Gleisi acerta ferida aberta de Moro após entrevista na Jovem Pan

O senador Sergio Moro (PL) foi à Jovem Pan Paraná, nesta semana, para se vender como gestor do Estado, mas entregou outra coisa: um candidato que fala como palanque nacional, promete sem abrir conta e escapa justamente quando a entrevista encosta em orçamento, imposto e responsabilidade administrativa. A reação da deputada federal Gleisi Hoffmann (PT), ex-ministra da Secretaria de Relações Institucionais, amplificou o estrago ao devolver no mesmo terreno simbólico em que Moro tentou se apoiar, Tiradentes, Justiça e moralidade pública.

O primeiro dado que outras leituras deixaram escapar está no ambiente da entrevista. Moro não entrou num estúdio hostil. Antes de sua fala, o programa já havia desfilado ataques à escala 6×1, a Janja, ao governo Lula e ao Supremo Tribunal Federal. Quando o senador sentou, a trilha estava pronta. Ainda assim, em vez de aproveitar o campo favorável para detalhar propostas de governo, ele preferiu transformar a disputa pelo Palácio Iguaçu num braço regional da guerra contra Brasília.

A contradição central nasce aí. Moro diz que quer governar o Paraná, mas responde como candidato a chefe da oposição nacional. Sua ideia-força, fazer do Paraná uma “fortaleza”, aparece menos como plano de Estado e mais como senha ideológica contra Lula, o STF e a capital federal. Em vez de metas de saúde, cronograma de infraestrutura, custo de digitalização ou desenho fiscal, o que domina a entrevista é a retórica de cerco.

Quando a conversa finalmente encostou em imposto, a falha ficou nua. Moro comparou o ICMS do Paraná com o de Santa Catarina e sustentou que o Estado perde competitividade. O contraste básico procede: a alíquota-base do ICMS no Paraná é de 19,5%, e Santa Catarina trabalha com alíquota interna de 17%. O problema não está no diagnóstico cru, mas no vazio que veio depois. Perguntado sobre como recompor caixa se reduzir tributos, Moro recuou para a fórmula genérica de “cortar gastos desnecessários”, sem dizer quais gastos, em que volume e com que impacto sobre o orçamento.

É aqui que a entrevista começa a desandar politicamente. O apresentador o interrompe para marcar a contradição, “mas não é mexer imposto, então não é cortar imposto?”, e Moro não resolve a conta. Troca o mecanismo por slogan. Para um candidato que tenta vestir a fantasia de gestor técnico, foi o momento mais revelador da manhã.

Na parte tributária, Moro também usou Tiradentes para atacar o governo federal. Disse que o mártir da Inconfidência foi executado por se revoltar contra o “quinto” e emendou que a carga tributária hoje está em 32% do PIB, atribuindo a escalada a Lula. O número isolado fica perto dos dados oficiais, mas a narrativa política dele é seletiva. O Tesouro informou carga tributária de 32,44% do PIB em 2023 e de 32,32% em 2024, ambas abaixo do patamar de 33,07% registrado em 2022. Moro escolheu o recorte que lhe interessava e apagou justamente o ano final do governo Bolsonaro, seu campo político de origem.

Há mais. Quando Moro fala em peso dos impostos, ele também passa ao largo do principal fato tributário do ano eleitoral. Desde 1º de janeiro de 2026, a nova tabela do Imposto de Renda isenta quem ganha até R$ 5 mil por mês e reduz a cobrança para rendas até R$ 7.350. O governo usa essa mudança como vitrine social. Moro preferiu falar de carga agregada, o terreno em que a crítica rende manchete, e silenciou sobre a medida concreta que atinge o bolso do trabalhador.

Foi nesse flanco que Gleisi entrou. Em vídeo publicado no Instagram, ela perguntou “quem é Sergio Moro para falar de Justiça?” e “quem é ele para invocar o nome de Tiradentes?”. Na peça, a petista trata Tiradentes como preso político da Coroa portuguesa, associa a devassa a um processo arbitrário e compara esse passado à Lava Jato conduzida por Moro contra Lula. É uma resposta feita para atingir o símbolo que o ex-juiz tentou sequestrar na entrevista.

