Banco Master pressiona STF e vira guerra política
O caso Banco Master virou o epicentro de uma crise que atravessa o STF, alcança a Polícia Federal e a PGR e respinga direto no Planalto, transformando uma investigação financeira em guerra política aberta. A ofensiva do Partido Novo contra o ministro Dias Toffoli, relator do caso, elevou o conflito a outro patamar e reacendeu a disputa de narrativas entre governo, oposição e Judiciário.
A bancada do Novo acionou formalmente a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal, acusando Toffoli de interferência na condução do inquérito que apura irregularidades envolvendo o Banco Master. No mesmo movimento, a PF retomou depoimentos de investigados, ampliando a pressão institucional e política sobre o Supremo.
Dias Toffoli, ministro do STF, tornou-se o foco da controvérsia ao concentrar decisões sensíveis no caso. A iniciativa do Novo busca abrir uma frente criminal e administrativa, apostando no desgaste público do relator e no efeito dominó sobre a Corte.
Nos bastidores, a leitura é de que o episódio ultrapassou o campo jurídico. A crise passou a ser explorada politicamente por diferentes campos, com o caso Master sendo usado como exemplo de captura institucional e conflito de interesses.
O Palácio do Planalto acompanha o caso com cautela. O nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entrou no radar após revelações de encontros anteriores com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, fora da agenda oficial, o que ampliou o ruído político e alimentou ataques da oposição.
Embora o governo evite comentários diretos sobre o STF, aliados reconhecem que o desgaste do Supremo não interessa ao Planalto em um ano pré-eleitoral, quando decisões judiciais tendem a ganhar peso político redobrado.
Linha do tempo do caso Master
- Investigação financeira: PF aprofunda apuração sobre irregularidades no Banco Master.
- Toffoli assume relatoria: ministro concentra decisões no STF.
- Revelações de bastidores: surgem informações sobre contratos e encontros envolvendo personagens centrais do caso.
- Ofensiva do Novo: partido protocola notícia-crime na PGR e aciona a PF contra Toffoli.
- PF retoma depoimentos: investigadores voltam a ouvir envolvidos, ampliando o alcance da apuração.
- Crise política aberta: caso vira munição na disputa entre governo, oposição e Judiciário.
Quem é quem no conflito
- Dias Toffoli: ministro do STF e relator do caso, alvo direto da ofensiva política.
- Daniel Vorcaro: controlador do Banco Master, personagem central da investigação.
- Partido Novo: autor da iniciativa contra Toffoli, aposta no desgaste institucional.
- Polícia Federal: responsável pela apuração criminal, agora sob holofotes.
- PGR: chamada a decidir se abre procedimento contra o ministro do Supremo.
O que a PF quer saber
- Origem e destino dos recursos movimentados pelo Banco Master.
- Eventuais conflitos de interesse em contratos de consultoria jurídica.
- Se houve interferência externa ou institucional na condução das investigações.
No STF, ministros avaliam que o caso Master inaugura uma nova fase de enfrentamento direto entre partidos e a Corte, algo raro desde a redemocratização. A preocupação é que a judicialização da política se transforme em politização explícita do Judiciário, com efeitos imprevisíveis para 2026.
O caso Banco Master deixou de ser apenas um inquérito financeiro. Virou teste de estresse para o Supremo, combustível para a oposição e dor de cabeça para o Planalto. Quando dinheiro, poder e narrativa se cruzam, a política entra em modo de guerra. E, desta vez, o STF está no campo de batalha.
Para entender o caso Master

O caso Banco Master ganhou dimensão nacional após o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial da instituição em 18 de novembro de 2025, diante de uma grave crise de liquidez e indícios de irregularidades financeiras. A partir desse ponto, o episódio deixou de ser apenas um problema de mercado e passou a ocupar o centro do debate político e institucional, envolvendo Polícia Federal, TCU, STF e o Palácio do Planalto.
O Banco Master cresceu rapidamente oferecendo CDBs com rentabilidade muito acima da média do mercado para captar recursos de investidores. Com esse dinheiro, financiou operações de maior risco, como ativos de baixa liquidez, precatórios e carteiras de crédito, inclusive consignado. À Polícia Federal, o controlador Daniel Vorcaro afirmou que o modelo de expansão se apoiava na confiança dos investidores na cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC.
A Polícia Federal apura suspeitas de fraude bilionária, incluindo emissão de títulos sem lastro, manipulação contábil para inflar ativos, circulação interna de recursos entre fundos ligados ao grupo e venda de carteiras de crédito consideradas problemáticas, algumas delas em operações envolvendo o Banco de Brasília, o BRB. No Supremo Tribunal Federal, o ministro Dias Toffoli assumiu a relatoria após pedido da defesa para centralizar o caso na Corte, suspendendo decisões em instâncias inferiores e concentrando os atos processuais.
