A Petrobras anunciou nesta quarta-feira (1º) reajuste de 54,8% no preço do querosene de aviação (QAV) vendido às distribuidoras e, diante do tamanho do choque, abriu um termo de adesão para que clientes da aviação comercial paguem alta de 18% em abril e parcelem o restante em seis vezes, a partir de julho de 2026. O aperto dos combustíveis, que já pressionava diesel, frete e inflação, agora avança sobre passagens aéreas e custos logísticos.
A própria Petrobras informou que o termo ficará disponível até segunda-feira (6) e que o mecanismo de parcelamento poderá ser ofertado também em maio e junho, com parâmetros ainda a calcular. O movimento mostra que a estatal viu risco real de desorganização no caixa das distribuidoras e na demanda do setor aéreo.
O setor sente isso no centro do custo. A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (ABEAR) afirma que o combustível responde por cerca de 40% dos gastos de uma companhia aérea, enquanto a Reuters registrou que, no Brasil, ele pesa mais de 30% dos custos operacionais das empresas.
Esse peso tende a reaparecer no bolso do passageiro. Em 31 de março, a Abra, controladora da Gol, calcula necessidade de elevar preços em cerca de 10% a cada alta de US$ 1 por galão no combustível de aviação, e que a Azul já vinha elevando tarifas médias reservadas em mais de 20% ao longo de três semanas, além de reduzir capacidade doméstica no segundo trimestre.
O governo federal já discute medidas para amortecer a pancada. O Ministério de Portos e Aeroportos encaminhou propostas que incluem corte de PIS e Cofins sobre o QAV, redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para as aéreas e diminuição do Imposto de Renda sobre leasing de aeronaves.
A Petrobras atribuiu o reajuste à forte elevação das cotações internacionais dos derivados de petróleo, agravada pelas tensões geopolíticas recentes no Oriente Médio. Na nota oficial, a companhia sustentou que o parcelamento preserva a neutralidade financeira da estatal e ajuda a mitigar os efeitos do choque sobre a aviação brasileira.
O dado político e econômico está aí: quando a petroleira precisa transformar um reajuste de 54,8% em prestação para evitar impacto imediato demais, a crise já saiu das bombas e entrou nos aeroportos. O encarecimento do diesel chegou à pista, ao porão de carga e ao preço da passagem.
Se o petróleo continuar sob tensão e o QAV permanecer nesse patamar, o efeito tende a se espalhar para turismo, viagens corporativas e transporte de mercadorias de maior valor agregado.
Portanto, a recompra das ações da Petrobras precisa voltar ao centro do debate nacional porque uma empresa estratégica de petróleo não pode permanecer ajoelhada ao dogma do Preço de Paridade de Importação (PPI), que subordina o interesse público à lógica do mercado externo.
O Brasil tem escala, reservas, parque de refino e demanda para perseguir a autossuficiência em produção, refino e transporte de combustíveis, reduzindo a vulnerabilidade do país a choques internacionais e a especulações que batem no diesel, no gás de cozinha e na inflação.
Essa virada exige recuperar a Petrobras como instrumento de soberania econômica, com comando orientado pelo Estado e compromisso com abastecimento, investimento e desenvolvimento nacional, não apenas com a remuneração imediata dos acionistas.
Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
