Ângela Carrato: JN/Globo insiste em mentiras para acusar Lulinha, mas o alvo é sempre Lula

Por Ângela Carrato*

Independente do teor do relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, o Centrão e a extrema-direita que tentaram usar o espaço para atacar o presidente Lula, através do seu filho, se deram mal.

E a mídia corporativa, hereditária e subimperialista, Jornal Nacional à frente, também.

Não é a primeira vez e nem será a última, que a oposição cria factoides contra Fábio Luiz, que nunca teve o apelido de “Lulinha”.

Ele só é chamado assim pelo JN e nos demais veículos desta velha mídia.

Fábio Luiz é o filho mais velho do presidente Lula.

Lula tem cinco filhos e nove netos. Todos discretos e nenhum na carreira política ao contrário, por exemplo, dos quatro filhos de Jair Bolsonaro, todos na vida pública e envolvidos em trapalhadas e denúncias variadas, inclusive grossa corrupção, como é o caso do senador Flávio. A única exceção é Laura, a filha mais nova dele com Michele.

O objetivo alegado pela oposição para que a CPMI do INSS fosse instalada era investigar um esquema bilionário de fraudes e descontos indevidos nos benefícios de aposentados e pensionistas.

Os prejuízos, segundo o governo, totalizavam cerca de R$ 6,5 bilhões. Com razão, os governistas argumentavam que a CMPI era desnecessária, pois as fraudes e seus responsáveis já estavam identificados.

As fraudes começaram no governo do golpista Michel Temer, ampliaram-se no desgoverno Bolsonaro e foram identificadas e coibidas a partir do segundo ano do governo Lula.

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Além da saída do ministro da Previdência Social, Carlos Luppi, foram demitidos dirigentes e assessores do INSS. Ou seja: o governo passou pente fino em toda a estrutura.

A preocupação de Lula com estes descontos nos já magros recebimentos de aposentados e pensionistas é tamanha, que ele determinou que os ressarcimentos fossem feitos imediatamente. Toda uma estrutura foi criada para tanto, inclusive com atendimento telefônico e pela internet.

A rigor não havia mais o que apurar, mas a oposição insistiu, acreditando que poderia transformar a CPMI em palco para ataques a Lula em ano eleitoral.

Ao contrário de mirar nos efetivos fraudadores, o presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG) passou a barrar a convocação destas pessoas e a apoiar apenas as daqueles que, supostamente, poderíamos trazer algum dano para o governo.

Em vários momentos, o espaço da CPMI transformou-se em campo de batalha, como no dia em que foram aprovadas, de uma única vez, a quebra de sigilo bancário de 84 pessoas, entre elas a de Fábio Luiz, o filho de Lula.

A aprovação em si se mostrou ilegal, como denunciaram os governistas, pois 14 parlamentares presentes votaram contra e apenas 7 a favor. Como a sessão foi tumultuada, Carlos Viana referendou o resultado errado e não aceitou voltar atrás.

Também o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União), mesmo diante de um erro que a simples observação do vídeo da sessão restauraria a verdade, também manteve o resultado.

Diante do absurdo e por solicitação dos governistas, o ministro do STF, Flávio Dino, analisou o assunto e concluiu que a quebra de sigilo não só de Fábio Luiz como das outras 83 pessoas era ilegal, pois a votação não poderia ter sido em bloco. Deveria ter sido feita caso a caso e com exposição de motivos que as justificassem.

A determinação de Dino acabou não surtindo efeito. Fábio Luiz, por decisão própria, abriu seus sigilos bancário, telefônico e telemático.

O ministro do STF, André Mendonça, o “terrivelmente evangélico” indicado por Bolsonaro, já havia aceitado o pedido que o presidente da CPMI havia lhe encaminhado.

André Mendonça é o relator no STF do processo do INSS e agora também do Banco Master.

Foi a conta para que os oposicionistas começassem a fazer um verdadeiro carnaval, procurando com lupa qualquer indício de irregularidade nas movimentações bancárias, em ligações telefônicas ou mensagens de Fábio Luiz.

Como não acharam nada, inventaram.

A invenção foi com relação à suposta movimentação de R$ 19,5 milhões por parte de Fábio Luiz.

