Marcelo Zero: Sinuca de bico
Por Marcelo Zero*
Trump se colocou em uma ‘sinuca de bico”, ao exigir do Irã concessões que o regime jamais fará, pois o atendimento pleno a essas demandas poderia até mesmo levar à queda do atual governo.
Em apertada síntese Trump demanda:
1- a completa desnuclearização do Irã;
2- forte limitação dos seus programas de mísseis e drones;
3- a extinção total de quaisquer apoios do Irã a aliados regionais, como o Hezbollah, o Hamas e milícias xiitas no Iraque e no Iêmen, entre outros;
4- o reconhecimento, por parte do Irã, de Israel, seu arquirrival, como um país legítimo.
Em relação à total extinção do programa nuclear iraniano, tal exigência contraria frontalmente o Artigo IV do Tratado Sobre a Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP), o qual tem a seguinte redação:
Artigo IV
1. Nenhuma disposição deste Tratado será interpretada como afetando o direito inalienável de todas as Partes do Tratado de desenvolverem a pesquisa, a produção e a utilização da energia nuclear para fins pacíficos, sem discriminação, e de conformidade com os artigos I e II deste Tratado.
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2. Todas as partes deste Tratado comprometem-se a facilitar o mais amplo intercâmbio possível de equipamento, materiais e informação científica e tecnológica sobre a utilização pacífica da energia nuclear e dele tem o direito de participar. As partes do Tratado em condições de o fazerem deverão também cooperar – isoladamente ou juntamente com outros Estados ou Organizações Internacionais – com vistas a contribuir para o desenvolvimento crescente das aplicações da energia nuclear para fins pacíficos, especialmente nos territórios dos Estados não-nuclearmente armados.
Saliente-se que o programa nuclear do Irã foi iniciado ao final da década de 1960, em pleno do regime do cruel ditador Reza Pahlevi, com o total apoio e incentivo dos EUA.
O Xá do Irã chegou até a fazer propaganda para companhias nucleares estadunidenses, que estavam empenhadas em implantar usinas naquele país, como se vê na imagem seguinte, publicada em revistas estadunidenses na época.

Em relação à questão dos mísseis, é evidente que o Irã, qualquer que seja seu governo, não vai abandonar seu programa, devido à ameaça de Israel e de rivais sunitas da região.
O mesmo se aplica ao corte de laços com organizações xiitas, as quais são fundamentais para a segurança do Irã e para o delicado equilíbrio entre sunitas e xiitas no Grande Oriente Médio.
Quanto ao reconhecimento de Israel, isso só poderia ser levada a cabo em um contexto de um tratado de não-agressão sólido entre ambos os países, algo que Netanyahu não está disposto a fazer.
O fato é que Trump tem duas escolhas:
a. Atacar o Irã até que ele ceda algo significativo.
b. Retroceder e retirar sua frota das imediações do Irã.
As duas são desgastantes.
O Irã, que está interpretando a atual movimentação de Washington como uma tentativa de derrubada de seu regime, anunciou que retaliará qualquer ataque com lançamentos massivos de mísseis contra Israel e posições dos EUA no Oriente Médio.
Como agravante, Israel, no momento, está com carência de mísseis Patriots, essenciais para um enfrentamento com o Irã. Assim, Tel-Aviv poderia ficar exposta a um contra-ataque iraniano. O mesmo poderia acontecer com o pessoal militar estadunidense que está nas bases do Golfo Pérsico.
Teerã também afirmou que fecharia o Estreito de Ormuz (algo que o Irã poderia fazer com milhares de pequenas minas, de difícil e longa remoção). Observe-se que tal fechamento poderia ocasionar preços globais de petróleo altíssimos, algo extremamente impopular nos EUA, ainda mais às vésperas de uma eleição.
Já retroceder, após toda a retórica furiosa e a grande mobilização naval, especialmente no Mar de Omã, poderia soar como derrota.
Ademais, Trump está com problemas sérios de avaliação interna, em razão da política agressiva e autoritária do ICE, que se transformou em uma espécie de Gestapo dos EUA, uma polícia política que vai muito além do combate à imigração, bem como em função das crescentes revelações sobre as suas conexões perigosas com o finado Epstein.
Nessas circunstâncias, um ataque ao Irã, país já demonizado por toda a mídia ocidental, poderia acarretar um crescimento da popularidade e um certo alívio político interno, desde que não implique meter-se em um novo “atoleiro” geopolítico.
Acrescente-se que o ministro da Defesa saudita, Príncipe Khalid bin Salman (KBS), disse em um briefing privado na sexta-feira em Washington que, se o presidente Trump não cumprir suas ameaças contra o Irã, o regime (iraniano) acabará mais forte.
Em outro briefing separado na sexta-feira, um funcionário de um país do Golfo Pérsico teria dito que a região estava “presa” em uma posição em que os EUA, se atacarem o Irã, corriam o risco de “resultados ruins”, mas que não o fazer significaria que “o Irã sairia disso mais forte”.
Desse modo, Trump colocou a si mesmo e seus aliados da região em um perigoso dilema. Se atacar, poderá mergulhar a região no caos. Em especial, a possibilidade aventada de se assassinar o líder religioso Ali Khamenei, seria um total desastre, que causaria fúria e indignação não apenas no Irã, mas em todo o mundo xiita.
De outro lado, se não atacar, poderia passar a imagem de fraco e o regime iraniano poderia declarar vitória.
O ideal seria negociar a sério com o regime do Irã. Porém, Trump, desde seu primeiro governo, adotou uma política de “pressão máxima” contra aquele país e a está aprofundando, neste segundo mandato.
Trump improvisa muito e muda de posição de acordo com seus humores mercuriais. É um perigo até para si próprio.
*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
Publicação de: Viomundo
