João Batista Damasceno: Vida de cão

VIDA DE CÃO

Por João Batista Damasceno*, em seu blog Resistência Lírica

O Brasil está em justa comoção por causa da morte da cachorra Orelha, em decorrência de uma paulada lhe desferida, supostamente, por quatro adolescentes de classe média ou ricos na Praia Brava, no litoral de Santa Catarina.

Numa sociedade marcada pela desigualdade social e acentuada concentração de renda, o gozo dos pobres é o sofrimento dos ricos; o gozo dos ricos é o sofrimento dos pobres. Daí o clamor pelo linchamento dos jovens que mataram a cadelinha Orelha.

Toda vida merece respeito, pois se trata de uma rearrumação das cadeias de carbono que se eternizam.

O que assombra são as manifestações em razão da bárbara morte de uma cachorra quando a morte de 122 pessoas no Complexo da Penha/RJ mereceu comemoração.

Li ontem, depois do almoço, um pequeno livro do pedagogo Michel Ferreira Saraiva, intitulado A MENINA DAS ALMAS.

Michel é também humorista e suas postagens no Tik Tok e Instagran em “@papodepixta” nos faz ganhar o dia. Em linguagem descontraída, ora se dirige ao amigo “Carrapeta”, com quem “fala sério”, ora com o “Fumacinha”, amigo vacilão.

O livro do Michel não contém humor. Está situado no contexto de um romance místico ou em algum estilo que tangencia o realismo mágico.

Do prefácio de seu livro se depreende o seguinte: “A pobreza assusta. Aterroriza o quanto as pessoas, tantas pessoas, chegam a nem notar o assédio cotidiano de suas próprias misérias. A exclusão é um terror. A destituição que opera psicopatias neste Mundo… e no outro. O agarro assustador à sobrevivência mirrada que molda meninas em formas de distorção… A Falange dos Caveiras que restaura a ordem, reconduzindo à invisibilidade o que, no alto do Morro, não merece ser percebido. A Falange dos Caveiras que, no extremo baixo do Morro, desvela o sentido que pode haver no absurdo. O terror é sufocante, porque a essência do terror é a tristeza”.

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Michel que vive na periferia fala da periferia. Nela a vida de 122 pessoas vale menos que a vida de uma cachorra.

Matérias jornalísticas impressas, online e telejornais nominam os adolescentes como monstros.

Sem dúvida o que fizeram foi bárbaro. Mas nossa história está permeada de maus tratos aos animais, às vezes a título de recreação, como as touradas e a Farra do Boi que muitos defendem como componente da tradição de determinados povos.

Há quem tenha jardim em residência unifamiliar ou condomínio e que não dispensa o sal para afastar lesmas ou sapos, sem se dar conta de que se está desidratando o animal vivo.

É possível dizer que os maus-tratos aos animais compõe a cultura brasileira.

Mais ainda os maus-tratos às pessoas humanas, notadamente, pretos e pobres moradores na periferia.

Além do esculacho e execução, o dia a dia de um trabalhador morador da periferia é de maus-tratos. O modo como se transportam pessoas humanas de casa para o trabalho e do trabalho para casa jamais seria admitido para o transporte de animais.

Em algumas etnias indígenas crianças com deficiência física ou problemas graves de saúde podem ser vítimas de infanticídio. Esta prática é vista por determinados grupos como proteção étnica e parte da organização cultural de cada povo que a exercita.

As execuções que a política de extermínio de pretos e pobres moradores das periferias das grandes cidades, que sequer têm o direito de serem explorados pelo capital ou compor o exército de reserva de mão de obra, não mobiliza as mentes e corações como faz a tenebrosa morte de uma cachorra.

A tortura e a morte da cachorrinha Orelha, que segundo a mídia era adotada, acarinhada e alimentada por frequentadores de uma praia no litoral catarinense, segue noticiada e comentada. A paulada que lhe devem ter dado na cabeça tem sido considerada um martírio decorrente da “diversão macabra por jovens ricos”.

Já há quem diga que dos quatro jovens um é filho de uma desembargadora e outro de um desembargador. Tal fato não é real.

Mas do jeito que a coisa anda não faltará quem os aponte como netos de ministros do STF. O judiciário é a bola da vez. E pouco importa a realidade. O que interessa é dar asas à fantasia e ao delírio punitivo.

Há clamor, manifestação e abaixo assinado pedindo a punição exemplar dos “monstros que martirizaram” a querida cadelinha. Os adolescentes são chamados de assassinos, cujo crime não pode ficar impune.

O caso é escabroso. Mas o punitivismo o é mais e poderá resultar em consequências muito danosas aos jovens pretos e pobres da periferia.

Parcela da sociedade que se considera “progressista” e defensora da dignidade animal, polarizando, se coloca no outro lado da moeda que tem numa das faces o fenômeno designado de “bolsonarismo”.

Esta parcela sensível da sociedade está clamando pelo linchamento dos adolescentes, por serem supostamente ricos e filhos de integrantes da oligarquia que se situa no andar de cima da nossa estrutura social.

