Gleisi e Filipe Barros batem boca sobre projeto do FGC no caso Master
A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT-PR), e o deputado federal Filipe Barros (PL-PR) entraram em choque político por causa do caso Banco Master e do projeto que elevava a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para R$ 1 milhão.
Gleisi Hoffmann e Filipe Barros são pré-candidatos ao Senado no Paraná. E esse bate-boca antecipa o tamanho da tensão para 2026, quando o estado elegerá duas vagas para a Casa. Levantamentos recentes já incluem os dois entre os nomes lembrados para a Câmara Alta, o que ajuda a explicar por que a temperatura subiu tanto antes mesmo de a campanha começar oficialmente.
Eles passaram a trocar acusações depois que Barros tentou se defender das críticas sobre sua atuação no episódio.
Gleisi respondeu com ironia e atacou a própria consistência da versão apresentada pelo deputado.
Segundo a ministra, Filipe Barros nem teria citado corretamente o número do projeto. Ela afirma que a proposta não é o PL 4935/24, como ele alegou, mas o PL 4395/24.
A ministra também sustentou que a assinatura de uma CPMI para investigar o caso, feita pelo parlamentar mais de um ano depois da apresentação do projeto, não serviria como prova de independência política.
Na leitura dela, esse movimento funcionaria mais como cortina de fumaça do que como demonstração de coerência.
O centro da disputa está no conteúdo do projeto.
Filipe Barros sustenta que a proposta teria nascido para proteger investidores e enfrentar práticas criminosas no mercado.
Gleisi rebate essa versão de forma frontal.
Para ela, o texto não combatia fraudes nem impunha freios a esquemas financeiros de alto risco. Na interpretação da ministra, o projeto apenas ampliava em quatro vezes o limite de cobertura do FGC, de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, o que acabaria fortalecendo o modelo de captação que sustentou a expansão do Banco Master.
Eles divergem, portanto, não apenas sobre a intenção política do projeto, mas sobre seu efeito concreto no sistema financeiro.
Gleisi afirma que a medida não protegeria o pequeno investidor, como diz Barros.
Segundo ela, o aumento da garantia estimularia aplicações em operações mais arriscadas, ampliaria a fragilidade do sistema e acabaria gerando custos indiretos para a população.
A ministra argumenta que, embora o FGC seja abastecido por recursos privados dos bancos, esse mecanismo produz impacto econômico mais amplo.
Na tese defendida por Gleisi, os aportes ao fundo reduzem a base de lucro tributável das instituições e ainda podem pressionar juros e tarifas para compensar perdas.
Filipe Barros, por sua vez, tenta deslocar o foco da crítica.
Ele afirma que foi um dos primeiros parlamentares a apoiar a CPMI do caso Master, diz ter acionado a Polícia Federal ainda em dezembro de 2024 contra a Reag Investimentos e sustenta que retirou o projeto de tramitação ao perceber que a proposta havia sido contaminada por ilações políticas.
Gleisi não comprou essa versão.
Ela afirmou que o projeto nasceu para favorecer interesses criminosos e fechou o ataque com a frase mais dura de toda a polêmica: “Resta saber o que o nobre deputado recebeu em troca.”
A acusação elevou a temperatura do confronto e transformou a divergência sobre o FGC em embate aberto entre governismo e bolsonarismo no Paraná.
Eles agora disputam não só a narrativa sobre o Master, mas também o significado político de cada gesto dado ao longo da crise.
De um lado, Filipe Barros tenta se apresentar como alguém que investigou o escândalo.
De outro, Gleisi Hoffmann procura enquadrá-lo como autor de uma proposta que teria ampliado a proteção a um sistema já contaminado por risco, privilégio e suspeitas.
No fim, o choque entre os dois expõe que o caso Master deixou de ser apenas um escândalo financeiro.
Virou também um campo de batalha político, no qual cada lado tenta empurrar para o adversário a conta da crise.
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O que disse Gleisi Hoffmann
Para começar, ele [Filipe Barros] nem sabe o nº do próprio projeto (talvez porque foi encomendado?): não é o 4935/24, mas o 4395/24.
- Assinar a CPMI, como ele fez, mais de um ano depois de apresentar o projeto, só cria uma cortina de fumaça sobre o que ele tem a esconder.
- A única coisa que o PL faz é aumenta em 4 vezes o limite de cobertura do FGC, de R$ 250 mil, como hj definido pelo BC, para R$ 1 milhão. Mais nada. Não tem nada a ver com “combater interesses criminosos de instituições golpistas que, diante da inoperância de agentes de fiscalização do mercado, vendem promessas falsas de lucro vultoso”. Não combate nada, é exatamente o contrário. Ele viabiliza a ampliação da escala do modelo criminoso de negócios do Master, que captava recursos no mercado justamente vendendo “promessas falsas de lucro vultoso”, e os aplicava em esquemas extremamente arriscados, além de manter uma extensa rede de corrupção alimentada com gastos fastuosos. Os investidores somente aportavam recursos no banco porque sabiam que, se ele quebrasse, seriam compensados pelo FGC, mas só até R$ 250 mil. Para conseguir mais recursos, era necessário aumentar esse valor, e é precisamente isso o que o PL do dep.Barros faz. Ao invés de dar segurança para o pequeno e médio investidor, aumenta a fragilidade do sistema financeiro e prejudica a todos.
- Isso porque, embora o FGC seja de fato um fundo alimentado com recursos privados, eles provêm dos demais bancos, o que tem tuas implicações: por um lado, o aporte no Fundo reduz o lucro das instituições e, com isso, o IRPJ e a CSLL que pagam sobre ele, de até 45% dos aportes, que iriam para o governo que, com ele, poderia custear serviços públicos e investir. Por outro lado, para compensar parte da perda, os bancos tendem a aumentar os juros cobrados das pessoas e empresas que tomam crédito.
- Ao contrário do que o deputado diz na nota, o PL 4395/24 nasceu para favorecer interesses criminosos e prejudicar a população. Resta saber o que o nobre deputado recebeu em troca.
Polêmica começou após matéria do Blog do Esmael
A troca de farpas entre Gleisi Hoffmann e Filipe Barros ganhou corpo depois de matéria publicada pelo Blog do Esmael sobre o caso Banco Master e a movimentação política em torno do projeto que elevava o teto de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Foi a partir dessa publicação que Filipe Barros enviou nota para contestar a interpretação de que sua atuação teria ajudado a ampliar a rede de proteção de um sistema financeiro já cercado de suspeitas.
Na reação, o deputado tentou sustentar que seu projeto não nasceu para blindar interesses do Master, mas para dar segurança a pequenos e médios investidores. Também alegou ter atuado em favor de investigações sobre personagens ligados ao escândalo.
A resposta veio em seguida.
Gleisi Hoffmann, ao comentar o caso, partiu para o ataque e desmontou a versão apresentada pelo parlamentar. A ministra afirmou que o deputado nem citou corretamente o número do próprio projeto, disse que a proposta servia apenas para quadruplicar a cobertura do FGC e insinuou que o texto atendia a interesses inconfessáveis.
Com isso, o que começou como contestação a uma reportagem virou confronto direto entre dois nomes já colocados no radar da disputa ao Senado no Paraná.
A matéria do Blog do Esmael, portanto, funcionou como gatilho de uma briga que revela mais do que uma divergência técnica sobre o FGC. Ela expôs uma disputa política de fundo, em que cada lado tenta empurrar para o adversário o ônus de um dos escândalos financeiros mais ruidosos do período.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
