Marcelo Zero: Democracia brasileira é destaque em mundo rumo à autocratização

Por Marcelo Zero*

O 10º Relatório do V-Dem (Varieties of Democracy) Institute, do Departamento de Ciências Políticas da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, apresenta um retrato bastante pessimista do estado das democracias, como definidas no mundo ocidental, na maior parte do planeta.

As principais conclusões do Relatório são:

A democracia retornou aos níveis de 1978 para o cidadão médio global. Os ganhos da “terceira onda de democratização”, iniciada em 1974 em Portugal, foram quase erradicados.

O nível de democracia para o cidadão médio na Europa Ocidental e na América do Norte está no seu nível mais baixo em mais de 50 anos, principalmente devido à autocratização em curso nos EUA.

Os EUA perdem seu status de democracia liberal de longa data – pela primeira vez em mais de 50 anos.

O mundo tem 92 autocracias e 87 democracias no final de 2025.

Quase três quartos da população mundial (74%, ou 6 bilhões) vivem em autocracias.

Há agora mais pessoas vivendo em autocracias fechadas (28%, ou 2,3 bilhões) do que em democracias eleitorais e liberais combinadas (26%, ou 2,2 bilhões).

Apenas 7% da população mundial (0,6 bilhão) vive em democracias liberais.

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A liberdade de expressão continua sendo o aspecto mais atacado da democracia, piorando em 44 países até 2025.

O mundo nunca viu tantos países se autocratizando ao mesmo tempo como nos últimos anos da “terceira onda de autocratização”.

Um recorde de 41% (3,4 bilhões) da população mundial reside atualmente em países em processo de autocratização.

A União Europeia é fortemente afetada.

A autocratização na Europa afeta sete Estados-membros da UE e dois de seus principais aliados – o Reino Unido e os Estados Unidos.

O caso do Brasil

O documento menciona o Brasil em diversos contextos relacionados à democracia e autocratização. Aqui estão os principais pontos.

Democratização no Brasil

O Brasil é destacado como um dos países em processo de democratização em 2025, sendo um caso de “U-turn”, ou seja, um país que reverteu um processo de autocratização e está restaurando sua democracia.

A autocratização no Brasil começou com o impeachment da presidente Dilma Rousseff e se intensificou após a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Durante seu governo, houve ataques à mídia, tentativas de minar eleições, o legislativo e o judiciário.

A reversão ocorreu com a eleição de Luís Inácio “Lula” da Silva em 2022, apoiado por uma coalizão de nove partidos. Apesar disso, o Brasil ainda enfrenta uma sociedade profundamente polarizada, e as eleições de 2026 serão decisivas para o futuro democrático do país.

Bolsonaro foi impedido de concorrer a cargos públicos após ser condenado por abuso de poder e tentativa de golpe.

Indicadores de melhoria na democratização

O Brasil registrou avanços em liberdade de expressão, incluindo liberdade acadêmica e cultural, e diminuição da censura governamental.

Indicadores de deliberação, como justificativa fundamentada e engajamento da sociedade, também melhoraram.

Impacto global

O Brasil é mencionado como responsável por mais da metade da população mundial que reside em países onde a democracia está melhorando, representando um caso significativo de recuperação democrática.

Classificação no Índice de Democracia Liberal (LDI)

Em 2025, o Brasil ocupa a 28ª posição no LDI, com uma pontuação de 0,70. Apesar de estar em processo de democratização, ainda não recuperou totalmente os níveis anteriores à autocratização.

Publicações relacionadas ao Brasil

A publicação “State of the world 2024: 25 years of autocratization – democracy trumped?” menciona o Brasil como um exemplo de U-turn na autocratização.

O Brasil também é citado em estudos sobre resiliência democrática e mobilização de oposição.

Esses pontos destacam o papel do Brasil como um caso emblemático de reversão de autocratização e os desafios que ainda enfrenta em seu processo de democratização.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

Publicação de: Viomundo

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