Por Redação
62 anos do golpe militar: A reparação psíquica é possível?
Este foi o tema do painel realizado em São Paulo, na Livraria Martins Fontes Paulista, no dia 31 de março.
Objetivo, segundo os organizadores: fazer uma reflexão urgente sobre o tema e mostrar a necessidade de se criar um Centro de Reparação Psíquica para vítimas e afetados pela violência do Estado e que há 62 anos estão sem políticas públicas.
A programação reuniu pesquisadores, jornalistas e profissionais de saúde mental com trajetórias ligadas à memória e aos direitos humanos.
Entre os participantes, a jornalista Shellah Avellar, integrante do Coletivo Filhos e Netos por Memória Justiça e Verdade.
Sob o tema O Grito do Silêncio, abordou os efeitos transgeracionais da violência política — os impactos psíquicos transmitidos de formas diversas para filhos e netos de perseguidos. Shellah foi a curadora e mediadora do evento.
No texto abaixo, ela contextualiza a reflexão que fez no painel.
A COMUNIDADE DE DESTINO
Por Shellah Avellar
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Segundo Sandór Ferenczi (psicanalista húngaro), há momentos em que a história vivida transforma a concepção de tempo social, destacando a necessidade de enfrentar desafios comuns de forma conjunta.
Porque a reação imediata ao trauma é uma “agonia psíquica e física que acarreta uma dor tão incompreensível e insuportável” que o sujeito precisa distanciar-se de si mesmo, vivendo num estado de suspensão.
A ideia é que, em situações críticas, o “eu” se torna secundário ao “nós”, exigindo uma ação coletiva para a construção de um futuro sustentável.
E eu me pergunto: O que seria este futuro sustentável?!?
Essa reflexão insistente vem de estudos sobre traumas geracionais, o que são e como superá-los.
Estes fenômenos que afetam famílias, comunidades e até sociedades inteiras e que dizem respeito à transmissão de experiências traumáticas de uma geração para outra, influenciando comportamentos, emoções e padrões de vida, mesmo que os descendentes não tenham vivenciado diretamente os eventos traumáticos.
Em 2014, tive a benemerência do Estado Brasileiro de poder participar das Clínicas do Testemunho, através do Instituto Projetos Terapêuticos em São Paulo.
As Clínicas do Testemunho marcaram a ideia de que o Estado brasileiro produziu patologização (que significa retirar do indivíduo qualquer pecha ou rótulo a respeito da sua integridade mental) para que tenha lugar a construção da memória coletiva, que por sua vez rompe com o silenciamento/isolamento social.
As Clínicas do Testemunho se efetivaram em três eixos de ação: a capacitação de profissionais para essa especificidade clínica, a frente de atendimento clínico (individual e grupos de testemunho) e a produção de insumos para a memória coletiva (vídeos, filmes, documentários, etc).
Segundo a Corte Interamericana de Direitos Humanos, o golpe militar de 1964 que derrubou João Goulart deu início a um período de 21 anos caracterizado pela instalação de um aparelho de repressão que assumiu características de verdadeiro poder paralelo ao Estado”, e chegou ao seu “mais alto grau com a promulgação do Ato Institucional nº 5 em dezembro de 1968. Entre 1969 e 1974, produziu-se “uma ofensiva fulminante sobre os grupos armados de oposição.
Segundo a Comissão Especial, cerca de 50 mil pessoas teriam sido detidas somente nos primeiros meses da ditadura; cerca de 20 mil presos foram submetidos a torturas; há 354 mortos e desaparecidos políticos; 130 pessoas foram expulsas do país; 4.862 pessoas tiveram seus mandatos e direitos políticos suspensos, e centenas de camponeses foram assassinados.
Nem 1% dessas pessoas foi acolhida pelo projeto das Clínicas de Testemunho.
A partir deste dispositivo de escuta clínica, onde conheci protagonistas e coadjuvantes desta luta inglória por um Brasil mais justo, e de ter visto nascer e passar a integrar o Coletivo de Filhos & Netos por Memória, Justiça e Verdade, venho me empenhando na saga de criação de um Centro de Referência de Reparação Psíquica para vítimas e afetados pela violência de Estado, numa parceria entre o Ministério de Direitos Humanos e o Ministério da Saúde.
Contemplando também os jovens periféricos e suas famílias devastadas pela polícia militar diuturnamente.
Não. Não sou uma profissional de saúde mental.
Nem estou reivindicando este dispositivo de escuta clínica para meu uso pessoal.
E justamente porque foi extremamente decisivo para uma virada de chave em meu processo pessoal emocional é que eu gostaria de ver outras pessoas beneficiadas e contempladas, para que retomem suas vidas com mais leveza e possam se tornar protagonistas da ação, preenchendo suas lacunas com cuidados especiais de profissionais gabaritados para este tipo de atendimento.
Num olhar atento para os fragmentos de falas dos companheiros e companheiras percebi que estes testemunhos carregavam a dor do imaterial típica das situações traumáticas e das feridas que insistem em não cicatrizar.
Muitos camaradas, ativos militantes históricos, refutam a terapia e negam o trauma. Direito que lhes cabe.
Eu mesma silenciei por 50 anos, sem qualquer menção ao meu processo pessoal referido à ditadura militar.
Que sejam beneficiados, então, os que estão dispostos a falar, compartilhar e construir assim, quem sabe, este futuro sustentável.
Estamos há 62 anos do golpe militar e, apesar de quase cinco mandatos de governo progressista, que ajudamos a eleger, muito pouca atenção foi dada a este assunto, desrespeitando a história destes lutadores e a devastação de suas famílias.
Apesar de bater insistentemente nesta tecla, acho que somente o dispositivo clínico não será suficiente dado o tempo de acúmulo de mazelas e que outras terapias alternativas devam ser disponibilizadas para acelerar o processo de cura.
Resta a questão: A reparação psíquica é possível?
Lide com suas questões emocionais, senão vai passá-las aos seus filhos’, diz especialista em trauma Gabor Maté (médico húngaro, especialista em saúde da família, traumas e impactos na saúde física e mental)
“Tudo está conectado com tudo. Você não pode separar indivíduos de seu meio ambiente, da cultura em que cresceram e da história de múltiplas gerações de suas famílias. E você não pode separar o corpo da mente. Quando uma pessoa fica doente, a doença não é apenas a manifestação de um órgão, mas, sim, a manifestação de toda uma vida. É tudo uma coisa só.”
Eu finalizo: mesmo que estrangulássemos a nossa própria voz na garganta, não poderíamos ignorar nossa própria verdade.
Para saber mais, confira.
Volver a los 64, Shellah Avellar – Blog Sensorion
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Publicação de: Viomundo
