A presidenta Gleisi Hoffmann reúne-se com mulheres petistas de todo o País. Fotos: Lula Marques/AGPT

As mulheres jamais deixariam que eles passassem incólumes

Por Juliana Moura Bueno*, especial para o Viomundo

Tenho um enorme respeito por Julian Rodrigues e toda sua militância histórica, dentro e fora do PT, pelos direitos humanos, pelos Direitos LGBT, pela democracia.

Esse artigo não é uma resposta ao texto de Julian. É uma resposta a alguns dos argumentos que pairam sobre a questão da paridade e do empoderamento dentro do PT, que o artigo publicado pelo VioMundo trouxe em referência à composição da nova executiva nacional do PT.

Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que a situação das mulheres, dos jovens e das negras e negros na nova executiva nacional é inaceitável.

Também é verdade que o PT não é nem nunca foi feito apenas por homens brancos, operários e sindicalistas, de macacão ou hoje de pijamas, representados pela Executiva atual. O PT é feito de mulheres, negras e negros, jovens, LGBTs, pessoas com deficiência, povo do campo e da agricultura familiar, do Brasil inteiro.

Soa, contudo, estranho, que uma crítica tão dura sobre a paridade e as cotas de jovens e negras e negros (que é regra interna e que deve ser cumprida pelas forças políticas que comporão os órgãos diretivos) seja primeiramente uma crítica à primeira mulher eleita presidenta do PT; que venha de um homem, e que por vezes use argumentos de moralidade e moralização para tal.

Até porque, se seguirmos o argumento do controle masculino e branco dos espaços, nós sabemos que o controle das indicações que deixaram as mulheres em cargos menos importantes vêm justamente desses homens, “chefes” de suas respectivas forças políticas.

Gleisi Hoffmann tem erros e acertos, como todas e todos nós. Como todas as figuras públicas.

Mas, definitivamente, nos últimos tempos, Gleisi passou incólume de todas as críticas que podemos fazer aos dirigentes homens que comandam as indicações dentro das forças políticas. Ela, inclusive, esteve na sexta-feira, 7 de julho, reunida com as mulheres lideranças do Partido.

E a primeira ação que tomou enquanto presidenta, respaldada pelas mulheres do Partido, é que a Secretaria de Organização do PT (SORG) enviará um comunicado a todas as forças políticas que compõem a Executiva Nacional e outras executivas pelo país para ajustarem suas indicações para que cumpram o estipulado em regimento interno do PT no que se refere tanto à paridade, quanto à indicação de negras e negros e de jovens.

Não é fácil ser dirigente do PT sendo mulher, sendo negra ou negro, sendo jovem. Por isso mesmo, é preciso calibrar as críticas e acertar os alvos.

Para que fique bem claro, isso não é nem de longe um alívio às indicações das correntes para composição da CEN.

Em pleno 2017, temos uma presidenta do PT rodeada por 5 homens brancos de meia idade e cabeça branca vice-presidentes, e 9 entre 12 secretários, muitos deles que se perpetuam e pulam de galho em galho nos cargos de direção – porque é só do alto do Olimpo que a vida no PT faz sentido.

É difícil de assistir porque é sinal da desconexão desses dirigentes com a base, com a vida real, e com o próprio discurso público que o PT, se por conveniência ou por imposição dos tempos que vivemos resolveu aceitar.

Para quem acredita no PT como um instrumento de transformação da sociedade, fica de fato muito difícil não levar um baque.

Nós lutamos tanto, brigamos tanto, e depois de um congresso que elege uma Presidenta, nós ainda precisamos relembrar que as mulheres, as negras e os negros, os jovens, podem e devem ser dirigentes com valor dentro das instâncias diretivas do PT e não apenas vogais, como muitos desses dirigentes querem. Isso cansa, derruba.

Mas nós nunca estivemos no banco de reservas. Nós jogamos o jogo como eles jogam. Só não somos nós que, ao final da partida, damos a entrevista para falar como o time jogou bem, e nem levantamos a taça quando somos campeões e campeãs.

Ainda que cansadas, resolvemos, por opção de vida, continuar nos insurgindo contra cada uma das arbitrariedades e injustiças que ocorrerem. Dentro e fora do PT.

Mas nada nunca foi dado de mão beijada às mulheres, aos negros e negras, à juventude, aos LGBTs.

A condição sistêmica e estrutural do capitalismo é que esses mesmos grupos continuem sendo subjulgados. Isso existe na sociedade, e existe no PT.

Nosso papel histórico sempre foi e continuará sendo lutar contra essas injustiças por menos desigualdades e por condições dignas de viver e de participar da vida política do país.

Nós não estamos pedindo licença a essas lideranças para ocuparmos o espaço que nos é devido. Nós estamos dando um aviso de que, em pleno 2017, como está não dá pra ficar.

(Por fim, apenas para deixar consignado. Se somos mulheres, tias, esposas, amantes, ou qualquer outra coisa, lugar de mulher é onde ela quiser.)

Juliana Moura Bueno é feminista, cientista política, assessora do PT no Senado Federal e foi Chefe de Gabinete da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República

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Publicação de: Viomundo