Por Marco Mondaini
Em dezembro de 2025, o programa Trilhas da Democracia, veiculado aos sábados e domingos pela TV 247, saiu das telas do Youtube e se transformou em um livro, que tem a pretensão de se tornar uma publicação anual, dialogando sobre os caminhos para o Brasil – um Brasil democrático e garantidor dos direitos humanos, em suas múltiplas dimensões – com alguns dos seus convidados e convidadas no curso dos 8 anos de existência do programa.
O livro chama-se Trilhas da Democracia: caminhos para o Brasil, recentemente lançado.
Seguem a nota introdutória, escrita pelos organizadores da obra, Marco Mondaini e Normando Rodrigues; o prefácio de Ricardo Berzoini, ex-presidente nacional do Partido dos Trabalhadores; e o posfácio de Marcelo Ridenti, sociólogo e professor titular da Unicamp. Ao final, a lista dos capítulos e autores.
Nota introdutória
Por Marco Mondaini e Normando Rodrigues*
As origens do presente livro remontam à noite de 28 de outubro de 2018, logo após a divulgação dos resultados do segundo turno das eleições presidenciais, com a vitória do candidato do Partido Social Liberal (PSL), o capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro, sobre o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), o professor Fernando Haddad. Vitória, registre-se, por uma diferença de 10.756.941 votos.
Naquele momento em que se deu mais um passo decisivo na direção do esgarçamento do tecido democrático brasileiro – iniciado em 17 de abril de 2016, na aprovação pelo plenário da Câmara dos Deputados da abertura do processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff, com 367 votos favoráveis –, foi tomada a decisão de criação de um programa semanal de entrevistas e debates sobre temas que girassem em torno da defesa da democracia e dos direitos humanos nas suas múltiplas dimensões.
Foi, portanto, quase uma reação instintiva ao que se concretizaria nos quatro anos seguintes: um governo de extrema-direita situado no campo fascista da política nacional e ultraneoliberal em termos econômicos, que tentou se perpetuar no poder por intermédio de sucessivas tentativas de golpe contra o Estado Democrático de Direito.
Nascia, então, o programa Trilhas da Democracia.
Transmitido inicialmente pela TVPE, a emissora pública de televisão do estado de Pernambuco, com o passar do tempo o programa começou a ser veiculado também pela TV247, pela TVT e pela Rádio Brasil de Fato e ampliava a sua duração de 30 para 60 minutos. Adiante, em virtude da pandemia, o Trilhas migrou da gravação em estúdio para o meio remoto sob as sombras do vírus da Covid-19 e do verme sequestrador da faixa presidencial.
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No instante em que a presente nota introdutória é redigida, o programa está prestes a completar oito anos de existência, já ultrapassada a marca das 350 edições, sendo veiculado apenas pela TV247, em dois episódios semanais: aos sábados, o Trilhas da Democracia Conjuntura; e aos domingos, o Trilhas da Democracia Temático.
O risco iminente de um golpe de Estado já pode ser olhado pelo espelho retrovisor, mas as nuvens cinzas que o rodeavam permanecem no horizonte, como que a nos lembrar diariamente da necessidade de mantermos uma estratégia de vigilância democrática permanente, a fim de que a extrema-direita fascista e os defensores do ultraneoliberalismo sejam mantidos em inofensiva dormência.
Foi exatamente nesse contexto de – ufanismos à parte – consolidação do Trilhas da Democracia e de retorno à normalidade democrática, que se tomou a iniciativa de convidar alguns dos mais importantes participantes do programa, desde o início de 2019, para que manifestassem suas preocupações em relação aos desafios a serem enfrentados na luta pela defesa e aprofundamento da democracia e dos direitos humanos no nosso país, a um ano de distância de mais um enfrentamento eleitoral decisivo.
Enfrentamento que novamente irá opor o Brasil àqueles que tentaram enterrar as conquistas advindas da passagem dos anos 1970 aos anos 1980, ainda consagradas no texto constitucional de 1988, inobstante as sucessivas contrarreformas.
Assim, nas páginas a seguir, serão encontradas análises levadas a cabo por intelectuais das mais variadas áreas das ciências humanas, sociais e jurídicas, que têm em comum o diálogo com a teoria crítica, a prudência na visualização da existência de riscos de retrocesso político provenientes das nossas estruturas históricas e a defesa da democracia como caminho a ser trilhado para a construção de um Estado e de uma sociedade voltados à realização da justiça social e ambiental, da liberdade e do respeito à diversidade.
E não percam o próximo programa!