A ofensiva de Gleisi ganha densidade porque encosta num ponto que Moro evita enfrentar em público. Ao defender a criação de uma agência estadual anticorrupção, ele volta ao personagem que o projetou nacionalmente, o juiz da moralização. Só que não explicou qual seria o desenho institucional do órgão, como se articularia com Controladoria, Ministério Público, Tribunal de Contas e Polícia Civil, nem quanto custaria. Pior para ele: esse discurso reaparece enquanto segue pendente na esfera pública o desgaste provocado pelo relatório da Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça, assinado por delegado da Polícia Federal que atuava em apoio ao órgão, segundo o qual Moro, Deltan Dallagnol e Gabriela Hardt teriam atuado para desviar cerca de R$ 2,5 bilhões para criar uma fundação privada. Os três negam as suspeitas.

Outra contradição pesada está na biografia política recente. Moro se apresenta como o homem que vai “proteger o Paraná” e diz que sempre foi a oposição mais clara a Lula. Mas Gleisi acertou ao reabrir a ferida de 2022. O próprio Tribunal Superior Eleitoral registrou que Moro deixou o Podemos do Paraná, filiou-se ao União Brasil de São Paulo e buscou transferir seu domicílio eleitoral. O TRE paulista não acolheu a mudança, e ele acabou concorrendo ao Senado pelo Paraná. O candidato que agora tenta monopolizar o discurso de pertencimento estadual já tentou, quando lhe pareceu conveniente, trocar de praça.

Há ainda a contradição com o próprio campo local. Moro disse que o PSD “sempre foi base do governo Lula”, mas na mesma entrevista afirmou que dará continuidade aos bons projetos de Ratinho Junior. Ele tenta ficar com as duas pontas ao mesmo tempo: herdar o bônus administrativo do grupo que governa o Paraná e, simultaneamente, pintar esse mesmo campo como cúmplice do Planalto. É um truque de campanha, não uma tese coerente de governo.

No trecho sobre Brasília, a entrevista também mostrou um Moro que gosta de soar categórico e fugir da consequência prática. Ele disse que a tendência é votar contra Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal e sugeriu que a vaga deveria ficar para o próximo presidente. É uma fala calculada para a militância oposicionista, mas que escapa do debate principal que o próprio programa dizia abrir, a disputa pelo governo do Paraná. O padrão se repetiu do começo ao fim: tudo vira Lula, STF, corrupção, Flávio Bolsonaro, menos a engenharia concreta de um eventual governo estadual.

No balanço final, a entrevista não fortaleceu Moro por mostrar um projeto pronto. Fez o contrário. Mostrou um candidato que acerta em alguns diagnósticos, como a pressão do ICMS paranaense sobre competitividade, mas tropeça quando precisa provar que sabe governar fora do palanque moral. E a resposta de Gleisi, ao puxar Tiradentes, Lava Jato, domicílio eleitoral e o relatório do CNJ, serviu para lembrar ao eleitor que a maior vulnerabilidade de Moro continua sendo a mesma: ele pede autoridade moral absoluta num terreno em que sua própria trajetória segue sob contestação pública e judicial.

Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.


.btn-whatsapp-esmael { display: inline-flex; align-items: center; justify-content: center; gap: 10px; background-color: #25D366; color: white; padding: 12px 20px; border-radius: 8px; text-decoration: none; font-weight: bold; font-size: 16px; font-family: Arial, sans-serif; transition: background 0.3s; max-width: 100%; text-align: center; } .btn-whatsapp-esmael:hover { background-color: #1ebe5b; } .aviso-whatsapp-esmael { font-size: 12px; color: #666; margin: 8px 0 0 0; line-height: 1.4; font-family: Arial, sans-serif; max-width: 400px; } @media (max-width: 480px) { .btn-whatsapp-esmael { width: 100%; padding: 14px 20px; font-size: 17px; } }

Share this news as a Photo Card

Generating high-quality image, please wait…

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *