galinha-1024x723

A galinha e os brasileiros

Izaías Almada, em Nota de Rodapé

Numa instigante conversa/entrevista publicada no Brasil pela Editora Record (Não Contem com o Fim do Livro), o pensador e escritor italiano Umberto Eco e o pensador e grande roteirista de cinema francês Jean-Claude Carrière discorrem com maestria sobre alguns temas de extrema importância na atualidade, tais como, o saber, a cultura, a memória, o aprendizado e, sobretudo, sobre o significado da internet para o mundo contemporâneo, cujo surgimento interfere em todas as nossas atitudes, comportamentos e reflexões nesse início de século XXI.

Creio que não é exagero dizer que toda novidade excita a atemoriza.

A propósito de nos acostumarmos com uma novidade, qualquer seja ela, e na defesa da tese de que o livro tal como ainda existe, em papel, não sucumbirá diante da impressionante invasão do mundo cibernético nas nossas vidas, o professor Umberto Eco – com inegável bom humor – lembra que as galinhas levaram quase um século para aprenderem a não atravessar a rua.

Olhando para o atual panorama político brasileiro fica-me a dúvida sobre se um dia aprenderemos a viver em democracia. E de quanto tempo precisaremos para isso?

Porque a democracia é também um aprendizado, um aprendizado que requer paciência – é claro – desde que seus intervenientes estejam dispostos a conviver com ideias contrárias e/ou divergentes, que não agridam a constituição por qualquer “dá cá aquela palha”, que respeitem os valores da cidadania, que entendam o significado da justiça como elemento de equilíbrio e não como uma forma de envergonhar a política. E que não atirem a primeira pedra, sobretudo, aqueles que têm o telhado de vidro.

Não é por acaso que estamos diante de uma aberração política: um país governado por sicários levados ao poder por um golpe jurídico parlamentar dos mais idiotas, mas nem por isso menos efetivo.

O Brasil se tornou republicano em 1889 e desde então vivemos num entra e sai de governos democráticos e de governos autoritários.

Como sociedade não nos conseguimos equilibrar, sempre submissos a interesses de classe. Fanatismos ideológicos ou religiosos são invocados sempre que a Casa Grande se sente ameaçada pela senzala. Falta-nos orgulho nacional, sobra-nos o entreguismo, a subserviência cultural, o desinteresse pela própria política, enfim, somos uma espécie de fundo de quintal dos que querem e sabem o que fazer para nos manter em tal situação.

1889. De lá para cá são 127 anos. Mais de um século, portanto. E ainda não aprendemos a atravessar a rua como as galinhas o fizeram em menos de um século.

Que eu saiba, e até prova em contrário, o cérebro das galinhas é bem menor que o da maioria dos brasileiros.

Leia também:

Temer privatiza todas as vagas de Medicina

O post Izaías Almada: Quanto tempo levaremos para atravessar uma rua como as galinhas? apareceu primeiro em Viomundo – O que você não vê na mídia.

Publicação de: Viomundo