ESPECIAL

Alfredo Serrano avalia que Venezuela passou pela parte mais grave da crise e ressalta o apoio político de China e Rússia

Jônatas Campos |
Encerramento da campanha de Nicolás Maduro à presidência em 2013 LuisCarlos Díaz/ Flickr

“Na Venezuela, quem vai às urnas não é o Fundo Monetário Internacional [FMI]. (…) O povo pode estar descontente, reclamando, porém, não vota como votariam os agentes internacionais”. Assim, o economista espanhol Alfredo Serrano Mancilla, um dos influenciadores da política econômica adotada pelo presidente venezuelano, Nicolás Maduro, explica que, mesmo com a forte pressão internacional sobre o país, o chavismo segue com uma base de apoiadores porque “a mudança de época também mudou a mentalidade do povo venezuelano”.

Acompanhe nosso especial: O que está acontecendo na Venezuela?

Na segunda parte da entrevista exclusiva concedida ao Brasil de Fato em Caracas, Serrano comenta que apesar da forte pressão dos EUA e organismo internacionais, o país já passou do momento mais agudo da atual crise e lembra que China e Rússia dão “grande respaldo político” ao presidente Maduro.

Leia a primeira parte da entrevista: Venezuela não vai prejudicar os pobres para sair da crise, diz assessor de Maduro

O autor do livro “O pensamento político de Hugo Chávez” e “América Latina em Disputa” (ainda sem tradução para o português) também faz duras críticas ao modelo neoliberal capitaneado pelo presidente golpista, Michel Temer (PMDB), no Brasil, afirmando que ele será “descartado” pelo capital depois de feito o “serviço sujo”.

Confira a íntegra da segunda parte da entrevista com Serrano:

O Decreto Obama* contribuiu para acentuar a atual crise política e econômica na Venezuela? (*Decreto editado pelo presidente Barak Obama em março de 2015 considerando o país uma “ameaça incomum e extraordinária à segurança” dos EUA)
Há restrições econômicas e financeiras, mas há muitas restrições políticas que afetam a economia. Não só esse, mas as tentativas permanentes da OEA (Organização dos Estados Americanos) de intervir no país. Acho que há uma intenção de criar uma variedade de grandes tormentas contra a Venezuela.

À medida que o país continua resistindo, mesmo com dificuldades, com emergências, eles ficam nervosos. Há uma guerra econômica fortíssima, com um comportamento especulativo de uma parte do setor empresarial do país, não todo, pois há setores que querem trabalhar e produzir na economia real.

Na Venezuela há um comportamento especulativo em matéria de preços que não tem nenhuma explicação, salvo em casos como o [do ex-presidente Salvador] Allende, no Chile, antes de ser derrubado, ou na Iugoslávia, quando ela foi desmembrada. O comportamento interno é digno de estudo. Não estou dizendo que todas as dificuldades da economia desapareceram, mas há um fator de desestabilização econômica interna… Eles diziam que não havia produtos, quando existiam, por exemplo, e depois houve o problema da ocultação dos alimentos.

Toda essa dita pressão política influencia a população…
Na Venezuela quem vai às urnas não é o Fundo Monetário Internacional [FMI], não é a Globo, não é o El País, da Espanha, não é o Felipe González [ex-presidente da Espanha], não é Obama.

A mudança de época também mudou a mentalidade do povo venezuelano. Ele pode estar descontente em boa medida, às vezes reclamando mais, porém, não vota como votariam os agentes internacionais.

Quando eu vejo o portal de O Globo, do Brasil, do El Clarín, da Argentina, El ABC, da Espanha, o The Washington Post: eles creem que têm capacidade de mudar um voto. Mas quando há uma mudança de época, há mudanças no sujeito. Portanto, nenhum decreto de Barak Obama vai transformar as pessoas de uma maneira tão imediata.

Mas parece que transformou uma parte da população…
Há uma parte, sim. Mas eu acredito que nem sequer a oposição venezuelana está de acordo com a confrontação, literalmente física, que estamos observando nas ruas. Acho que as pessoas opositoras, não os dirigentes, são altamente democráticas. Mas há uma porcentagem dessas pessoas, pequena, que faz muito barulho com essa violência fascista nas ruas. Eu jamais vi um fascismo tão de perto como está acontecendo nesse país. Eu não imagino nenhum governo democrático em nenhum lugar do mundo aguentar o que o governo venezuelano está aguentando. Um governo que está buscando a via do diálogo para resolver o conflito. A verdade é que os dirigentes da oposição, em sua maioria, estão jogando gasolina no fogo para que precisamente haja violência.

