Acerto de Ratinho com MDB põe Greca no telhado

A pré-candidatura de Rafael Greca (MDB) ao Palácio Iguaçu pode ter perdido altitude no exato momento em que o governador Ratinho Junior (PSD) entregou ao MDB o que a legenda mais cobrava na janela: ajuda concreta para montar a chapa da Câmara. Se o compromisso central era esse, Greca deixa de ser peça obrigatória e volta a ser hipótese, não destino.

Há um ano, nas comemorações dos 59 anos do velho MDB guerra, em Curitiba, o partido já se movia para fortalecer sua nominata federal e reabrir pontes no Paraná. Naquele ambiente, Baleia Rossi, presidente nacional da sigla, dava sinais de que o MDB queria musculatura própria e margem para negociar com quem tivesse viabilidade regional.

Foi nesse trilho que o MDB tratou Ratinho como aliança prioritária no estado. A lógica sempre foi menos sentimental do que prática: apoiar o grupo do governador, desde que o Palácio ajudasse a encorpar a proporcional emedebista para outubro. O resto, inclusive a cabeça de chapa, poderia ser administrado mais adiante, conforme a correlação de forças.

Quando Ratinho titubeou na reta das desincompatibilizações e da janela, abriu-se um vazio. Greca aproveitou o intervalo e se filiou ao MDB no mês passado, ao lado de Baleia Rossi e do deputado federal Sergio Souza (MDB), já apresentado como pré-candidato ao governo. No discurso, o ex-prefeito tentou vender a mudança como gesto de fidelidade ao projeto de Ratinho.

Só que o roteiro virou poucos dias depois. Na reta final de março, Ratinho desistiu da corrida presidencial, permaneceu no governo e concentrou forças na sucessão paranaense. Ao ficar no cargo, retomou a caneta, o tempo e a capacidade de arbitrar a eleição local, exatamente o que havia escasseado quando Greca desembarcou no MDB.

Wilson Soler, ex-RPC/Globo, está de olho na Câmara. Foto: reprodução/rrss
Wilson Soler, ex-RPC/Globo, está de olho na Câmara. Foto: reprodução/rrss

Nesse contexto, a filiação de Greca passa a poder ser lida menos como lançamento irreversível e mais como movimento de pressão. Serviu para avisar ao PSD que o MDB tinha nome, palanque e autonomia. Mas a utilidade dessa pressão cai se o Palácio resolve, na undécima hora, honrar o acordo que realmente interessa ao partido: chapa competitiva para deputado federal.

A entrada da ex-prefeita Karime Fayad no MDB, já com foco declarado na Câmara dos Deputados, é um sinal objetivo dessa recomposição. Depois de se filiar, ela se filiou apareceu na segunda-feira (6) ao lado de Sergio Souza e de Greca, num movimento que reforça a nominata federal do partido. Segundo apuração do Blog do Esmael, essa vitamina não parou aí e inclui também o jornalista Wilson Soler na mesma costura proporcional.

É aí que Greca pode ter subido no telhado. Se o MDB recebeu do Palácio a ajuda pedida para proteger a própria bancada, sobretudo a reeleição de Sergio Souza, o partido já não precisa tratar a candidatura de Greca como fatura vencida. Pode mantê-la em circulação, pode valorizá-la na mesa, mas também pode recuar dela se Ratinho oferecer arranjo mais vantajoso no fechamento da chapa majoritária.

Greca continua forte, conhecido e competitivo. Ninguém sério o tira do jogo neste momento. O problema é outro: sua pré-candidatura nasceu para ocupar um espaço deixado pela hesitação de Ratinho. Quando o governador voltou a exercer comando sobre a sucessão e ainda ajudou a resolver a angústia da proporcional emedebista, o fundamento político da operação Greca ficou menos sólido.

No fim das contas, o MDB do Paraná parece ter voltado à sua vocação clássica. Primeiro garante bancada, depois decide o resto. Se essa leitura estiver correta, Greca não caiu do telhado, mas já não pisa no chão firme que parecia ter no ato de filiação.

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Sérgio Souza, Karime Fayad e Rafael Greca. Foto: reprodução/MDB

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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