Prefácio
Ricardo Berzoini*
Em março de 1964, dia 13, um comício organizado por movimentos populares e sindicais mobilizou milhares de pessoas e contou com a presença de ninguém menos que o então Presidente da República, João Goulart. O presidente proferiu um discurso histórico, que tratava das chamadas reformas de base, como sabemos, mas que falava justamente da democracia, qualificando o conceito, no momento em que o governo era acossado por forças que questionavam o posicionamento do presidente por reformas estruturais, como um risco à democracia.
Menos de três semanas depois, um golpe dos setores mais conservadores, militares e empresariais, com apoio do imperialismo americano em plena guerra fria, derrubava o governo e o projeto de reformas populares e modernizantes, capazes de enfrentar o atraso e a desigualdade.
Lutamos por duas décadas para reestabelecer o Estado democrático de direito e por uma nova Constituição, enfrentamos governos liberais ou neoliberais, antipopulares, elegemos um operário de um partido de esquerda Presidente da República, enfrentamos crises econômicas internacionais e crises políticas locais, sempre na busca de algo que, na verdade, está contido em linhas gerais no discurso de João Goulart.
As gestões de Lula e Dilma Rousseff caminharam nessa direção, de materializar as reformas, ou colocar na vida real as letras impressas na Constituição Cidadã, mas sempre lutando contra um Congresso Nacional conservador e fisiológico e com elites empresariais entreguistas e truculentas. Muitos avanços ocorreram, em especial na luta contra a fome e a desigualdade, mas insuficientes para alterar estruturalmente a realidade de um país moldado pela escravidão e acumulação brutal de riquezas familiares e pela ocupação multinacional nos setores estratégicos.
Ainda assim, com contradições e limitações, o período das quatro eleições vencidas pelo projeto democrático e popular foi interrompido pelo golpe parlamentar de 2016, envernizado pelo STF, que colocou Michel Temer na presidência e abriu o caminho para a eleição do grotesco Bolsonaro com o chamariz ultraliberal de Paulo Guedes atraindo o empresariado oportunista, sedento por privatizações e desregulamentação.
E lá fomos nós, lutando pela normalização democrática, contra retrocessos trabalhistas e previdenciários, contra a entrega do patrimônio público, em meio a uma pandemia terrível e ao crescimento de uma direita com nuances fascistas.
A vitória de Lula em 2022 nos permitiu um respiro, mas não nos autoriza ilusões. É assustador que, depois de todos os retrocessos dos governos Temer e Bolsonaro, apesar da desumanidade do presidente e seus ministros na pandemia, apesar de escândalos de corrupção, ainda assim o candidato que afrontou a democracia em todo o mandato venceu as eleições em quatro das cinco regiões do país, com exceção do Nordeste que contribuiu para salvar a democracia e os interesses populares.
As trilhas da democracia, podemos afirmar, dependem de uma nova forma de organizar a política nacional, de estruturar a agenda política, o projeto nacional e a capacidade pedagógica de comunicarmos e organizarmos a adesão ativa dos setores populares a um projeto de nação capaz de realizar a inclusão socioeconômica e a soberania nacional.
Debater esse desafio é a proposta deste livro que colhe variadas abordagens, todas no sentido amplo da democracia, nas palavras de João Goulart: “Não há ameaça mais séria à democracia do que desconhecer os direitos do povo; não há ameaça mais séria à democracia do que tentar estrangular a voz do povo e de seus legítimos líderes, fazendo calar as suas mais sentidas reivindicações”.
A democracia liberal, em todo o mundo, enfrenta as limitações do capitalismo neoliberal. E a superação dessas limitações impõe-nos pensar e organizar os canais das expectativas sociais e dos anseios populares.
Posfácio
Marcelo Ridenti*
Este livro, com o título sugestivo Trilhas da democracia – caminhos para o Brasil, constitui amostragem significativa da contribuição intelectual apresentada nos programas Trilhas da Democracia, projeto idealizado pelo professor Marco Mondaini, com a colaboração mais recente do advogado Normando Rodrigues.
Toda semana um convidado comparece para discutir com os apresentadores um tema candente relativo à democracia e aos direitos humanos. Depois a conversa é transmitida por veículos de comunicação alternativos. E as gravações permanecem disponíveis no YouTube. O conjunto das entrevistas constitui um rico acervo audiovisual, expressivo do pensamento de esquerda em nossos dias.
Trilhas da Democracia tornou-se uma das trincheiras de resistência intelectual e política ao governo de extrema direita que se estabeleceu recentemente no Brasil e tentou se perpetuar por um golpe de Estado frustrado. Depois, ao difundir o pensamento crítico, o programa continuou a cumprir papel fundamental para a consolidação democrática, associada às lutas por justiça social. Já foram ao ar mais de 350 gravações em cerca de sete anos, uma longevidade que atesta a consistência da programação, que segue de vento em popa.