Se o número à primeira vista pode impressionar, ele simplesmente não é real. Para se chegar a tanto, os oposicionistas somaram entrada e saída de recursos ao longo de cinco anos.

Portanto não se tratava de R$ 19,5 milhões, mas de menos de R$10 milhões. Valor que, dividido por cinco anos, dá um total mensal em torno de R$ 200 mil. Valor compatível com os de um empresário de porte pequeno a médio, como é o caso.

Em 5/3, no entanto, o portal G1, do Grupo Globo manchetava: “Filho de Lula fez 1,5 mil transações bancárias e movimentou R$ 19,5 milhões entre 2022 e 2026, revela quebra de sigilo”.

Mesmo não havendo qualquer movimentação suspeita, o G1 insinuava uma grande corrupção, encontrada a partir da quebra do sigilo!

O G1 não informou, por exemplo, que boa parte da movimentação veio de resgates de fundos de investimentos devidamente declarados à Receita Federal e incluía até antecipação de herança, devido à morte de dona Marisa Letícia.

Como o objetivo era criar confusão junto à opinião pública, os oposicionistas passaram a se referir a uma viagem feita por Fábio Luiz com o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes a Portugal, anos atrás, quando ele era apenas um bem sucedido empresário da área farmacêutica, como a viagem com o “lobista do INSS”. O objetivo era visitar um empreendimento sobre canabiol, então do interesse empresarial de Fábio Luiz.

Ninguém pode ser responsabilizado pelas ações que uma determinada pessoa veio a fazer, como aconteceu com Fábio Luiz em se tratando do empresário, agora transformado pela mídia em “Careca do INSS”.

Se o critério fosse esse, todas as pessoas que tiveram contato com um criminoso ou corrupto em algum momento pregresso de suas vidas passariam a ser também consideradas suspeitas.

É preciso ter critérios e provas antes de se fazer acusações.

O JN, claro, que não se preocupou com nada disso. Passou a abrir generosos espaços em seu noticiário para o caso “Lulinha-INSS”.

Em 5/3, por exemplo, o colunista de O Globo, Lauro Jardim, em seu blog escrevia: “Caso Master e Lulinha fazem menções negativas a Lula explodirem nas redes sociais”.

A nova campanha contra “Lulinha” implementada pela mídia corporativa e pelas redes sociais de extrema-direita estava apenas começando.

Na semana de 15 a 20/3, o jornal Estado de S. Paulo publicou, com enorme destaque, que “PF investiga se dinheiro desviado do INSS ajudou a pagar viagens do filho do presidente Lula”.

Imediatamente, na edição de 18/3, o JN “confirmou” e repercutiu a informação com o maior alarde. A reportagem durou 5 minutos, uma eternidade para os padrões do telejornal da família Marinho.

Toda a reportagem, como anteriormente, foi montada em cima de suposições. Nenhuma prova.

A campanha contra “Lulinha” não parou aí.

Gravações de um dos celulares do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, vazadas por um setor da Polícia Federal, davam conta de um pagamento para “o filho do rapaz”.

Como nos tempos da Operação Lava Jato, imediatamente os novos Deltans Dallagnols entraram em campo: “não temos prova, temos convicção”. O “filho do rapaz” só podia ser “Lulinha”.

Foi por pura “convicção” que a Lava Jato revirou a vida de Lula e de seus familiares. Até um netinho seu de 7 anos teve o tablete apreendido pela Polícia Federal durante mandado de busca e apreensão.

Foi novamente a partir de “convicção” que a mídia corporativa fez outro Carnaval contra o filho de presidente Lula, divulgando a absurda informação de que a prisão dele iria ser pedida e que ele não poderia deixar o país.

Detalhe: mesmo morando na Espanha, Fábio Luiz se colocou à disposição das autoridades para quaisquer esclarecimentos e voluntariamente abriu seus segredos bancários, telefônicos e telemáticos.

Informação que a mídia corporativa simplesmente sonegou do seu respeitável público.

Mas a coisa não parou aí.

Veículos de extrema-direita como os portais Metrópoles e Revista Oeste entraram no assunto.

A Revista Oeste buscou, em 27/3, dar novo impulso à campanha com o absurdo título: “Caso Lulinha ganha repercussão internacional”. A matéria nada mais faz do que requentar informações antigas e já superadas.

A grande novidade que mereceria manchete foi escondida pela mídia corporativa e portais de extrema-direita: O “filho do rapaz” não é Fábio Luiz e, sim, o do ministro do STF, Kássio Nunes Marques.

Kevin Marques, um advogado de 25 anos, com apenas um ano de OAB, recebeu R$ 18 milhões da JBS e Banco Master. Os pagamentos coincidiram com as decisões do ministro Nunes Marques sobre o futuro da Eldorado Celulose.

O ministro Nunes Marques declarou apenas que o filho não atua no STF ou TSE.

Os irmãos Marinho e demais proprietários da mídia corporativa devem ter ficado decepcionados, pois “Lulinha” não tinha nada a ver com a denúncia.

Mas decepção não pode justificar que abafem o caso envolvendo o filho do ministro Nunes Marques, como está sendo feito.

Ao contrário de Bolsonaro, que afirmou que mudaria o diretor da Polícia Federal e até o Ministro da Justiça para defender um filho, Lula, quando essa nova campanha contra Fábio Luiz teve início foi certeiro: “vai pagar o preço”, se tiver envolvido em fraudes do INSS.

Em entrevista exclusiva para a jornalista Daniela Lima, do portal UOL, foi além. Ele relatou ter dito ao filho: “Olha, só você sabe a verdade, se você tiver alguma coisa, você vai pagar o preço”.

Até agora, como em campanhas eleitorais anteriores, os que acusam “Lulinha” não conseguiram provar nada.

Quem se recorda que Fábio Luiz já foi acusado de ser proprietário de bens valiosíssimos, de ser um verdadeiro marajá?

Em 2017, vídeos falsos circularam na internet dando conta que ele tinha uma Ferrari de ouro. O vídeo era montagem a partir de um carro de um bilionário saudita que residia em Mônaco.

A fake news sobre a tal fazenda cinematográfica era um pouco mais bem feita. Porém, bastava dar um clique no Google para descobrir que a tal propriedade era na verdade o campus da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, localizada em Piracicaba (SP).

É interessante observar como a mídia corporativa tem obsessão por “Lulinha” e faz vista grossa para os filhos de Bolsonaro.

Está em curso uma operação para “lavar” a imagem do senador Flávio Bolsonaro, o filho 01, pré-candidato à presidência da República nas eleições de outubro, ao mesmo tempo em que se tenta enlamear o “Lulinha”.

O objetivo é óbvio: transformar Flávio num político limpo, sem passado e jogar sobre Lula/“Lulinha” o peso de uma trajetória supostamente marcada por corrupções.

O caro (a) leitor (a) percebe a manipulação?

O filho de Lula é “Lulinha”, já o filho de Bolsonaro é Flávio, sem sobrenome e sem passado. E o passado de Flávio é complicado.

Ele já foi denunciado por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita no caso das “rachadinhas”.

Os processos foram anulados e arquivados com o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro rejeitando as denúncias.

Mais recentemente, Flávio Bolsonaro, um admirador de Trump, pediu que ele bombardeasse a baía da Guanabara, porque “tinha ouvido falar” que por lá havia tráfico de drogas.

Assim, uma CPI que prometia “detonar” com o governo Lula terminou de forma melancólica.

O ministro Flávio Dino deu parecer contrário para que os trabalhos fossem prorrogados por mais 60 dias.

Na sessão plenária do STF para ratificar ou não o voto de Dino, o placar foi de 8×2. A turma lavajatista perdeu feio. Os únicos votos contrários foram os de André Mendonça e Nunes Marques.

O próprio Carlos Viana, que acusava “Lulinha”, acabou obrigado a se explicar a respeito de emenda parlamentar no valor de R$ 3,6 milhões, que enviou para a Igreja da Lagoinha, aquela toda enrolada em corrupção do Banco Master e que ele procurou blindar durante a CPMI.

Quanto ao relatório final da CPMI, trata-se de mais uma peça de campanha da oposição contra Lula sempre com muita “convicção”, mas sem nenhuma prova.

A oposição perdeu de novo.

*Ângela Carrato é jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG e membro do Conselho Deliberativo da ABI

Publicação de: Viomundo

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