruí-lo metodicamente.

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Mais do que derrubar aeronaves americanas (e o Irã derrubará várias delas), aquilo com que o Irã conta para evitar uma tal devastação por parte dos EUA é a sua capacidade de dissuasão.

Se os americanos passarem a destruir a infraestrutura vital iraniana, os iranianos destruirão a indústria petrolífera nos países do golfo. E aí será uma hecatombe econômica global.

Se os americanos promoverem um morticínio em meio à população civil, os iranianos retaliarão na mesma moeda contra a população civil de Israel.

Para estarem em condições de fazer isso, os iranianos precisarão poder continuar a lançar os seus mísseis e os seus drones. Ao que tudo indica, eles continuarão a lançá-los.

Ontem mesmo os americanos atacaram a ilha de Kharg, por onde o Irã exporta a maior parte da sua produção de petróleo. Aguardemos, pois, ataques iranianos a instalações portuárias nos países do golfo.

Apesar do discurso da “guerra por tempo indefinido”, a estratégia do Irã não tem como ser essa.

A estratégia do Irã tem que ser a de, no cabo-de-guerra com os Estados Unidos, não ser aquele que fraqueja primeiro. Não ser aquele quem “pisca” primeiro.

Nesse sentido, o que o Irã pretende é levar os americanos a se verem forçados a serem eles a pedir, primeiro, por negociações – ou seja, a piscar primeiro.

Negociações estas que não serão para algum “cessar-fogo”. As negociações terão que envolver concessões dolorosas, por exemplo: o fim de todas as sanções, sem contrapartida na questão nuclear iraniana; o desmantelamento de todas as bases militares americanas no Oriente Médio; ou mesmo o pagamento de reparações de guerra ao Irã.

Os iranianos já entenderam que essa guerra é existencial para o país. Ou bem ela terminará com um acordo que proveja segurança real e efetiva para o Irã, ou então, depois de passado algum tempo, o Irã voltará a ser atacado – até que finalmente seja destruído.

Assim, por exemplo, o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio não poderá ser um tópico de negociação. Essa terá que ser uma condição sine qua non.

Mas, COMO os iranianos conseguirão obrigar os EUA a virem até eles implorar por um acordo de paz?

A queda de Trump nas pesquisas e a perspectiva de uma derrota eleitoral dos republicanos em novembro não bastará. É agonia pouca. Claro que para aplacá-la os americanos adorariam um acordo de cessar-fogo amanhã mesmo, mas o Irã não estará interessado.

O bloqueio do estreito de Hormuz coloca em risco toda a economia mundial, devido aos efeitos em cascata sobre inúmeras cadeias produtivas. Mas os países mais afetados são justamente aqueles aliados históricos dos Estados Unidos: Europa, Japão, Coreia do Sul – o que reverbera na forma de pressões desses países sobre Washington.

Uma das alavancagens do Irã é delongar o bloqueio por tempo suficiente até que esses efeitos se tornem insuportáveis.

Já a pressão sobre os países do golfo tem por objetivo óbvio levá-los a expulsar as bases militares dos EUA dos seus territórios. Mas, para muito além disso, há um objetivo maior: levá-los a abandonar de vez os termos do acordo do petrodólar de 1974.

Nota: em seguida à guerra do Yom Kippur e ao embargo do petróleo em 1973, os EUA firmaram um acordo com a Arábia Saudita que na prática acabou seguido por todas as demais monarquias do golfo – Saddam Hussein quis trilhar um caminho diferente e pagou o preço –, pelo qual os árabes somente venderiam petróleo em dólares, obrigando assim o resto do mundo a dispor de dólares para conseguir comprar petróleo. Além disso, aqueles países reinvestiriam nos Estados Unidos os lucros da venda do petróleo, comprando títulos da dívida americana, porém não somente – as monarquias do golfo estão entre os principais financiadores do desenvolvimento da Inteligência Artificial nos EUA, por exemplo. Em contrapartida, aos árabes foi finalmente permitida liberdade para fixarem o preço pelo petróleo, que de imediato quadruplicou. Ah, sim, e aqueles países ganharam bases militares americanas para… “protegê-los” (aham).

Um eventual fim da venda de petróleo em dólares, juntamente com um eventual fim do reinvestimento dos lucros do petróleo nos EUA e em suas corporações, representaria como que uma sentença de morte para a já combalida economia americana.

O que representaria uma ameaça existencial para os EUA.

Para qualquer país, uma ameaça existencial seria a ameaça de conquista por um país estrangeiro, ou de colonização, ou de perda da soberania, ou de desmembramento territorial.

Não há o menor risco de que nada assim possa vir a acontecer com os EUA. Mas os EUA não são qualquer país. Eles são intolerantes à dor. Um colapso da economia americana seria sentido como uma “morte” da nação.

QUALQUER país que venha a ser colocado sob ameaça existencial, e que disponha de armas nucleares, as empregará. Ponto.

Uma guerra diferente, esta. Interessante, misteriosa, e a cada dia mais perigosa.

*Ruben Bauer Naveira é ativista político e pacifista. Autor do livro Uma nova utopia para o Brasil: Três guias para sairmos do caos.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

Publicação de: Viomundo

Lunes Senes

Colaborador Convidado

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