Com este livro, consolida-se a vocação de Trilhas da Democracia para discutir em profundidade temas e dilemas do momento, decisivos para a democracia, agora com a consistência da forma escrita. Sempre na contracorrente das ideias das classes dominantes, contrapondo-se ao sistema de significados e valores hegemônicos que conformam “um senso de realidade absoluta, porque experimentada, e além da qual é muito difícil para a maioria dos membros da sociedade movimentar-se, na maior parte das áreas de sua vida”, como diria Raymond Williams, inspirado em Antonio Gramsci.[i]
O programa empenha-se em questionar o conformismo do senso comum reinante, para o qual a ordem neoliberal seria a única possível. A contrapelo, os capítulos deste livro expressam esboços de contra-hegemonia, formulados por um time de especialistas nos temas tratados e comprometidos com a transformação social.
Eles escrevem sobre economia, meio ambiente, universidade, história, política, comunicação, estado, sociedade e justiça. Armam um quadro diversificado dos desafios democráticos do presente em oposição às forças obscurantistas e autoritárias que se colocam em cena, não só na sociedade brasileira.
Trilhas da democracia é exemplo de que se pode pensar e agir de modo crítico e comprometido com a consolidação e o aprofundamento democrático, mesmo em condições objetivas pouco favoráveis. Democracia entendida não apenas em seu caráter político formal, envolvendo também o crescimento de direitos sociais, econômicos e de expressão para as classes trabalhadoras e a maioria do povo. Inventando, em meio à barbárie disseminada no presente, as trilhas de um mundo diverso, efetivamente democrático. São projetos como esse que alimentam nossa esperança.
TRILHAS DA DEMOCRACIA – caminhos para o Brasil
Sumário
Nota de apresentação
Prefácio
Parte 1 – ECONOMIA, MEIO AMBIENTE E UNIVERSIDADE
1.Nas trilhas de uma alternativa econômica – Adhemar Mineiro
2.Crise ecológica e a utopia do ecossocialismo – Liszt Vieira
3.Perspectivas para a COP 30 – Jean-Marc von der Weid
4.Sobre os desafios da democracia ao Brasil na atualidade: uma utopia territorial baseada em conhecimento, inovação e autodeterminação – Ana Cristina Fernandes
5.Universidade empreendedora, fundo público e nova forma social da universidade pública brasileira – Angela Amaral e Fabiana Costa
Parte 2 – HISTÓRIA, POLÍTICA E COMUNICAÇÃO
1.Os desafios da democracia no Brasil – Daniel Aarão Reis
2.Estado, capitalismo tardio e subcidadania: dilemas e desafios estruturais – Michel Zaidan
3.Comunicação, política e democracia – Venício Lima
4.A serpente do golpismo nos quartéis – Marco Mondaini e Capitão Quitaúna
Parte 3 – ESTADO, SOCIEDADE E JUSTIÇA
1.A democracia na sistemática da Constituição da República – Marcelo Pedroso Goulart
2.Cracolândia: de uma política civilizatória ao horror e a falsidade – Arthur Pinto Filho
3.Sequestro do futuro: as escolas cívico-militares e a perpetuação do fascismo – Normando Rodrigues
4.Judicialização da política brasileira: a crise institucional e o protagonismo da toga – Carlos Eduardo Pimenta
5.Os socialistas e a democracia na economia capitalista – Wilson Ramos Filho e Gabriela Caramuru Teles
Posfácio – Marcelo Ridenti
*Marco Mondaini, historiador, professor titular do Departamento de Serviço Social da UFPE e apresentador do programa Trilhas da Democracia. Autor, entre outros livros, de A invenção da democracia como valor universal (Alameda) [https://amzn.to/3KCQcZt]
*Normando Rodrigues, advogado e “agente provocador” do programa Trilhas da Democracia, é assessor jurídico da CUT.
*Ricardo Berzoini presidiu o Sindicato dos Bancários de São Paulo e a Confederação Nacional dos Bancários da CUT. Foi ministro dos governos Lula (2003/2005) e Dilma Rousseff (2014/2016). Foi deputado federal de 1999 a 2015.
*Marcelo Ridenti é professor titular de sociologia na Unicamp. Autor, entre outros livros, de O segredo das senhoras americanas: intelectuais, internacionalização e financiamento na Guerra Fria cultural (Unesp). [https://amzn.to/4hFh7CE]

Referência
Marco Mondaini & Normando Rodrigues (orgs.). Trilhas da democracia: caminhos para o Brasil. São Paulo, Editora Alameda, 2025, 246 págs. [https://amzn.to/3PD5qDx]
Nota
[i] Antonio Gramsci. (2002). Cadernos do cárcere. Edição de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Raymond Williams (1979). Marxismo e literatura. Rio de Janeiro: Zahar, 1979, p. 113.
Publicação de: Viomundo
