Por Pedro Amaral*
Para diversos observadores, o ataque incontrastável dos EUA à Venezuela e sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, no alvorecer deste 2026, seguidos por renovadas ameaças do inquilino da Casa Branca a Cuba, México, Irã, Canadá, Dinamarca… marcam o início de uma nova fase das relações internacionais, caracterizada pela ausência de regras ou, mais precisamente, pelo predomínio absoluto da lei do mais forte – um mais forte que, reagindo aos sinais aparentes de seu lento declínio, se mostra bem mais inclinado a recorrer à violência que à persuasão.
Neste cenário, sobre as ruínas do que se concebeu lá atrás como Direito Internacional, soa mesmo cândido recordar que a saudosa Carta da ONU proibia expressamente que seus membros recorressem à ameaça ou uso da força contra a integridade territorial ou independência política de qualquer Estado, canalizando ações militares para o Conselho de Segurança da ONU.
O terreno estaria agora livre, ao menos em tese, para cada um fazer a guerra que julgar necessária, e que o hegemon não tenha interesse em impedir.
Aqui, vale recordar que a agressão imperialista (o termo, imposto pelas evidências, tem sido usado até pelo Financial Times, insuspeito de progressismo, o que poderia inspirar a esquerda liberal a rever seus pruridos) não se deu de repente, como tampouco foi súbita a debacle da legalidade.
A ação norte-americana foi precedida, ao longo de meses, pelo deslocamento de tropas para o Mar do Caribe, a reativação de uma base militar em Porto Rico, uma dezena de bombardeios ilegais a barcos pesqueiros (apontados como agentes do “narcoterrorismo”, pretexto logo abandonado) e o roubo de um navio-tanque venezuelano – tudo isto em meio ao uso instrumental da informação para fins de guerra psicológica.
E tudo isto sem reação contundente da chamada comunidade internacional: uns e outros soltaram notas manifestando incômodo, pacifistas pediram paz e legalistas, respeito à lei.
Ou seja, nada que forçasse uma revisão de planos. O caminho para o ataque decisivo – coroando duas décadas de agressões a Caracas – estava livre e desimpedido.
Em meio à perplexidade com o que se passa, há hoje um animado debate sobre se a “Doutrina Donroe” anunciada por Donald Trump (a História se repete como farsa?) é algo novidadeiro, disruptivo, um fenômeno fortemente condicionado pela personalidade do mandatário estadunidense e o extremismo de seu grupo político, ou se, na verdade, sua agressividade se inscreve na alentada tradição intervencionista fundada no excepcionalismo norte-americano e seguida, com maior ou menor ênfase, por seus antecessores, de um lado ou outro do duopólio político que conduz a Casa Branca.
Um intervencionismo que, no fim das contas, atende à necessidade de expansão do capital.
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É tema para outro momento, mas deixo aqui uma observação em favor da primeira hipótese, a da singularidade.
Embora Trump e seu entorno sejam abertamente racistas – como o ilustram, por exemplo, a caçada cruel a imigrantes não-brancos e a recente caracterização do casal Obama como macacos –, a brutalidade do neofascismo estadunidense ultrapassa as fronteiras étnico-raciais e geopolíticas comumente respeitadas por Washington e aliados: assim é que dois cidadãos brancos foram assassinados pela milícia ICE em Minneapolis (“não eram anjos”, declarou o magnata sobre a escritora e o enfermeiro), em meio a dezenas de imigrantes não-brancos mortos sob custódia da SS de Trump, e o vencedor do Prêmio FIFA da Paz dirige a países como França, Alemanha, Dinamarca e Canadá uma arrogância inaudita.
Além disso, não dá mostras de se sensibilizar com a sorte dos ucranianos, como o faz a opinião pública dos países parceiros da OTAN…
O big stick, contudo, golpeia com maior firmeza os mesmos de sempre, e aqui não podemos ignorar que o genocídio palestino ainda em curso, com o que já produziu e o que o projeta para o futuro próximo, simboliza uma ruptura ainda mais radical que o sequestro de Maduro em relação ao arcabouço político-jurídico erguido após a carnificina da Segunda Guerra Mundial – arcabouço este que, embora não fosse seguido com grande assiduidade, ao menos servia de referência, fonte de Direito.
Talvez seja este, afinal – o prolongado massacre promovido por EUA e seu protetorado na Palestina Ocupada, sem qualquer oposição relevante, e a “paz dos senhores” que se pretende construir sobre os escombros de Gaza –, o verdadeiro marco de uma ordem global em inquietante transformação.
Bafejado por prêmios em Veneza e Cannes, o longa-metragem semidocumental “A voz de Hind Rajab”, dirigido pela tunisiana Kaouther Ben Hania, reproduz a história real de uma menina palestina pedindo socorro a funcionários do Crescente Vermelho, sem poder escapar de uma engrenagem de cerco e punição coletiva.
Aflitivo, asfixiante, o filme lembra a denúncia dos horrores da Guerra do Vietnã registrada no clássico “Corações e mentes”, realizado por Peter Davis em 1974.