Algumas propostas* da Unasul (União das Nações Sul-Americanas), como liberar o câmbio do dólar, aumentar o preço da gasolina, da energia elétrica, por exemplo, podem ser implantadas para enfrentar a crise econômica do país?
(*A Unasul apresentou, há um ano, um documento com propostas para o Governo Maduro enfrentar a crise econômica no país)
Eu creio que os principais problemas da economia venezuelana são produtivos. Os principais desafios são de produção. Tudo que acaba de dizer, como energia, transporte, serviços básicos, poderiam ser discutidos, mas não é o ponto central dos desafios da economia venezuelana. Se colocassem em cima de uma mesa esses temas, eu discutiria depois de debater os temas centrais, como a política produtiva, a política tributária fiscal, a política comercial, a política distributiva, a necessidade de estabilizar os preços e a política do câmbio.

Um país de 400 milhões de habitantes, dizendo que outro país de 30 milhões de habitantes é uma “ameaça incomum” à sua segurança?
Isso foi escrito é público. Suportar isso, suportar a intervenção da OEA, suportar a União Européia fazendo todo tipo de declaração contra Maduro, suportar que um presidente corrupto como [Michel] Temer e outro tão de direita como [Maurício] Macri tenham feito tudo contra a Venezuela… Isso é valentia, resistência e lealdade ao povo. A saída deve ser a mais democrática possível, com a Assembleia Nacional Constituinte, as eleições para governador, que serão realizadas em dezembro desse ano e as eleições presidenciais de 2018. Ele tem sustentado uma concepção democrática que, creio, é o que mais irrita a oposição nacional e internacional.

Sobre o IVA (Imposto sobre o Valor Agregado), como um governo que dá tanta prioridade ao social ainda mantém um imposto como esse, onde um hotel de luxo paga o mesmo que uma casa pobre?
Não é tanto assim. Hoje em dia os produtos de luxo têm impostos. Não só isso, há dois meses o presidente Nicolás Maduro anunciou um imposto sobre o patrimônio que só afeta menos de 2% da população. Nos três últimos anos de dificuldades, o governo dispensou o pagamento do imposto de renda de 95% da população, como consequência da emergência. Essas são medidas emergenciais. Mas é preciso fazer mudanças tributárias mais precisas.

Sobre os serviços púbicos como energia elétrica, que é tão barata, não seria interessante que quem pode pagar mais, o fizesse?
O modelo econômico venezuelano considerou que é preciso “desmercantilizar” certos direitos sociais, entre eles, questões muito básicas como ter acesso à energia em casa. Um exemplo: no México, hoje, 11 milhões de pessoas sofrem com falta de energia de alguma forma. Esses são dados do próprio governo. Na Espanha, a pobreza energética está em 25% da população, gente que não tem como pagar a calefação [aquecimento da casa] na época de frio. Ou o caso da Argentina, que para ‘resolver’, subiu tudo, com o incremento dos gastos aumentando 1.000%.

Teríamos que estudar bem para que uma pessoa que tem menos possa não pagar e o que tem mais possa pagar. Mas para isso, temos sempre que pensar no “entretanto”, como disse Pepe Mujica. Cuidado com soluções simples, porque não temos bases de dados de tudo que queremos ter. Então, se de uma hora para outra tirarmos todos os subsídios, o que pode acontecer é que as pessoas não consigam pagar o metrô para se locomover. Na Espanha é assim, a internet é caríssima, a água é caríssima e isso o que faz é excluir. É preciso trabalhar, mas precisamos ser cuidadosos.

Sobre o Brasil, qual a avaliação geral que você faz?
Creio que no Brasil existem duas coisas: por trás de todo golpe de Estado há um golpe econômico. Creio que às vezes a gente só dá importância ao golpe político, um golpe do século XXI: judicialização da política, Parlamento para dar o golpe e os meios de comunicação apoiando.

Mas ele sempre é acompanhado por um golpe econômico, que no Brasil segue a toda velocidade. Os golpes não são bem recebidos pelas maiorias. Quando termina seu trabalho, um trabalho de um sicário, depois de assassinar a economia e a democracia, são descartados. Isso me deixa triste porque imaginei o Brasil como se tivesse escolhido outro caminho.

Como achas que será a Venezuela daqui a um ano?
Quando Chávez morreu, o The Economist dizia “a festa se acabou”. Eu creio que Venezuela não acaba. Sim, há dificuldades, emergências. Mas a economia venezuelana está em uma nova etapa de transformação. A Venezuela tem uma capacidade incrível de se reinventar.

A Venezuela está respaldada no mundo, muito mais do que imaginamos. Há uma transição geopolítica e econômica. China, Rússia, mais que antes, dão grande respaldo político e econômico para o país. As relações bilaterais que a Venezuela tem com a China, nenhum país na América Latina tem. O pagamento da dívida externa nos três últimos anos tem sido sofrido, o país tem que pagar muito dinheiro, porque nesta situação a pressão é grande. Então, se o país tem superado nesses últimos três anos com os preço baixos [do petróleo], agora, com uma situação melhor…

O país tem mais pontos fortes que fracos. Não estou sendo frívolo, mas acho que a Venezuela é um país mais forte que imaginamos. Para além das emergências, a economia segue porque é uma economia com gente.