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em entrevista ao Democracy Now

Mark Weisbrot é codiretor do Centro de Pesquisa Econômica e Política, em Washington:

Sim, eu penso que definitivamente é um golpe. A mídia internacional mudou nos últimos meses e especialmente agora. Ela agia como a mídia brasileira, que mostra a situação a partir do ponto-de-vista da oposição, como se fosse um impeachment legítimo.

Agora se vê mais e mais gente dizer que não é legítimo, porque não há acusações reais contra a presidente que justifiquem o impeachment. Na verdade, é uma tentativa da oposição de reverter os resultados da eleição de 2014, tirar proveito do fato de que a economia está em recessão e atacar Dilma.

Acho que aquele artigo do Intercept (tradução parcial aqui) foi importante. Um ponto que eles destacaram foi a visita do senador Aloysio Nunes [PSDB-SP] a Washington não recebeu atenção da mídia, mas deveria, porque ele se encontrou com Tom Shannon [experiente diplomata, ex-embaixador no Brasil e hoje subsecretário de Estado].

E Tom Shannon é o cara mais influente sobre América Latina no Departamento de Estado. É ele quem vai dizer, recomendar ao secretário de Estado [John] Kerry o que ele deveria fazer, onde os Estados Unidos deveriam se colocar neste processo. E isso é extremamente importante, porque Shannon não tinha obrigação de encontrar Aloysio.
Ele é apenas um senador. Ao encontrá-lo, mandou uma mensagem para todos os que estão acompanhando o Brasil de perto que os Estados Unidos aprovam o processo.

Foi assim no golpe de Honduras. Todos os que estavam acompanhando [a situação em Honduras] sabiam, no primeiro dia do golpe, assim que os Estados Unidos divulgaram uma nota que não dizia nada mal sobre o golpe, que aquela declaração sinalizava fortemente, da única forma possível em pleno século 21, apoio a um golpe, um golpe militar.

Então, é algo similar. A mídia ignorou totalmente, mas foi um sinal. E agora está à mostra o que a gente já sabia: os Estados Unidos querem se livrar do Partido dos Trabalhadores, como sempre quiseram.

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Golpe brasileiro ameaça democracia

14/04/2016 02h00

na Folha

A presidente Dilma Rousseff está ameaçada de impeachment, mas não há evidências que a vinculem a qualquer esquema de corrupção. Em vez disso, ela é acusada de manipular as contas públicas, algo que presidentes anteriores já haviam feito.

Para traçar uma analogia com os Estados Unidos, quando os republicanos se negaram a elevar o teto da dívida, em 2013, a administração Obama recorreu a vários truques de contabilidade para adiar o prazo final no qual se alcançaria o limite. Ninguém se incomodou com isso.

A campanha do impeachment, que o governo descreveu corretamente como golpe, é um esforço da elite brasileira tradicional para obter por outros meios aquilo que não conseguiu conquistar nas urnas nos últimos anos.

O ex-presidente Lula é acusado de receber dinheiro de empresas investigadas por corrupção para fazer discursos e reformar um imóvel que ele afirma não ser dele. Mesmo que as acusações sejam verdadeiras, não há prova de vínculo com corrupção.

O juiz Sergio Moro, entretanto, lidera uma bem executada campanha de difamação de Lula. O magistrado teve que pedir desculpas ao Supremo Tribunal Federal por ter divulgado grampos telefônicos de conversas entre Lula e Dilma, Lula e seu advogado e até mesmo entre a mulher de Lula e os filhos deles.

É claro que o Partido dos Trabalhadores não estaria vulnerável a essa tentativa de golpe se a economia não estivesse em recessão profunda. Mas também a esse respeito a mídia está claramente equivocada, defendendo mais cortes nos gastos públicos e mais juros altos.

O Brasil precisa, pelo contrário, de um estímulo sério para fazer sua economia pegar no tranco. O principal obstáculo à recuperação é o poder dos grandes bancos.

O Brasil está pagando juros de quase 7% de seu PIB sobre a dívida pública, mais que a Grécia no auge de sua crise. Mas o Brasil não tem crise de dívida nem apresenta qualquer risco significativo de moratória. Seus juros usurários são o resultado do poder político de seus próprios bancos, que hoje desfrutam um “spread” recorde de 34% entre suas taxas de empréstimos contraídos e concedidos.

A simples redução dos juros sobre a dívida pública para o nível de alguns anos atrás criaria condições para um estímulo importante.

O governo dos EUA vem guardando silêncio sobre esta tentativa de golpe, mas há poucas dúvidas quanto à sua posição. Ele sempre apoiou golpes contra governos de esquerda no hemisfério, incluindo, apenas no século 21, o Paraguai em 2012, Haiti em 2004, Honduras em 2009 e Venezuela em 2002.

O presidente Obama foi à Argentina para derramar-se em elogios ao novo governo de direita, pró-EUA, e a administração reverteu sua política anterior de bloqueio de empréstimos multilaterais ao país. E hoje, no Brasil, a oposição é dominada por políticos favoráveis a Washington.

Seria mais uma coisa lamentável se o Brasil perdesse boa parte de sua soberania nacional, além de sua democracia, com este golpe sórdido.

 

O post Mark Weisbrot: Com encontro entre Thomas Shannon e Aloysio Nunes, EUA já sinalizaram apoio ao golpe — da mesma forma indireta que fizeram em Honduras apareceu primeiro em Viomundo – O que você não vê na mídia.

Publicação de: Viomundo