Se a agonia de uma criança de seis anos incompletos tem, por si só, uma carga comovente, o filme choca ainda mais por servir de metáfora do massacre de um povo.
Acuada no pequeno espaço do veículo de sua família destroçado pela artilharia israelense, envolta em corpos ensanguentados de parentes (tio, tia e primos), a menina implora insistentemente, horas a fio, pelo socorro que nunca vem: clama por adultos numa ambulância, como a Palestina clama inutilmente por algo que detenha a sanha destruidora de EUA-Israel. A ajuda militar que nunca chega (para além do apoio iraniano, insuficiente como se vê).
Comovidos, desesperados, os socorristas têm as mãos atadas; sob o jugo da lei do mais forte, suas próprias vidas correm risco, o que lhes exige demorada cautela, e mais: o alívio possível, se houver, dependerá da boa vontade dos algozes. O palestino do gueto de Gaza é como o prisioneiro de Auschwitz cuja sobrevivência depende do lapso de benevolência do guarda nazista.
Igualmente impotente (o que fazer com sua própria comoção?), o espectador é confrontado com a engenharia da Ocupação: ambulância ou carro com família dentro, não importa: o terror israelense abre fogo contra o que quer que ele mesmo tenha apontado como alvo (há um par de meses vimos a devastação de campos de refugiados coalhados de frágeis tendas), e não carece de justificativa, senão esta: a culpa é da vítima (que não seguiu as instruções etc.), ou ainda: as verdadeiras vítimas somos nós, hoje e sempre.
É nesse contexto que emerge o “Plano de Paz para Gaza”, anunciado em 29 de setembro de 2025, em cerimônia na Casa Branca, por um Donald Trump ladeado por ninguém menos que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que tem contra si uma ordem de prisão expedida pelo Tribunal Penal Internacional, por crimes de guerra perpetrados contra o povo palestino. [1]
Pré-condição para a “paz forte e duradoura” anunciada pelo fiador do massacre, o cessar-fogo anunciado em 25 de outubro nunca aconteceu, sendo violado milhares de vezes pelo exército ocupante e, em grau muito menor, pela resistência dos ocupados: o número de mortos do lado árabe já passa de 700 desde que a suposta trégua foi estabelecida.
Nesse cenário de mortos ainda insepultos e assassinatos incessantes, sobre uma infraestrutura aniquilada quase por completo, o presidente dos EUA alardeia algo de um grotesco inexcedível, a saber, o plano de erguer no território palestino uma “Riviera do Oriente Médio”, salpicada de resorts: “Todos com quem conversei adoram a ideia de os EUA possuírem aquele pedaço de terra”, afirma o magnata (UOL, 05/02/2025).
Assim, enquanto as forças supremacistas seguem fazendo a “limpeza” do terreno, o genro de Trump prospecta oportunidades imobiliárias no gueto árabe e o mundo parece deslembrar o imperativo de punir os criminosos, o líder estadunidense aproveita o vazio de soluções para fazer avançar sua proposta (logo apoiada por Arábia Saudita, Catar, Jordânia, Kuwait, EAU…) de reconfiguração do território, na qual a autodeterminação palestina é formalmente descartada e a política local é reorganizada por meio de um comitê tecnocrático dependente de um “Conselho de Paz” sediado, na prática, na Casa Branca.
Prato cheio para estudos decoloniais e congêneres…
O plano prevê, ademais, uma desmilitarização assimétrica: de um lado, desmantelamento integral dos grupos armados da resistência palestina; de outro, a promessa – e promessa apenas – de recuo das forças da Ocupação para um perímetro de segurança a ser definido.[2]
Além disso, sempre ao arrepio do que se convencionou chamar de Direito Internacional, cria a figura da ajuda humanitária condicionada: as vítimas do massacre receberão a ajuda de que necessitam desesperadamente (com o auxílio de uma ONU relegada ao papel de coadjuvante), se e somente se acatarem todas as exigências dos senhores da guerra.
Claro está: longe, muito longe de uma reação ao genocídio, o plano de Trump consiste, na verdade, no seu corolário.
Não bastasse isso, como diversos observadores têm apontado, a Palestina pode ser vista como um laboratório global de sujeição, com a Riviera da família Trump – erguida sobre os escombros de Gaza e do Direito Internacional com o auxílio do supremacismo sionista – anunciando um portfólio de negócios a serem explorados, mundo afora, pela parceria entre o grande capital e o complexo industrial-militar.
A República de Cuba, sob criminosa asfixia (hoje depende de uma ajuda externa que chega a conta-gotas, enquanto o capo da Casa Branca reitera suas promessas de invasão), e uma Groelândia aturdida por ameaças colonialistas explícitas acompanham com especial apreensão o desenrolar do pesadelo.
De mãos desatadas, aproveitando a imobilidade da comunidade internacional e a instabilidade produzida pelo império em declínio, o enclave sionista segue espalhando morte e destruição nos territórios de Gaza, Cisjordânia, Líbano e Síria, pretextando sua autodefesa. E mesmo líderes da dita oposição ao governo de extrema-direita se declaram comprometidos com o projeto de expansão do Lebensraum israelense.