O colapso não ficou restrito ao banco principal. Em 21 de janeiro de 2026, o Banco Central decretou também a liquidação do Will Bank, fintech controlada pelo grupo Master, após concluir que a instituição estava insolvente e sem condições operacionais. A falha no sistema de pagamentos, que levou ao bloqueio das operações com a bandeira Mastercard, precipitou o fim do braço digital, que reunia cerca de 12 milhões de clientes.
No centro do impacto social está o Fundo Garantidor de Créditos. O FGC não é um órgão público e não utiliza recursos do Tesouro Nacional. Trata-se de uma associação civil privada, criada em 1995, mantida pelas próprias instituições financeiras que atuam no sistema bancário brasileiro. Bancos, financeiras e cooperativas associadas fazem contribuições mensais obrigatórias, calculadas como um percentual sobre os depósitos e títulos cobertos, como CDBs, LCIs e LCAs.
Quando ocorre uma quebra, como no caso do Master e do Will, o FGC antecipa o pagamento aos clientes até o limite de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição, usando recursos do seu próprio caixa. Depois, o fundo assume o lugar do investidor na disputa judicial e administrativa para tentar recuperar os valores na massa falida do banco liquidado.
No caso Master, o FGC iniciou os pagamentos em 13 de janeiro de 2026, em um processo considerado o maior resgate da história do fundo, com desembolso estimado em dezenas de bilhões de reais. Como o fundo é sustentado pelo próprio sistema financeiro, operações dessa magnitude geram preocupação no mercado, pois podem exigir contribuições extraordinárias das instituições participantes, custo que tende a ser repassado de forma difusa ao sistema.
O episódio reacendeu o debate sobre risco moral no setor bancário. Especialistas apontam que estratégias agressivas de captação, baseadas na garantia do FGC como “colchão final”, podem incentivar comportamentos de alto risco, transferindo parte relevante do prejuízo para o conjunto do sistema financeiro quando o modelo entra em colapso. É nesse ponto que o caso Banco Master deixa de ser apenas uma fraude financeira e passa a expor falhas estruturais e dilemas regulatórios do sistema bancário brasileiro.
A propriedade cruzada entre mídia, banqueiros e a blindagem da Selic

A leitura do caso Banco Master fica incompleta sem considerar a propriedade cruzada entre o sistema financeiro e grupos de mídia no Brasil. Não se trata apenas de bancos como grandes anunciantes, mas de instituições financeiras que passaram a controlar, financiar ou sustentar diretamente veículos jornalísticos, integrando capital, narrativa e formação de opinião no mesmo circuito.
Nesse ambiente, bancos e fintechs operam como atores centrais da indústria da informação, influenciando o enquadramento dos temas econômicos. Veículos ligados a grupos financeiros tendem a tratar o sistema bancário como pilar de estabilidade e a deslocar o foco de problemas estruturais para episódios individuais, personalizando crises e evitando questionamentos de fundo.
Esse arranjo ajuda a explicar por que a chamada velha mídia raramente questiona de forma consistente a taxa Selic, hoje entre as mais altas do mundo em termos reais. Juros elevados garantem rentabilidade extraordinária ao sistema financeiro, especialmente aos bancos que vivem do spread, da dívida pública e da intermediação, mas comprometem o desenvolvimento econômico, travam o investimento produtivo, encarecem o crédito, reduzem o consumo das famílias e limitam a geração de empregos.
A censura editorial sobre esse custo social não é casual. Uma Selic estruturalmente alta interessa aos oligarcas do sistema financeiro e, ao mesmo tempo, sustenta modelos de negócio de veículos que orbitam esse ecossistema. Quando o debate aparece, costuma ser enquadrado como “necessidade técnica”, “combate à inflação” ou “credibilidade do mercado”, quase sempre sem dar o mesmo peso aos efeitos sobre a economia real.
No caso Master, o padrão se repete. A narrativa dominante privilegia o escândalo individual e a disputa política, enquanto o debate estrutural sobre risco moral, FGC, regulação frouxa e incentivos perversos do sistema financeiro permanece marginal. Quando decisões judiciais ou políticas ameaçam elevar o custo para os bancos, a crítica ganha megafone. Quando o custo recai sobre trabalhadores, empresários produtivos e consumidores, o silêncio prevalece.
Esse é o ponto sensível revelado pelo episódio: dinheiro, mídia e poder financeiro operam de forma integrada, definindo não apenas o que é dito, mas também o que não entra na agenda pública. E, nesse quadro, juros altos deixam de ser problema nacional para virar dogma intocável.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
