New York Times acusa Trump de mentir na guerra do Irã

O Conselho Editorial do New York Times publicou neste sábado (21) um ataque frontal ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano), ao acusá-lo de mentir sobre os motivos, o andamento e o custo político da guerra contra o Irã. No texto, intitulado Os americanos merecem a verdade sobre o Irã, o jornal afirma que Trump vende ao público uma guerra supostamente sob controle, enquanto os fatos no terreno apontam na direção oposta.

O ponto central do editorial é devastador porque parte de uma crítica simples e poderosa: mentira em tempo de guerra corrói a democracia mais depressa do que a propaganda de campanha. Para o conselho editorial, quando a Casa Branca distorce a realidade do conflito, ela embaralha a prestação de contas, obscurece erros estratégicos e normaliza uma cultura de desinformação no topo do Estado.

A crítica do Times encontra respaldo no noticiário das últimas horas. Trump diz que a guerra estaria perto de uma fase de “desmobilização”, mas o Pentágono desloca mais 2.500 fuzileiros navais e marinheiros para o Oriente Médio, ampliando uma presença que já ronda 50 mil militares na região. Ao mesmo tempo, o governo americano discute mais de US$ 200 bilhões em recursos adicionais para sustentar a campanha.

Também não para em pé a bravata de que Washington teria destruído “100%” da capacidade militar iraniana. O próprio desenrolar da guerra mostra que Teerã continua disparando mísseis e drones, inclusive contra a base anglo-americana de Diego Garcia. Em checagem publicada nesta semana, o PolitiFact classificou como enganosa a tese de destruição total do aparato militar iraniano. E, no capítulo nuclear, a Agência Internacional de Energia Atômica continua sem acesso adequado para verificar o destino do estoque iraniano de urânio altamente enriquecido, estimado em cerca de 440,9 quilos.

É aí que o editorial do jornal acerta o nervo da crise. Trump tenta apresentar a guerra como demonstração de força e liderança, mas os dados públicos sugerem uma operação sem narrativa estável, sem objetivo político claramente compreensível e sem saída confiável à vista. Nem aliados tradicionais dos EUA embarcaram na retórica de vitória fácil: países europeus e asiáticos condicionaram qualquer apoio marítimo no Estreito de Ormuz ao fim das hostilidades.

Dentro dos Estados Unidos, o desgaste político já aparece. Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na quinta-feira (19) mostrou que 59% dos americanos desaprovam a guerra, 65% acreditam que Trump acabará mandando tropas terrestres para o Irã e só 7% apoiam uma invasão em larga escala. Em outras palavras, o presidente pode até manter sua retórica de comando, mas já governa sob desconfiança crescente do eleitorado.

O significado político do editorial vai além de uma crítica de imprensa. Quando o conselho editorial de um dos jornais mais influentes dos Estados Unidos diz que o presidente mente sobre a guerra, o problema deixa de ser apenas moral e vira institucional. O alvo já não é só o excesso verbal de Trump, mas a credibilidade da própria operação americana.

No fundo, o que o New York Times está dizendo é que a guerra contra o Irã pode cobrar de Trump um preço que ele ainda finge não ver: não basta bombardear, posar de vitorioso e terceirizar o caos para o resto do mundo. Sem verdade, a guerra deixa de ser só tragédia externa e vira erosão interna.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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