Escanteados, carentes de aliados mesmo no chamado mundo árabe, os palestinos se veem impossibilitados de rejeitar um arranjo que os humilha, e absolve seus algozes.
Enquanto isso, o presidente Lula toca para o lado, faz consultas, procura ganhar tempo, evitando isolar-se e medindo os possíveis efeitos da decisão que vier a tomar sobre o convite para integrar o clube do Calígula redivivo.[3]
O horror prossegue: na última semana, com o genocídio palestino ainda em curso, Israel, que já assassinou mais de mil pessoas em suas incursões no Líbano, anunciou – sob um silêncio estrondoso – que irá demolir todas as casas nos vilarejos libaneses próximos a sua fronteira; na sequência, o Knesset houve por bem aprofundar o racismo do regime vigente no enclave, e aprovou uma pena de morte que se aplica exclusivamente a árabes e palestinos – feito celebrado a goles de champanhe pelos legisladores supremacistas.
Nesse contexto, o apoio às ofensivas da Ocupação despenca em todo o mundo, inclusive nos EUA, e a propaganda israelense cuida de reagir, com iniciativas que chegam até nós.
No Congresso Nacional, a deputada Tabata Amaral (PSB-SP), com o apoio de figuras do naipe de Kim Kataguiri, Paulinho da Força e General Pazuello, se presta a despachar uma encomenda do lobby sionista, qual seja, um projeto de lei que visa a censurar os críticos de Israel (a exemplo do que já vem sendo feito noutros países), [4] tachando-os de “antissemitas”. [5]
Cínica, a proposta (que cuida de blindar de reparos, inclusive, indivíduos não-judeus, como é o caso de sua procuradora) traz a ressalva: “Críticas a Israel que sejam semelhantes às dirigidas contra qualquer outro país não podem ser consideradas antissemitas” (art. 2º, § 3º).
Ora, quem mais vem cometendo um genocídio há décadas? A Islândia?
É nesse mesmo contexto que o Governo Federal entende por bem reunir no Itamaraty lideranças sionistas para discutir um suposto aumento do antissemitismo, “debate” que promete deixar em segundo plano, se tanto, a questão central: os crimes perpetrados pelo Estado de Israel.
O encontro está agendado para 16/04: ainda há tempo para o Ministério das Relações Exteriores, que tem sido digno na defesa da prevalência dos direitos humanos (como manda a Constituição Federal), repensar esse aceno ao lobby israelense, como fizeram os desavisados deputados de centro-esquerda que, num primeiro momento, acompanharam a parlamentar da Fundação Lemann.
Em política, como se sabe, é preciso ter lado.
*Pedro Amaral é escritor, mestre em Relações Internacionais e doutor em Letras (PUC-Rio). É autor do livro ”Meninas más, mulheres nuas – As máquinas literárias de Adelaide Carraro e Cassandra Rios” (Papéis Selvagens)
Este artigo, em versão muito similar, foi originalmente publicado no nº 4 (março de 2026) da revista Linha Vermelha (linhavermelha.org.br).
NOTAS
[1] Não obstante seus crimes bárbaros, amplamente documentados, e a ordem de prisão expedida contra si, Netanyahu ainda goza de prestígio internacional: em recente visita ao enclave, o líder do país mais populoso do mundo (que por sua vez acabara de receber o presidente Lula em visita oficial, estreitando laços com o Brasil) se desfez em elogios ao facínora, exaltando-o como “grande líder” e declarando apoio ao Estado terrorista em sua “guerra ao terror”. “Israel is the fatherland and India is the motherland”, declarou o primeiro-ministro Narenda Modi a um embevecido Knesset.
[2] A este respeito, veja-se reportagem do jornal israelense Haaretz dando conta de que, no vácuo de legalidade, as forças de Ocupação seguem fazendo o que se habituaram a fazer: avançar posições no território palestino, com barreiras e postos avançados, para criar uma situação de fato de difícil reversão; assim, sob a bênção de uma comunidade internacional inerte, estariam criando uma nova fronteira, no interior da Faixa de Gaza, sobre as ruínas do que foram propriedades rurais e moradias de palestinos espoliados (“32 outposts, barrier wall: IDF builds new border inside Gaza”, 27/03/2026).
[3] A nova ordem emergente parece, aliás, ter apanhado o Estado brasileiro de surpresa, e não é para menos: afinal, ao longo de décadas, o país (em que pesem as cobiçadas riquezas que possui) escolheu não criar as condições necessárias para defender sua soberania, e hoje não detém poder dissuasório digno de nota: nos anos FHC, o Brasil aceitou passivamente, embora queixoso, aderir ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), que sabidamente congelava a hierarquia de poder mundial, e sob a doutrina liberal ainda vigente pouco poderá fazer para equipar-se, com armas ou serviço de inteligência. É austeridade acima de todos.
[4] Vale registrar que, na última quinta-feira (02/04), a eurodeputada francesa de origem palestina Rima Hassan foi detida em Paris sob a acusação de “apologia ao terrorismo”, devido a um retweet em homenagem a K?z? Okamoto, ex-membro do Exército Vermelho Japonês.
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*Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
Publicação de: Viomundo