O que aqueles que promovem o linchamento dos adolescentes não percebem é que estão fazendo coro com a proposta dos setores mais retrógrados da sociedade que defende a diminuição da maioridade penal, quando não possível o “exterminio” de jovens pobres da periferia.

Vivemos momento de irracionalidade e clamor por linchamentos, notadamente nas redes sociais. As informações chegam-nos em turbilhões, sem possibilidade de captação adequada e processamento, e falta-nos – não raro – conhecimento antes de manifestações.

Uma mudança da lei não atingiria os autores da morte da cadelinha Orelha. A lei penal maléfica não retroage. Mas seria tenebrosa no futuro. Um exemplo é a Lei Hedionda dos Crimes Hediondos, editada diante do justo clamor de uma mãe que perdera a filha e que se mantém fiel ao bolsonarismo demandando mais punições.

Os supostos malfeitores são adolescentes. Há medidas socioeducativas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente/ECA (Lei 8069/90) a lhes ser aplicadas, respeitado o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa.

Mesmo para os praticantes de crimes, portanto pessoas a quem se pode imputar prática de ilícito penal, exigimos o trânsito em julgado para lhes considerar culpados. E isto até quando o crime é hediondo.

Não devemos fazer coro com os que defendem a política de extermínio e a ressurreição da FUNABEM ou do Código de Menores.

O ECA foi o resultado de muita luta e a solução não está no linchamento ou punição exemplar e individual de crianças ou adolescentes, mas na proposta de Anísio Teixeira, Roquete Pinto, Fernando de Azevedo, Júlio de Mesquita Filho, Almeida Júnior, Carneiro Leão e muitos outros no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova de 1932.

Estamos colhendo a falta de educação para a cidadania proposta no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova de 1932 que jamais foi implementada, apesar dos esforços de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, jogado no poço de um elevador em 1971 durante a ditadura do general-presidente Garrastazu Médici.

Não pouco daqueles que, embora se considerando progressistas, se colocam no verso da moeda, cujo anverso é o fenômeno designado como bolsonarismo (na verdade escatologismo social) em outros momentos da história rejeitaram a educação pública, integral (e em horário integral), universal, gratuita e laica, sob o pretexto de que “escola não é restaurante”.

Neste momento prestam relevante serviço ao punitivismo e ao linchamento cujo efeito jamais recairá sobre jovens de classe média ou filhos de ricos, mas seria devastador para jovens pobres da periferia.

A cada dia fica mais evidente o perfil autoritário e punitivista da nossa sociedade, com características similares às que orientaram o fascismo.

A execução de 122 pessoas no Complexo da Penha não mobilizou corações e mentes, mas de uma cachorra se tornou clamor nacional.

Mas devemos nos orientar por Paco Urundo e esquivar o mau tempo.

PARA ESQUIVAR O MAU TEMPO

“Em primeiro lugar, não se desespere e em caso de agitação não siga as regras que o furacão quererá lhe impor.

“Refugie-se em casa e feche as trancas quando todos os seus estiverem a salvo.

“Compartilhe o mate e a conversa com os companheiros, os beijos furtivos e as noites clandestinas com quem lhe assegure ternura.

“Não deixe que a estupidez se imponha.

“Defenda-se.

“Contra a estética, ética.

“Esteja sempre atento.

“Não lhes bastará empobrecê-lo, e quererão subjugá-lo com sua própria tristeza.

“Ria ostensivamente.

“Tire sarro: a direita é mal comida.

“Será imprescindível jantar juntos a cada dia até que a tormenta passe.

“São coisas simples, mas nem por isso menos eficazes.

“Diga para o lado bom dia, por favor e obrigado.

“E tomar no cu quando o solicitem de cima.

“Dê tudo o que tiver, mas nunca sozinho.

“Eles sabem como emboscá-lo na solidão desprevenida de uma tarde.

“Lembre que os artistas serão sempre nossos.

“E o esquecimento será feroz com o bando de impostores que os acompanha.

“Tudo vai ficar bem se você me ouvir.

“Sobreviveremos novamente, estamos maduros.

“Cuidemos dos garotos, que eles quererão podar.

“Só é preciso se munir bem e não amesquinhar amabilidades.

“Devemos ter à mão os poemas indispensáveis, o vinho tinto e o violão.

“Sorrir aos nossos pais como vacina contra a angústia diária.

“Ser piedosos com os amigos.

“Não confundir os ingênuos com os traidores.

“E, mesmo com estes, ter o perdão fácil quando voltarem com as ilusões acabadas.

“Aqui ninguém sobra.

“E, isto sim, ser perseverantes e tenazes, escrever religiosamente todos os dias, todas as tardes, todas as noites.

“Ainda sustentados em teimosias se a fé desmoronar.

“Nisso, não haverá trégua para ninguém.

“A poesia dói nesses filhos da puta.”

*João Batista Damasceno é professor e doutor em Ciência Política.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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