foto: Travessia

Encosta aqui, vem cá, agora me diga com honestidade: qual é a sensação? Como é?

Como é em todo e qualquer canto, em cada emprego, em cada escola, em cada festa, em cada fila de mercado, em cada loja, em cada debate, em cada detector de metal, em cada ambiente social do mais transitório ao mais permanente, não carregar nos ombros o peso de ser desacreditado e deslegitimado?

Qual a sensação de não ter que aturar, quando revelam um sonho, um projeto ou ambição, risos de canto de boca e olhares de deboche que ao fim e ao cabo dizem “isso não é pra você”?

Como é ter a balança da dúvida que permeia todas as relações, institucionais ou não, quase sempre pendendo ao seu favor e não a seu desfavor? E, por isso, não ter que viver o frequente malabarismo psicológico de ora compensar o menoscabo do mundo acreditando demais em si e ora procurar no palheiro racista a agulha que traz a verdade da mediação eu/outro?

Como é não ter que se fechar feito ostra em certos ambientes como medida profilática de manutenção da saúde mental ou explodir de vez e ser adjetivado/a de desequilibrado/a? Qual a sensação de não ter que se provar a si mesmo em cada um dos testes da vida?

Como é não ter que encarar tudo isso de sol a sol e ainda ter que exibir um sorriso edulcorado de gratidão e positividade, ou optar por rebelar-se e ter que engolir na forma de um “mais amor por favor” cintilando de ódio a pecha de pessimista?

Como é, nem digo ser o/a melhor, mas apresentar condições apenas de não ser medíocre no que quer que seja, na mais singela das coisas que seja, e por consequência não ter uma exigência de falsa modéstia apontada na sua cara como o cano de um trabuco?

E como é, quando, e se, mesmo a despeito de tudo isso, você provar que é bom, visto que não era o esperado, posto que é inaceitável, não ser tachado de arrogante?

E como é não ver sua turba, sua gente, que enfrentou tudo isso a vida toda comprando essa farsa ridícula?

Querida gente privilegiada, essa sua exigência de humildade que com humildade nada tem a ver, essa sua etiqueta de arrogante, ela vale pros seus iguais também, ou é só pra gente, ou é só pra preta e preto pobre?

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