Lelê Teles: Brasília, carnaval, 1959, síntese da nossa formação como nação
Por Lelê Teles*
“os candangos se encarregaram de responder por mim, trabalhando dia e noite”, juscelino kubitschek.
pode um subalterno bailar?
a brincadeira, a sacanagem, o riso fácil, o desbunde e a libertinagem são elementos essenciais para dar sentido à vida.
são brincantes os fantasmas, os erês, os caboclos de lança, as carrancas, os caiporas e os lobisomens.
sem fantasia, o sonho da vida seria sempre um pesadelo.
se o carnaval, com seu fagueiro furdunço, sua fantasiosa alegria e sua farsesca inversão de papéis é o verdadeiro fundador da brasilidade, é inegável que o carnaval de cinquenta e nove, em brasília, é uma síntese da nossa formação como nação.
¹deram de cacete no lombo dos pretos, deram tiros, socos, encheram os desgraçados de chumbo e de porrada.
isso, na proto-brasília.
na mesma noite, no ridjanêro, ainda capital do brasil, os funcionários públicos, cheios de plumas e adereços, brincavam alegres nas avenidas.
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os que detêm o poder de controlar os corpos, decidem quem pode e quem não pode brincar.
em mil novecentos e cinquenta e nove, decidiram que os trabalhadores da construção de brasília estavam impedidos de carnavalizar.
houve protesto, choro e ranger de dentes.
²tudo começou ainda no final da tarde, quando os encarregados cortaram o fornecimento de água para os acampamentos.
sem banho, os cretinos acreditavam que os miseráveis, suados e imundos, desistiriam de partir para a folia na cidade livre, entregando-se ao álcool, à putaria e à fuleragem.
criam, os insensatos, que aquelas máquinas humanas, entorpecidas pela felicidade inebriante da folia, perderiam a capacidade de trabalhar na manhã seguinte.
e eles não estavam ali para outra coisa.
faltava apenas um ano para a inauguração da capital da esperança, ano em que acabaria o mandato de jotacá, o faraó do cerrado.
logo, não havia tempo a perder.
à noite, sujos e mal cheirosos, os trabalhadores tiveram que enfrentar uma fila enorme para pegar um prato de comida na cantina da construtora.
serviram, como de costume, feijão azedo e carne podre.
mas naquela noite de domingo, oito de fevereiro de cinquenta e nove, cansado de tanta humilhação e sofrimento, o operário decidiu dizer não.
dentro do refeitório, que era um enorme barracão de madeira coberto com telha de amianto, os trabalhadores se recusaram a comer aquela lavagem de porcos.
jogaram pratos e talheres no chão, insultaram o pessoal da cozinha, viraram mesas e cadeiras, botaram tudo de pernas pro ar.
os patrões chamaram a g.e.b., que era uma milícia formada por jagunços e pistoleiros e que tinha o poder de polícia no canteiro de obras.
³os brutamontes eram temidos por sua brutalidade e truculência.
não dessa vez.
os revoltosos botaram o pequeno contingente de feitores pra correr.
mais tarde, com fome, sujos e humilhados, os trabalhadores se recolheram.
porém, os cabras da guarda especial de brasília voltaram na calada da noite, buscando vingança.
meteram o pé na porta e saíram disparando balas à revelia.
empilhados em beliches, os trabalhadores foram surpreendidos com som de gritos e estampidos de tiros.
foi um deus nos acuda.
após a metralhagem, quem não morreu foi arrancado do quarto para ser espancado do lado de fora.
ainda na madrugada, caminhões basculantes chegaram para recolher mortos e feridos.
ninguém sabe onde foram enterrados os corpos, não se sabe ao certo quantos morreram.
mas se sabe que pelo menos cento e vinte malas foram deixadas pra trás.
os donos nunca apareceram para buscar os seus pertences.
inquirido sobre o massacre, ?oscar niemeyer desconversou e disse não saber do que se tratava.
seu colega, o urbanista lúcio costa, disse
que esse episódio, “(…) do ponto de vista da construção da cidade, não tem a menor importância, (…)isso é conversa de candango, homem de praça”.
essa é essência da nossa desgraça.
há uma elite que se diverte com a agonia dos miseráveis e há uma parte dela que simplesmente não se importa.
em dois mil e onze, meio século depois, foi encontrado, no teto do salão verde da câmara federal, umas frases rabiscadas por operários que construíram o congresso.
eram frases de revolta.
uma delas dizia: “que os homens de amanhã que aqui vierem tenham compaixão dos nossos filhos e que a lei se cumpra.”
palavra da salvação.
*Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Referências
¹RIBEIRO, Gustavo Lins. O capital da esperança: a experiência dos trabalhadores na construção de Brasília. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008.
² SOUSA, Nair Heloisa Bicalho de. O massacre de Pacheco Fernandes Dantas em 1959: memória dos trabalhadores da construção civil de Brasília. Revista Intercâmbio dos Congressos Internacionais de Humanidades, Brasília, v. 1, 2011.
³ TEIXEIRA, Hermes Aquino. No tempo da GEB (1956-1960): trabalho e violência na construção de Brasília. Brasília: Thesaurus, 1996.
? “Conterrâneo Velhos de Guerra”, filme de Vladimir Carvalho, 1994.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
Publicação de: Viomundo
